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Deolinda ao vivo no Coliseu dos Recreios, Lisboa [texto e fotogaleria]

Não há austeridade na festa dos Deolinda. Três encores e um público rendido coroaram o concerto de uma banda que soube crescer sem se trair. Veja fotos e alinhamento.

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Pouco faltava para as dez da noite quando o triunfo dos Deolinda no Coliseu de Lisboa começou a desenhar-se. Vestem de camisa branca e casaco negro, Pedro da Silva Martins, Luís José Martins e José Pedro Leitão, e aguardam, acompanhados pelo "quinto deolindo" Sérgio Nascimento, na percussão, a chegada de Ana Bacalhau. Elegante e também de negro, a cantora junta-se aos companheiros e o livro começa a ser folheado, com contenção e uma alegria menos exuberante do que aquilo a que a banda nos habituara. Ao longo das duas horas que se seguiriam, porém, houve tempo, espaço e talento para todos os registos, do mais introspetivo à proto-intervenção, passando pela festa brava e cheia de humor, num concerto arrebatador que ilustrou de forma inequívoca a forma como os Deolinda conseguiram reinventar-se - introduzindo novos instrumentos e referências na sua música - sem abandonarem as raízes. Nem de propósito, "Algo Novo", canção de abertura de Mundo Pequenino, foi a primeira "senhora" a subir a palco, conquistando pelo contraste entre as palavras de ordem proferidas por Ana Bacalhau e a delicadeza do jogo de guitarras dos irmãos Martins. Para "Concordância", o segundo tema da noite, que trouxe ao mês de maio um cheirinho antecipado a marchas populares, os Deolinda chamaram um trio de sopros (trompete, trombone e tuba), responsável por emprestar ao tema brincalhão uma aragem "caliente", que nos traz à memória bandas como Calexico ou Beirut. À semelhança dos demais convidados - Joana Sá no piano e António Serginho nas percussões - os três músicos participaram em várias canções, ajudando a colorir o novo universo dos Deolinda, até há bem pouco tempo um quarteto sem grandes interferências externas. Com a orientação do britânico Jerry Boys - que produziu Mundo Pequenino e marcou presença, esta noite, na plateia do Coliseu - os portugueses acrescentaram instrumentos à sua formação "económica" e abriram fronteiras a géneros nunca dantes (por eles) explorados, mas mantiveram o seu ADN, a sua raça. Mesmo que as músicas de Canção ao Lado, a multiplatinada estreia de 2008, continuem a ser as mais entoadas em coro pelo público, é notável o à-vontade com que os temas novos, com poucas semanas de rodagem ao vivo, já se movimentam em palco. A crítica espirituosa de "Gente Torta"; a reflexão "Medo de Mim", com Ana Bacalhau imperial, na voz, e Joana Sá a contribuir, ao piano, para uma belíssima atmosfera sonhadora; a vingança feminina pelo silêncio ensimesmado do sexo dito forte, em "Pois É"; ou a dicotomia vontade/ação de "Há-de Passar", uma espécie de prima mais nova do verdadeiro hino que é "Movimento Perpétuo Associativo" - se o concerto do Coliseu tiver sido a prova de fogo de Mundo Pequenino, todas estas "enviadas" especiais contribuíram garbosamente para que o terceiro disco dos Deolinda cortasse a meta em grande estilo. Sensivelmente a meio do espetáculo, e com humor, Ana Bacalhau definiu as três canções apresentadas, com estrondo, a seguir a "Um Contra o Outro" (primeiro single do álbum anterior, muitíssimo celebrado esta noite), como "a nossa trilogia encostada ao fado. Não que nós façamos fado, não se assustem os puristas!", brincou. Referia-se a artista à sequência que começou com "Fadout", passou pela inevitável "Fado Toninho", de Canção ao Lado, e terminou em delírio popular, com "Fiscal do Fado". Curiosamente, tanto como "Fadout" como "Fiscal do Fado" são temas extra da edição especial de Mundo Pequenino, mas a segunda, simultaneamente uma brincadeira e uma homenagem aguerrida aos códigos do fado, parece ter ganho vida própria e foi mesmo um dos pontos altos do concerto. Já na reta final, António Zambujo juntou-se aos Deolinda para recriar em palco a canção a que dá voz no disco, "Não Ouviste Nada". E se a gravação do tema foi feita à distância e em dias diferentes, com a banda em Gaia e Zambujo em Lisboa, ao vivo outro galo cantou, num duelo cúmplice e íntimo, onde a voz fogosa de Ana Bacalhau casou de forma feliz com o mel do "fadista bossa nova", descontraído como ele só (saltou da plateia para cantar e ainda respondeu à interpelação de um fã, brincando: "A lambreta - nome de um dos seus êxitos - ficou em casa, vim a pé!"). Antes do encore, e além do bem-sucedido regresso ao passado com "Não Tenho Mais Razões" e "A Problemática Colocação do Mastro", do segundo disco, ou "Mal por Mal" e "Fon Fon Fon", do primeiro, o coliseu ainda exultou mais um par de vezes. Delicioso e, ao mesmo tempo, imperativo, o primeiro single de Mundo Pequenino, "Seja Agora", espalhou uma brisa perfumada e algum otimismo bem necessário pelas Portas de Santo Antão, enquanto "Movimento Perpétuo Associativo" exerceu o seu habitual charme demolidor. Mas foi quando vimos António Serginho armado de um tambor, na frente do palco, que percebemos que os Deolinda tinham deixado para o (primeiro) fim aquela que é, provavelmente, a nossa canção predileta de Mundo Pequenino: "Musiquinha", apelo irresistível ao "abanar da anca" e, segundo a própria banda, a música "mais urbana" que já fizeram, acaba por ser um reflexo fiel das mudanças abraçadas pelo grupo ao terceiro capítulo. Em palco, houve percussão dupla (ou tripla, se contarmos com Joana Sá munida do "brinquinho" da Madeira), houve trio de sopros, houve todo um caos benigno que não afoga, antes pelo contrário, uma melodia felicíssima, banhada por um ritmo e uma alegria contagiantes. E, talvez por isso, foi à "Musiquinha" que, já no terceiro encore ("Vocês deixaram-me sem palavras, o que é raro!", confessou Ana ao segundo), os Deolinda regressaram. Desta feita, já com o público de pé, com permissão para abanar a anca livremente e usufruir em pleno deste caso raro que são os Deolinda: um grupo capaz de resultar nos contextos mais intimistas e nos espaços mais amplos; um quarteto suficientemente elástico e generoso para crescer até às dez pessoas em palco sem perder a direção; uma banda, enfim, que gostamos de ter por perto e a que temos a sorte de chamar "nossa". DEOLINDA NO COLISEU DE LISBOA - 3 de maio - alinhamento 1. Algo Novo 2. Concordância 3. Gente Torta 4. Não Tenho Mais Razões 5. Medo de Mim 6. Pois É 7. Passou por Mim e Sorriu 8. Há-de Passar 9. Mal por Mal 10. Um Contra o Outro 11. Fadout 12. Fado Toninho 13. Fiscal do Fado 14. Fon Fon Fon 15. A Problemática Colocação do Mastro 16. Semáforo da João XXI 17. Não Ouviste Nada 18. Balanço 19. Seja Agora 20. Movimento Perpétuo Associativo 21. Musiquinha ENCORE 22. Clandestino 23. Doidos ENCORE 2 24. Quem Tenha Pressa ENCORE 3 25. Musiquinha Texto de: Lia Pereira Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos