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Rock in Rio-Lisboa, 4º dia (31/05), com Arcade Fire e Lorde: leia a reportagem e veja as fotos

47 mil e 500 pessoas (números da organização) no Parque da Bela Vista. Lorde arrebata o palco Mundo. Arcade Fire dão um dos melhores concertos da edição deste ano.

Arcade Fire e Lorde são os principais destaques da programação de hoje do Rock in Rio-Lisboa, um dia depois de Linkin Park terem levado 68 mil pessoas (números da organização) ao Parque da Bela Vista. A abrir o Palco Mundo, uma homenagem a António Variações, quando passam 30 anos sobre a sua morte, com a presença de Linda Martini, Gisela João, Deolinda e membros dos Rádio Macau e Heróis do Mar, entre outros. No palco Vodafone, destaque para o regresso dos Wild Beasts a Portugal. Siga aqui a reportagem BLITZ, em atualização permanente,
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Palco Mundo Arcade Fire - 23h55 Lorde - 22h00 Ed Sheeran - 20h30 Homenagem a António Variações - 19h00 Palco Vodafone Wild Beasts - 20h00 Capitão Fausto - 18h00 Unifyer - 16h45 Eletrónica Frivolous - 03h00 Benoit & Sergio - 02h00 Apollonia - 00h00 Flow & Zeo - 23h00 Ramboiage - 22h00 ----------------- 18h40 - Os Capitão Fausto registam audiência elevada no Palco Vodafone, jovem povo que não hesitou na altura de fazer crowd surfing ao som do rock psicadélico mais apreciável do burgo - e, sinceros seremos, sérios concorrentes a autores do melhor álbum rock de 2014 feito entre portas. Foi, sobretudo, Pesar o Sola fazer as despesas da tarde, com uma banda visivelmente rotinada a motivar reações acaloradas de uma plateia conhecedora, no meio da qual avistámos um sempre atento Miguel Ângelo, ex-vocalista dos Delfins. Tomás Wallenstein, de cigarro aceso, agradeceu ao público "bonito" as ovações sentidas no culminar de espécimes rock de primeira água como "Ideias", "Maneiras Más" ou "Nunca Faço Nem Metade", mas foi com "Litoral" que se sentiu, no calor de maio (ainda), que há uma banda a canalizar um sentimento contemporâneo (repescando magama psicadélico de outrora, é bom lembrar) dentro da música elétrica em Portugal. Cedendo aos pedidos, Wallenstein também surfou nas filas da frente. É a banda certa na altura certa (e a transformar o Rock in Rio num poiso seu) - haja alguma.
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21h03 - A ideia era boa, os nomes eram de topo mas a Homenagem a António Variações ficou aquém das nossas melhores expectativas. O início, ainda o sol brilhava e refletia no vestido dourado de Gisela João, conseguiu arrepiar-nos, com "Quero É Viver" (cantado por Camané no disco dos Humanos), a ganhar valor extra na sua voz encorpada, e "Anjinho da Guarda" a garantirem uma receção acolhedora à fadista. Os aplausos foram muitos quando os "meus amigos" Linda Martini se juntaram a João para recriar uma versão de "Adeus Que Me Vou Embora" que levaram ao palco do Lux há uns meses, mas o efeito mágico perdeu-se na imensidão do Parque da Bela Vista. O quarteto ficou, então, sozinho em palco para acelerar, sem nos convencer muito, com "Toma o Comprimido" e para se atirarem à soturnidade magistral de "Visões Ficções". "Canção de Engate" seria apresentado de seguida pelos "Deolinda Martini", com Ana Bacalhau, dos Deolinda, a roubar facilmente o protagonismo num projeto que é a sua cara. Calhou também à sua banda a "sorte" de interpretar os maiores sucessos da carreira de Variações, com "O Corpo É Que Paga" e "É P'ra Amanhã" a puxarem pelo coro e as palmas da pequena multidão que tinham à frente, e "Estou Além", já em dueto com Rui Pregal da Cunha, que se fez acompanhar de Paulo Pedro Gonçalves (seu companheiro nos Heróis do Mar) e elementos dos Rádio Macau (Flak, Samuel Palitos e