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Lisboa, 13.09.1990: o dia em que interrompemos o jantar de David Bowie [crónica de Rui Miguel Abreu]

Regressamos a setembro de 1990 e "perseguimos" David Bowie em Lisboa. A história da entrevista e das fotos que não estavam previstas.

Quando a digressão Sound + Vision de David Bowie aterrou em Lisboa em Setembro de 1990, já eu tinha às costas um ano inteirinho de vida de redação. Sentia-me jornalista e talvez nem tenha percebido então como esse papel e o de fã absoluto do homem de Heroes se poderiam confundir. Nesse momento, pensei que o estatuto profissional me poderia ajudar a cumprir um sonho de fã e colocar-me frente a frente com o verdadeiro Golias que era o senhor David. Claro que os pedidos de entrevista pelos canais oficiais caíram em saco roto, levando-me a puxar pela imaginação. Da redação, comecei então a ligar para todos os hotéis de 5 estrelas de Lisboa - que não eram assim tantos - pedindo para me ligarem ao room service. "Bom dia, queria apenas saber se o senhor David Bowie já pediu alguma coisa para a sua suite..." Quando do outro lado ouvia "senhor quê?" sabia que estava na hora de ligar para o hotel seguinte da lista.

David Bowie em Alvalade, a 14 de setembro de 1990 Do Sheraton responderam-me com outras palavras - "Sim, já seguiu um cesto de frutas para a suite". Foi o suficiente. Plantei-me com um fotógrafo no átrio do hotel na esperança de ver David Bowie descer e conseguir os tais momentos por que o fã dentro de mim ansiava ardentemente. A dada altura alguma agitação no átrio traiu a presença da banda. Reconheci o guitarrista Adrian Belew, companheiro de palco de Bowie desde finais dos anos 70, membro dos King Crimson, e diretor musical da digressão. Como o Camaleão não mostrou as cores, resolvi com o fotógrafo seguir a banda que saiu do hotel num mini-bus em direção ao restaurante panorâmico de Monsanto. O motorista da banda ainda tentou despistar-nos, subvalorizando a determinação de um fã, de um fotógrafo e de uma resistente Renault 4L.

À porta do restaurante onde David Bowie foi jantar, em Lisboa Estacionámos frente ao restaurante, mas ainda assim nada indicava que David Bowie estivesse ou viesse a estar no restaurante. Até que uma limusina preta com vidros fumados se aproximou. A porta abriu-se e um tipo que não era David Bowie saiu e dirigiu-se a mim e ao meu fotógrafo, tentando explicar-nos que não podíamos estar ali. Acho que me saiu algo como "estou no meu país, o meu país é livre e daqui não saio". Muitos filmes e hormonas ainda algo descontroladas. "What do you want?" Cinco minutos para fazer cinco perguntas, respondi. Um par de minutos mais tarde aconteceu: David Bowie estava à minha frente.

O "Camaleão" foi perseguido até Monsanto Já não me lembro das perguntas que lhe coloquei, mas lembro-me que uns anos mais tarde a edição de Black Tie White Noise me levou até Londres para uma entrevista com David Bowie que teve lugar num estúdio. Não percebi logo, mas a pessoa que me recebeu no estúdio era a mesma que três anos antes negociou comigo os cinco minutos de entrevista em Monsanto. Quando me levou para a sala de captação onde Bowie estava sentado num banco alto, apresentou-me dizendo algo como "David, remember this guy?". David Bowie olhou-me fixamente por uns momentos, esticou o dedo e sem grande hesitação respondeu: "You're that guy from Lisbon, right?" Na verdade sou de Coimbra, mas não seria eu a corrigir o homem de "Starman". "Yes, I am!". Rui Miguel Abreu

Fotos Arquivo A Capital Originalmente publicado em maio de 2011