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No dia em que eu... almocei com Rui Pregal da Cunha [crónica de Rui Miguel Abreu]

Hoje Rui Miguel Abreu faz uma pausa para almoço e senta-se à mesa com um verdadeiro herói do mar...

A minha vida profissional não se enclausura entre quatro paredes nem se limita a dar-me que fazer entre as 9 e as 5 e isso obriga-me a ter diversos "escritórios". O tempo livre entre as aulas, entre reuniões, ou entre uma passagem matinal pela redação da BLITZ e uma gravação de rádio pela tardinha obriga-me a ir encontrando espaços por Lisboa - e não só... - onde possa ir trabalhando e avançando nalgumas das leituras que tenho que fazer. O meu mapa pessoal inclui diversos espaços, consoante a zona para onde me levam os meus afazeres, e nesses espaços procuro sempre que haja bom ambiente, algo que se coma e beba e, fundamental, wi-fi gratuito. Felizmente, o meu verão foi um pouco mais tranquilo e não me obrigou muitas vezes a recorrer a esses "escritórios"  mais improvisados e por isso não posso propriamente lamentar só  agora ter descoberto o espaço Can The Can, na Praça do Comércio, em Lisboa. E já agora, uma palavra sobre a Praça do Comércio: não sou especialista em urbanismo, nem nada que se pareça, mas nunca percebi porque não havia em Lisboa o equivalente às "plazas mayores" que parecem existir em todas as cidades espanholas, com esplanadas e arcadas a injetarem vida nos centros históricos. A nossa Praça do Comércio parece finalmente estar a cumprir essa vocação potencial. É aí que se encontra o Can The Can. Esta crónica, no entanto, não é um roteiro de passeios gastronómicos, e alguma ligação à música terá que se encontrar nesse espaço. Não há uma, há várias. Este é o novo projeto de Rui Pregal da Cunha, a voz dos lendários Heróis do Mar, agitador em diversas frentes que já no ano passado tinha levado uma original programação de DJs a uma das esplanadas do Terreiro do Paço, quando convidou músicos como Armando Teixeira ou Rita Redshoes e Legendary Tigerman a deixarem os instrumentos em casa e a trazerem só discos para partilharem com as pessoas. No Can The Can, Rui explica que tem em movimento um "laboratório de fado". O que faz todo o sentido, com o Cais das Colunas ali tão perto e tratando-se de uma tão privilegiada sala de estar de Lisboa. Ao almoço que por ali desfrutei isso traduziu-se num guitarrista - de guitarra portuguesa, nem mais - a improvisar instrumentais sobre base eletrónica, música mais do que condizente com o belíssimo tempo que fazia e com a ocasião. Mas procurem que hão-de encontrar uma programação fadista mais ambiciosa para algumas noites do mês. O Can the Can, como o nome indica, serve conservas, acompanhando saladas e outras iguarias. Tratando-se de Rui Pregal da Cunha, confirma-se o bom gosto da decoração e até o atendimento tem algo de diferente. Lá dentro, no amplo espaço do restaurante propriamente dito, há muitas latas, mas também alguns discos na parede, incluindo, claro, vinis dos Heróis do Mar. Não fui a este espaço à espera de encontrar o Rui, antes para almoçar com amigos e aproveitar o wi-fi para avançar algum trabalho. Mas o Rui acabou por partilhar alguns momentos na nossa mesa e em conversa disse-nos algo que um amigo lhe tinha confessado a ele: "Este restaurante é como os Heróis do Mar". E não é que é mesmo? Como os Heróis, também o Can The Can pega numa coisa profundamente portuguesa para lhe dar um toque moderno, original, diferente. E um espaço assim podia estar em Nova Iorque ou noutra qualquer capital cosmopolita, mas está em Lisboa, tem música e sabores dentro e uma ligação à nossa história musical. Que mais se pode pedir? Wi-fi gratuito e vistas desafogadas? Também tem...

Crónica de Rui Miguel Abreu

Foto: Arquivo Gesco