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Festival EDP Paredes de Coura: reportagem do 5º dia (17/08) com Ornatos Violeta e The Go! Team [texto + fotos]

Ornatos Violeta fecharam com chave de ouro último dia de Paredes de Coura. Veja as fotos e saiba como correram os espetáculos.

Chegou o último dia do festival Paredes de Coura. Os Ornatos Violeta, que pelas 00h15 darão o seu primeiro concerto desde que se separaram, em 2002, são os grandes cabeças de cartaz. Antes deles, tocam Dead Combo, Go Team e God Is An Astronaut, entre outros. A BLITZ já está no recinto para lhe trazer as melhores imagens e todas as histórias do derradeiro dia de Paredes de Coura 2012. Acompanhe aqui a nossa reportagem. Palco EDP 18h30 - Ladrões do Tempo 19h45 - Capitão Fausto 21h05 - The Go! Team 22h35 - Dead Combo 00h15 - Ornatos Violeta Palco Vodafone FM 18h00 - Youthless 19h15 - Best Youth 20h30 - Memoryhouse 21h45 - God Is An Astronaut 02h00 - Chromatics 03h10 - Sunta Templeton ======

18h30 - O calor no recinto é muito e os festivaleiros também circulam em grande número, deixando antever uma ótima casa logo à noite. Os Ornatos Violeta - que vimos passar de carrinha, na nossa chegada ao festival - são claramente a banda que mais gente traz a Paredes de Coura, no dia de hoje. A prová-lo está a corrida à banca de t-shirts e discos, com as "camisetas" d' O Monstro Precisa de Amigos, álbum que os Ornatos prometem hoje recordar, a voar poucos minutos depois da abertura das portas.  No campismo, a tranquilidade impera, com muitos festivaleiros a aproveitar o bom tempo tomando banho no rio, apanhando banhos de sol ou dedicando-se a atividades da restauração alternativa, como vender cachorros "caseiros" por 1,50 euros.

18h30 - Os Ladrões do Tempo não têm Tim na voz, mas talvez pela presença de Zé Pedro numa das guitarras (a outra pertence a Tó Trips, acompanhado pelo parceiro dos Dead Combo, Pedro Gonçalves, no baixo) o som que ecoa pelo anfiteatro natural de Paredes de Coura traz-nos à memória os Xutos e Pontapés. Além do timbre de Paulo Franco (Dapunksportif, Dias da Raiva), também as letras, versando um certo quotidiano proletário, nos lembram a "outra banda" de Zé Pedro. Já numeroso para esta hora, o povo de Coura aguarda sereno a chegada dos cabeças de cartaz - e para quem, como nós, se lembra de ver os Ornatos Violeta em coretos e festas de aldeia, ainda parece estranho (mas bom) vê-los elevados a este estatuto. Generoso, o público ainda obrigou os Ladrões do Tempo a voltar para, à falta de mais canções, repetirem o tema "Mora na Filosofia". Culpa da austeridade, brincou Paulo Franco. 19h15 - "É um prazer enorme ver tantas cabeças", agradece Catarina Salinas, à frente dos portuenses Best Youth, que concentram algum público frente ao palco secundário. Com a participação de Nuno Oliveira, dos Memória de Peixe, na bateria, a banda de Winterlies seduziu com a sua pop algo lasciva, para a qual muito contribui a pose de suave desafio da cantora. "Alguém viu os Stone Temple Pilots em Coura?", perguntam a certa altura os Best Youth. Curiosamente, a reação é mais efusiva quando a banda menciona que hoje é dia de Ornatos. No campismo (fotos novas em breve), a vida continua e seca: há muita roupa estendida e uma sensação de rescaldo antecipado e missão cumprida, típica de um último dia. 20h00 - Aos Capitão Fausto apetece-lhes tocar uma canção nova, "sem nome e sem voz", nesta primeira passagem por Paredes de Coura. E fazem-no, com sucesso, pois à sua frente têm uma pequena multidão de conhecedores e curiosos que adere às mil maravilhas à pop veraneante e lúdica do grupo de Lisboa. No concerto dos Kasabian, ontem à noite, um grupo de amigos veio ter connosco, instruindo-nos a escrever que estavam em Coura só para ver os Capitão Fausto. Depois desta atuação ao lusco-fusco, e de constatarmos a reação eufórica dos espectadores a canções pegadiças como "Teresa" e "Santa Ana", apresentada pelo vocalista Tomás Wallenstein como apelo à "festa latina", não duvidamos que os autores do debute Gazela arrastem e continuem a arrastar fãs entusiastas. No palco secundário, os Memoryhouse cantam uma versão de "Son of a Ladies Man", do fabuloso disco de Father John Misty, Fear Fun. 21h10 - No papel, os ingleses The Go! Team parecem uma banda talhada para festivais, com a sua mistura de cheerleading, Verão Azul, aula de aeróbica e colagem impossivelmente otimista de géneros musicais. A seu favor o grupo de Brighton tem, também, a atitude da vocalista principal, Nkechi Ka Egenamba aka Ninja, bela e atlética, incansável na missão de desafiar o público ("Sabemos do que os espanhóis são capazes - mas e vocês?"). Nos Go Team militam ainda outras duas vocalistas, e o jogo de vozes femininas contribui para um som mil-folhas e efervescente. Nada disso é suficiente para agitar demasiado as águas de Coura - Ninja bem que manda o público virar à esquerda e à direita, à direita e à esquerda, no cintilante "Ladyflash", mas se há quem obedeça também há quem aproveite para ir jantar, que a noite ainda é uma criança. Em "Huddle Formation", Ninja tenta dar uma aula de inglês aos festivaleiros, mas os seus esforços têm resultados localizados. 