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O Monstro Precisa de Amigos faz 15 anos: leia aqui texto da BLITZ 30 Anos

O segundo disco dos Ornatos Violeta foi editado a 22 de novembro de 1999. Leia aqui o texto publicado na BLITZ 30 Anos, onde foi considerado o terceiro melhor álbum português dos últimos 30 anos.

A gestação do segundo disco dos Ornatos Violeta ia no segundo mês quando uma sexta-feira aziaga quase deitou tudo a perder. Em estúdio com Mário Barreiros, os cinco músicos começaram a pôr em causa todo o trabalho já feito. Elísio Donas, teclista da banda portuense, lembra-se bem daquele dia "horrível. Todos queriam deitar o disco fora. O Monstro esteve para não existir. Eu fui o único a dizer que estavam todos malucos", recorda, com humor. Para Elísio, a grande riqueza dos Ornatos, que com apenas dois álbuns Cão!, em 1997, e O Monstro Precisa de Amigos, de 1999, firmaram um lugar muito especial no cancioneiro nacional, era precisamente a variedade de visões que quase conduziu ao "aborto" do segundo longa duração.

"Nos Ornatos, cada um puxava para o seu lado. Claro que remávamos para o mesmo lado e havia cedências de todos, mas a riqueza da banda era essa variedade".

Depois de uma estreia frenética, que Elísio descreve como uma amálgama dos artistas que o grupo admirava, O Monstro... não surgiu de qualquer plano. "Não tínhamos uma direção definida, só queríamos fazer música".

Produzido por Mário Barreiros, o Monstro seria o segundo e derradeiro disco dos Ornatos Violeta A primeira canção da era Monstro foi "Tempo de Nascer", incluída na compilação Tejo Beat mas deixada de fora do álbum, como tantas outras. "Deitávamos fora dezenas de músicas. O parto do disco foi muito difícil", garante, lembrando porém que, quando o álbum chegou às lojas, todos sentiam que correspondia, pelo menos, "ao melhor que podíamos ter feito". Elogiando o papel do produtor Mário Barreiros - "embarcou num projeto e só saiu seis meses depois" - Elísio conta ainda que, depois da sexta-feira de todas as dúvidas, acabaria por nascer "Capitão Romance", uma canção que considera muito especial, por destoar do resto do disco e ter Gordon Gano, dos Violent Femmes, o grande ídolo dos Ornatos, a cantar em português.

O clichê do segundo disco "mais maduro" aplica-se a' O Monstro, concorda Elísio, porque a banda tinha ganho "força, firmeza, caráter. O processo criativo foi muito diferente". E desse trajeto "neurótico" brotou um álbum de muitas vidas: depois do fim da banda, em 2002, canções como "Chaga", "Dia Mau" ou "Ouvi Dizer" conquistaram uma nova geração, que compareceu em peso aos concertos de 2012; dois anos antes, o disco chegaria discretamente à Platina. "É um disco cinzento-escuro. Se não tivesse vivido com o Manel, não entenderia aquelas letras", diz Elísio, surpreendido com a adesão dos mais jovens aos "códigos" do letrista e vocalista. "Ele sempre teve aquele dom de ilustrar as nossas histórias, os nossos amores, as nossas perdas. O Monstro é um disco que me apazigua, me faz ter esperança e ter crença no mundo, nas pessoas".  Lia Pereira Artigo originalmente publicado na BLITZ especial 30 Anos, ainda nas bancas