Alexandre Cortez). A "super-banda" continuou de onde os Deolinda deixaram mas o entusiasmo da voz de Pregal da Cunha fez muito pouco por temas como "Dar e Receber" ou "Erva Daninha". "O António tinha uma coisa incrível... É só músicas que todos os portugueses conhecem", disse o músico quando irrompeu palco dentro. O final, depois de uma declaração inquestionável: "as canções do António durarão o tempo que for preciso porque são sobre nós, portugueses", reuniu todos os projetos em palco para um "Amália na Voz" que seria adaptado para "todos nós temos António na Voz". Houve ainda tempo para vários selfies em honra do "melhor público". O palco Vodafone esteve finalmente a rebentar pelas costuras para ver aquele que, até ao momento, se transformou no melhor momento deste penúltimo dia de Rock in Rio-Lisboa. Os Wild Beasts deixaram o público rendido às canções do novo álbum, Present Tense, e às recuperações de alguns dos pontos mais altos de uma discografia de valor superior. "Mecca", o farol que ilumina o novo disco, seria servida a abrir e, daí em diante, o quarteto seguiu a bom ritmo com "Sweet Spot", "A Simple Beautiful Truth" e o intenso "Daughters". O primeiro regresso ao passado chegaria com "Hooting & Howling", tema que terá servido a muita gente de porta de entrada ao universo dos Wild Beasts e por isso foi talvez dos mais participados da atuação. "Como é que quatro gajos ingleses pedem cidadania portuguesa", perguntou às tantas o vocalista Hayden Thorpe, dedicando de seguida "Reach a Bit Further" ao serviço de emigração português. Mais tarde voltaria a dizer "o vosso vinho é bom, o clima é bom, as raparigas são boas e os rapazes também", deitando assim mais lenha no fogo que aquece uma história de amor com o público português que vai crescendo de concerto em concerto, de festival em festival. "All the King's Men" e o irresistível "Wanderlust" ficariam guardados para o fim, antes de a banda perceber que ainda conseguia encaixar mais um tema no alinhamento: "Lion's Share" foi a canção escolhida... E não poderiam ter escolhido melhor ponto final para uma atuação que provou que os Wild Beasts são banda que se sai bem seja qual for o público que tenham à frente.
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21h34 - Seria preciso bonomia em dose generosa para que qualquer exercício crítico sobre o concerto de Ed Sheeran não caísse no óbvio: o ruivo inglês de 23 anos não é muito mais do que um cantor de pub irlandês subitamente engrandecido pela amplificação da sua guitarra acústica. Sheeran, que tem dois álbuns no currículo, é um trovador romântico cuja boa disposição e disponibilidade mais facilmente comparamos à do cozinheiro Jamie Oliver do que à de um dotado cantor e compositor - algo que, convenhamos, não é. À frente, um público adolescente maioritariamente feminino junta a sua voz à do intérprete, num coro afinado que, ainda assim, não disfarça a aparentemente menor dimensão da moldura humana de hoje, quando comparada à do dia anterior. Sheeran faz serpentear a sua voz num registo entre a folk de cantor de rua (sem desprimor para o cantor de rua) e o competente entertainer de festa do secundário. Uma voz por vezes em falsete, na iminência do orgasmo, faz as delícias da acólitas das primeiras filas (e são muitas), há choro no público, corações desenhados com os dedos e todos os êxitos que a rádio celebrou, de "The A Team", a "Lego House" e a "Sing". Ironicamente, Ed Sheeran será, porventura, o artista mais alternativo do cartaz de hoje do Rock in Rio: tirando os devotos da frente de palco (ruidosos, empenhados, lacrimejantes) e os habituais pares de namorados sedentos "daquela" canção, ninguém mais parece estar aí: janta-se pizza em quase tudo o que é recanto. Boa ideia.