22h25 - No palco secundário há tanta gente para ver os God Is An Astronaut que mal conseguimos vislumbrar os músicos irlandeses. Aliás, a visibilidade deste espaço deveria ser repensada pela organização, uma vez que, desde que os declives naturais que o ladeiam foram ocupados por barracas de comes e bebes, qualquer concerto com mais público é complicado de ver por quem fica na segunda metade da "plateia". Lá à frente, os homens de "All Is Violent, All Is Bright" debitam com intensidade o seu rock ora épico, ora atmosférico, sem conversas nem apresentações mas com atenção e palmas a acompanhar alguns temas; cá atrás, ouvem-se lamentos como "é pena ser só instrumental" e combinam-se encontros, trocam-se expectativas e dá-se corpo a uma noite em que a expectativa compromete a atenção. Dentro de minutos entram em palco os Dead Combo, que tocarão no palco principal, para uma plateia já cheia. 22h30 - A noite está amena e ideal para receber os Dead Combo, a dupla portuguesa (esta noite acompanhada por Alexandre Frazão na bateria) escalada para tocar antes dos Ornatos Violeta. Ainda que muitos se concentrassem frente ao palco principal para marcar lugar para o espetáculo seguinte, a banda de Pedro Gonçalves e Tó Trips deu um belíssimo concerto, cativando o público com o seu som latino, tex-mex, jazzy, blues e o que mais vier à rede, num cenário a fazer lembrar o romantismo retorcido de Tom Waits. "A Menina Dança", dedicada a todas as mães que não puderam vir ao festival, "O Assobio (Canção do Avô)", "Cacto" e, a fechar, "Lisboa Mulata" foram alguns dos instantes mais empolgantes de uma atuação que emocionou os próprios músicos. "Nós fizemos uma aposta que um dia havíamos de vir tocar aqui - ao palco Jazz na Relva", brincou Tó Trips, que tal como Pedro Gonçalves tinha pisado este mesmo palco, horas antes, com os Ladrões do Tempo. Como convidado especial, muito acarinhado por Pedro Gonçalves, os Dead Combo tiveram Peixe, o guitarrista dos Ornatos Violeta, para tocar em dois temas - o que nos fez lembrar que a primeira vez que vimos os autores de "Lusitânia Playboys" foi no Porto, mais precisamente no Maus Hábitos, com Nuno Prata (também dos Ornatos). Prova de que tudo está ligado - e a forma como os Dead Combo arrebataram o público esta noite, com o seu som cheio e quente, demonstra, como se necessário fosse, que artistas portugueses não afugentam os festivaleiros, pelo contrário (aliás, já antes deles e ainda que numa escala menor, os Capitão Fausto haviam conseguido uma bela receção). 2h30 - O concerto dos Ornatos Violeta chega ao fim, com banda e público em êxtase. O espetáculo da banda do Porto, que tinha fechado a "loja" há coisa de dez anos, era o mais aguardado da noite e, possivelmente, de todo o festival. Se o alinhamento não seria, à partida, passível de causar grande surpresa - esperava-se que respeitasse a ordem das canções de O Monstro Precisa de Amigos, o que, com uma ou outra intromissão bem-vinda, foi acontecendo - muitos outros fatores suscitavam expectativa no público, a perder de vista, que enchia o anfiteatro de Paredes de Coura. Nunca em Portugal, que nos lembremos, uma banda rock de sucesso moderado/de culto no seu tempo de vida regressou à atividade dez anos depois, com uma base de fãs dilatada e sôfrega. Durante muitos anos, os músicos que haviam integrado o grupo negaram a possibilidade de se virem a reunir, o que agora deixava nos mais inquietos, também, a dúvida: como encarariam Manel Cruz (voz), Peixe (guitarra), Elísio Donas (teclados), Nuno Prata (baixo) e Kinörm (bateria) a multidão que os aguardava? Afinal, ainda recentemente o guitarrista - que hoje tocou, também, com os Dead Combo e apareceu em palco com uma t-shirt daquela dupla - admitia que, tecnicamente, a missão estava "controlada", e que o problema poderia ser a questão emocional. A resposta a quase todas estas inquietações não podia ser mais positiva: à medida que se aproximava a concretização daquele que foi, ao longo dos anos, um sonho impossível para tantos, a ansiedade era palpável e bonita de se sentir. Quando, ao fim de algumas ameaças, o quinteto do Porto entrou em palco, de sorriso estampado no rosto e braços