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Amália morreu há 15 anos: recorde a vida da rainha do fado

Falecida a 6 de outubro de 1999, Amália levou o nome de Portugal a todo o mundo. Recorde o seu trajeto.

Verdadeiro espírito livre, mulher de convicções fortíssimas, Amália moldou a vida como desejou, escolhendo mesmo a data do seu aniversário, 1 de julho, por ser tão pobre e no início do mês haver mais possibilidades de receber presentes. Mas se o carácter forte e determinado de Amália foi crucial na construção da sua carreira, por outro lado falamos de uma mulher que se entregou ao destino, fatalista como o próprio fado. Aquando da sua morte, a 6 de outubro de 1999, o New York Times citava-a: "Tenho tanta tristeza dentro de mim, sou uma pessimista. Quando estou sozinha, sem ninguém, a tragédia e a solidão abatem-se sobre mim". Não é de estranhar, portanto, que Portugal, país de marinheiros e emigrantes, a tenha escolhido para rainha do fado, erguendo-a como a voz que melhor cantou a saudade. Como a própria saudade. Os pais de Amália seguiram os fluxos naturais de um tempo de vidas difíceis e vieram da Beira Baixa para Lisboa, em busca de trabalho. E foi na capital, na Rua Martim Vaz, que Amália nasceu, em Lisboa, em data incerta, no ano de 1920. Foi, no entanto, registada a 23 de Julho. A música parece ter entrado na sua vida logo cedo. "Dizia-me a minha família que aos 4 anos já ganhava a vida a cantar, pelas vizinhas que diziam: "Oh Amália anda cá, canta lá esta". E eu cantava. E depois lá pelos 7, 8 anos comecei a ouvir as vizinhas lavar a roupa na selha e cantar o fado, que eu não sabia o que era fado", relata Amália nas memórias recuperadas pelo seu sítio oficial na internet, Amalia.com. Foi na rua que o talento de Amália primeiro se impôs, o que ajuda a explicar a relação que o povo português tem com a sua obra e com a sua memória. Aos 15 anos vendia fruta no Cais da Rocha, em Alcântara e terá sido aí que a sua voz se começou a fazer notar, tanto que lhe foi dirigido um convite para integrar a Marcha de Alcântara como solista. O ensaiador da Marcha, absolutamente convencido do seu talento, levou Amália a inscrever-se no Concurso da Primavera, uma popular mostra de talentos onde Amália acabou por não participar pois todas as outras cantoras perceberam, logo nos ensaios, que não poderiam competir com ela. Mas foi aí que conheceu Francisco da Cruz, guitarrista amador com quem casou em 1940, altura em que a sua carreira começava a descolar primeiro em casas de fados, como O Retiro da Severa, O Solar da Alegria e o Café Luso, e logo depois nos palcos maiores da Revista à Portuguesa, como o do Teatro Maria Vitória onde se estreou em 1940, na revista "Ora Vai Tu".

Os anos da II Guerra Mundial são anos de palco, onde Amália vai crescendo, não apenas em termos de cachê, mas também em termos artísticos, muito fruto da sua exigência pessoal. Comprava fados a 30 escudos a poetas como Linhares Barbosa para ir renovando o seu reportório e continuar a arrastar público para a ouvir. O sucesso levou-a ao Brasil, onde gravou pela primeira vez em 1945. A projeção internacional decisiva, porém, vem com os alvores da nova década: integrou digressões internacionais financiadas pelo Plano Marshall, onde era a única cantora popular no meio de um cartaz essencialmente lírico, e em 1952 atuou em Nova Iorque e apareceu no famoso programa de TV de Eddie Fisher. Este foi, igualmente, o ano em que assinou contrato com a Valentim de Carvalho, editora com que se manteve até ao final da vida e para a qual gravaria o seu mais famoso reportório. A década de 60 foi fundamental na carreira de Amália, que voltou também a casar-se, no Brasil. A Valentim de Carvalho construiu os seus estúdios de Paço de Arcos e a fadista foi uma das principais beneficiárias de tal investimento, depois da associação a Alain Oulman, que Amália descreve como um compositor "mesmo ao meu feitio". As sessões de Amália nos estúdios de Paço de Arcos tornaram-se míticas, envolvendo repastos e entrando pela noite dentro. Hugo Ribeiro, engenheiro de som desses estúdios e vencedor de um prémio técnico internacional com um disco de Amália, recorda-nos esses dias: "Quando o Alain Oulman chegava ao estúdio, os músicos queixavam-se logo, "lá vêm as óperas", mas ele sabia bem o que fazia". Essas foram as "óperas" que renderam clássicos como Amália Rodrigues, conhecido como Busto, que hoje estão entrelaçadas no tecido da identidade nacional. Dez anos depois da sua morte, Amália ainda não perdeu a voz e pela mão de novas gerações, nos palcos e no cinema, continua a fazer-se ouvir e a cantar a saudade que todos sentimos da sua presença. Já no final da sua carreira afirmou: "Sou uma pessoa autêntica, que se deu completamente ao público e é por isso que o público se dá completamente a mim". Verdade.

Amália por Amália

"Foi uma estranha forma de vida porque eu não fiz nada por ela, foi por vontade de Deus "que eu vivo nesta ansiedade, que todos os ais são meus que é tudo minha a saudade, foi por vontade de Deus". Já isto fiz com trinta anos! Já eu pressentia que tinha sido Deus que me tinha feito o destino, que me tinha marcado o destino, que me deu uma natureza para a qual eu nasci... Nasci com esta obrigação de cantar fado! Ou foi o fado que fez isto! O fado é destino, portanto deu-me este destino a mim!"

Texto originalmente publicado por Rui Miguel Abreu na BLITZ especial 25 Anos