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23h26 - O fenómeno Lorde pode ser algo incompreensível para quem não encontra em "Royals" razões suficientes para justificar o sucesso em que se tornou. A esses (entre os quais, de resto, nos incluímos) aconselhamos: nada melhor que conferir ao vivo a artista que David Bowie considera ter na voz o futuro da pop. A artista neozelandesa de apenas 17 anos subiu ao palco, acompanhada por um baterista e um teclista, como vencedora ("abrir" para os Arcade Fire não é para todos) e abandonou-o com uma cidade aos seus pés. Com um alinhamento que percorreu, de lés a lés, Pure Heroine, o álbum de estreia a solo, e também os dois EPs que gravou, Ella Yelich-O'Connor conseguiu a proeza de fugir às versões e mesmo assim conquistar uma plateia sempre recetiva. Vestida de branco e, como é hábito, de lábios pintados de roxo, a artista mostrou-se surpreendida com aquilo que disse ser provavelmente a maior plateia que teve à sua frente até hoje e serviu em transe "Biting Down", aqueceu o ambiente com uma "Tennis Court" tingida de hip-hop, seguiu lenta e soturna por "Swinging Party" e "Still Sane", tão intimista quanto um palco das dimensões do palco Mundo pode ser. Imprópria para epiléticos, "Easy", que gravou com Son Lux, foi um dos pontos altos da atuação, com a dança esquizofrénica a infetar um público que reagiu em histeria quando, momentos depois, Lorde falou sobre os "amigos" Arcade Fire, explicando que eles lhe tinham dito que os portugueses são o melhor público: "acho que eles estão certos". "Royals" e "Team" foram apresentas em sequência, já bem perto do final da atuação, e tiveram, claro, direito a coro gigante. A chuva de confetti dava então o mote para as despedidas, feitas ao som de "A World Alone".
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02h00 - Se a memória não nos atraiçoa, quando os Arcade Fire pisaram pela primeira vez solo português estavam já em estado de graça: nesse longínquo verão de 2005, em Paredes de Coura, já toda a gente sabia que Funeral, editado em setembro do ano anterior, não era mais um disco de uma banda indie à procura de ser grande - era a banda sonora capaz de pintar o cenário de um pedaço de vida. As voltas e os mistérios de Funeral eram tão singulares que a nação alternativa não esperou para adotá-lo como disco de estimação, o primeiro clássico do pós-novo rock (Strokes, White Stripes), o primeiro conjunto de canções isento de inscrição numa "cena" da década dos 00. Funeral era Arcade Fire e os Arcade Fire eram os Arcade Fire - não era uma banda tipo qualquer coisa. Quase nove anos depois, vê-los no mais amplo palco do Rock in Rio-Lisboa obriga-nos a um esforço de retrospetiva. Como é que uma banda de estimação de uma fação desalinhada com o rock de massas acaba a tocar na catedral do rock (ou da pop, concedemos) de massas? A resposta é relativamente simples, mas explica o complicado: porque soube manter os fãs que já tinha, angariando muitos mais. E isso só se consegue, salvo melhor explicação, de duas maneiras: aproximando-se das massas ou levando as massas a aproximar-se de si. Não será estranho que os Arcade Fire tenham feito as duas coisas e, com isso, dotando o seu percurso de uma aura de credibilidade bem difícil de almejar. Quem ouve Reflektor, ambicioso duplo álbum lançado no final de 2013 e repositório de rock, pop electrónica, temperada por pós de dub, dancehall e ritmos do caribe, não sente que a banda dos épicos elétricos de Funeral mudou de negócio. Quem só aparece agora, a reboque da verve recente, não vai achar que o passado distante de Win Butler e companhia era mobília tosca a precisar de acabamentos. Entre um e outro álbum, entre o primeiro concerto entre nós e o desta noite, houve mais discos, mais concertos, inflexões mais suaves ou pronunciadas, beijos na cara do indie ou piscares de olho ao mainstream mais cintilante. Nesse sentido, os Arcade Fire são, ainda, uma banda à moda antiga: o showbusiness não exclui aventura, o "make believe" não é uma farsa; é ele próprio uma razão de