erguidos, triunfais, o arrepio coletivo deve ter-se sentido no Norte de Espanha. "Tanque", uma das canções mais monolíticas de Monstro e aquela que abre o disco, provou ser verdade aquilo que Manel Cruz dissera à BLITZ: que embora a banda já não tenha a "energia adolescente" de outros tempos, encontra agora na contenção (vocal, mas não só) um novo trunfo. A expressividade do cantor, todavia, mantém-se inalterável, sobretudo nos temas em que se vê livre da guitarra. Seguiram-se "Chaga" e "Dia Mau", duas das canções mais fortes do disco e que, por culpa de alguns "espectadores" e não da banda, deixaram um travo amargo em muitos dos fãs que se encontravam nas primeiras filas: a BLITZ teve a triste ideia de assistir ao concerto perto do palco e, além de perder um sapato (nada de grave), viu muita gente a ter de ser retirada por seguranças e fotógrafos, esmagada e com falta de ar - admiradores da banda que perderam a oportunidade de usufruir convenientemente de um grande concerto, graças àqueles para quem o mosh é tão natural, e tão falho de regras, em concertos como Ornatos Violeta ou Kasabian (!). De volta à música: outra das grandes curiosidades que sentíamos prendia-se com a "volta" que os Ornatos iriam dar a "Deixa Morrer" e "Fim da Canção", duas das melhores canções de Monstro, geralmente proscritas da digressão desse álbum. Graciosas, ambas foram dos melhores momentos deste espetáculo onde também "Ouvi Dizer", que sofreu do efeito contrário - sobre-exposição e alguma saturação por parte de Manel Cruz - ganhou uma vida nova. A parte final, em disco declamada por Vítor Espadinha, surgiu num tom mais coloquial, exigindo, possivelmente, uma emoção diferente por parte do cantor: e o público acompanhou, emocionado, gritando para um dos dois microfones que Manel Cruz usou nessa música. "Como se diz na minha terra: foda-se!", desabafou então o "Bandido", gerando um coro espontâneo desse mesmo vocábulo. Logo a seguir, "Capitão Romance", outro dos pontas-de-lança do segundo e último disco de Ornatos, mostrou ter nascido para ser cantada em Paredes de Coura: toque mediterrânico, canção para marinheiros bêbedos, uma melancolia sem fim, doçura para entoar, sem atenção ao desafino, até perder a voz. No mesmo campeonato do algodão doce com travo agridoce, "Coisas" (pequena catedral, percebemos hoje - e como gostámos de ouvir Nuno Prata a cantar) e "Notícias do Fundo" (de uma beleza quase litúrgica, respeitada pelo público - mas também já estávamos longe do buraco negro onde perdemos o sapato) mostraram como os Ornatos se empenharam na preparação deste concerto. O novo final de "O.M.E.M." (com os Faith no More de "Gentle Art of Making Enemies" a transformarem-se nos Mr Bungle) ou o brilhantismo de "Nuvem" deixaram o público de Paredes de Coura como deve estar o público de um festival, na hora do cabeça de cartaz: tudo a olhar para o mesmo lado, o palco. Para o encore, como haviam dito os Ornatos em entrevista à BLITZ, podiam estar reservadas as surpresas, ou seja, as faixas que não entraram em Monstro: e foi assim que "Devagar" e "Como Afundar" (uma das melhores letras de Manel Cruz) chegaram a palco, em modo semi-acústico e sentido, e os espantosos épicos "Há-de Encarnar" e "Tempo de Nascer" (a canção com que nos apaixonámos pela banda, incluída na compilação Tejo Beat) voltaram a levar o eco dos cinco da Invicta a toda a região do Minho-Galiza. Por esta altura já não sobravam quaisquer dúvidas sobre a paixão com que os Ornatos Violeta encetaram esta sua nova vida (em Outubro há mais quatro coliseus) - os sorrisos dos músicos foram mesmo algo de comovente e recompensador para qualquer fã ver - nem do valor de Monstro, que em 2012 não só não soa datado como é perfeitamente capaz de perfazer um concerto de altíssima qualidade. Guardado estava ainda um encore com oferendas que ninguém podia antecipar: um tema de 1993, "A Metros de Si", espelho das influências cabaré dos primeiros anos dos Ornatos, "Pára-me Agora", um dos inéditos da caixa lançada no ano passado - e convite para a trupe da banda invadir, aos saltos, o palco numa celebração castiça - e, nem sequer contemplado no alinhamento, "Dias de Fé", uma rajada de ruído nunca gravada e que nos lembramos de ter encerrado o concerto na Aula Magna, em promoção de O Monstro Precisa de Amigos, em 2000. Foi o espetáculo em que mais gente vimos para ver os Ornatos: e, dessa vez, a Aula Magna nem sequer encheu. Esta noite, Paredes de Coura rebentou pelas costuras para fazer uma vénia à banda que não esqueceu na última década. Numa e outra ocasião de triunfo, "Dias de Fé" fechou. A fé compensa - confirmá-lo foi um prazer. Texto de Lia Pereira Fotos de Rita Carmo/Espanta Espíritos