existência. A dúzia de almas que vemos em palco a trocar constantemente de instrumento e de posição parece, grosso modo, uma banda de casino embriagada a tocar no jardim de verão do palácio. Vestidos para a festa, com fatos reluzentes e uma solenidade algo cómica, os Arcade Fire rapidamente se ensopam em transpiração e, solenidade da farpela à parte, entregam-se abnegadamente à missão de dar espetáculo. Fazem-no como se estivessem treinados para a liga dos campeões desde o tempo em que andavam nos campeonatos regionais. Secção de metais e umas mãos extra na percussão acrescentam-se à formação habitual, onde se destacam naturalmente Win Butler (voz, guitarra, piano, chefe de orquestra), Régine Chassagne (voz, uma data de instrumentos) e Richard Reed Parry (teclados, percussão, ruivo mestre de cerimónias, etc). Note-se o retorno à casa de Sarah Neufeld, violinista que por altura da edição Reflektor saíra para lavrar um disco a solo. É com o noturno tema-título, electro épico para flashes contínuos, que o concerto desta noite abre. "Flashbulb Eyes", também do álbum de 2013, segue-se sem pausa. A generosidade na abordagem a Funeral começou logo a seguir (por outro lado, quase nada foi tocado de Neon Bible, um segundo álbum a que falta o brilhantismo do primeiro): "Neighborhood #3 (Power Out)" suscitaria os primeiros coros da noite, palavras gritadas para o céu a espantar espíritos. Colada a esta, "Rebellion (Lies)", mais épico, mais excitado, mais alto, mais tudo. Plateia ganha num instante. Depois de um "Rococo" morninho (pior canção dos Arcade Fire?), uma canção "sobre a saudade" (Win Butler dixit), "The Suburbs" - o vocalista ao piano, Régine atrás da bateria, sorridente. Falha-se o arranque de "Month of May" por duas vezes e uma versão curta, quase "a capella", de "My Body Is a Cage" resolve o impasse. "Month of May" ficaria para outras núpcias porque da cartola saem mais dois coelhos: "Neighborhood #1 (Tunnels)", canção nervosa, turbilhão pronto a explodir (mais um coro redentor) e "No Cars Go", cavalgada imperial a terminar em triunfo, um estado êxtase que provavelmente só os Arcade Fire conseguem repetir, sem perda de emoção, ao longo de quase duas horas. Dança-se com "Haïti", há ginga de "Billie Jean" em "We Exist" (o novo single), um homem vestido de espelhos (refletor, claro) assoma na plateia em "Afterlife", ataca-se território funk com "It's Never Over (Oh Orpheus)", aqui com Régine numa plataforma a alguns metros do palco, assombrada por um esqueleto, a alternar o protagonismo com o marido. Estridente, mas afinada, a vocalista interpreta depois uma emocionante "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)" que parece irmanada com "Heart of Glass", dos Blondie. O momento mais rock desbragado dá-se com "Normal Person", riffalhada que arde (lembra "Addicted to Love", de Robert Palmer) e cabeças a abanar para cima e para baixo numa plateia que nunca saiu da rede de enlevo montada pela banda canadiana. Vemos agora os gigantones de Reflektor sobre o palco, subitamente mais populoso. "Here Comes The Night Time", canção de dois balanços, é outro pico do concerto, num momento arrebatada e dramática, noutra divertida e descomprimida (e há quem jure ter visto Lorde em palco neste momento) e foi depois de uma chuva de confetes que o desenlace se deu, ao som de uma "Wake Up" ainda lá mais em cima de tudo (continua uma delícia aquele final à "Lust for Life", de Iggy Pop), coros disparados para um céu limpo de primavera, fantasia de concerto rock plenamente cumprida, "esta banda ainda é o que era". Sai-se daqui muito bem tratado. Alinhamento: Reflektor Flashbulb Eyes Neighborhood #3 (Power Out) Rebellion (Lies) Joan of Arc Rococo The Suburbs The Suburbs (Continued) Ready to Start Month of May (interrompida) My Body Is a Cage Neighborhood #1 (Tunnels) No Cars Go Haïti We Exist Afterlife It's Never Over (Oh Orpheus) Sprawl II (Mountains Beyond Mountains) Normal Person Here Comes the Night Time Wake Up Textos: Luís Guerra e Mário Rui Vieira Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos