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Xutos & Pontapés: Zé Leonel, Tim, Zé Pedro e Kalú

Há 40 anos, os Xutos davam o primeiro concerto de sempre. E esta é a sua história

A estreia dos Xutos & Pontapés em cima de um palco aconteceu na sala Alunos de Apolo, em Lisboa, a 13 de Janeiro de 1979. A história dessa noite histórica é contada por alguns dos seus principais protagonistas e por quem a testemunhou

"A história do punk em Lisboa começou em Janeiro de 78 com o primeiro concerto dos Faíscas, na festa da Música & Som no Pavilhão dos Belenenses, onde estiveram também os Psico", recorda Jorge P. Pires, jornalista há muitos anos ligado ao mundo da música, autor da biografia dos Madredeus e co-autor do documentário Brava Dança, sobre os Heróis do Mar.

"Eu costumava parar ali pela zona do Saldanha e do outro lado do Liceu Camões havia uma companhia de teatro independente, Teatro do Nosso Tempo ou TNT, e durante esse ano e talvez o ano seguinte concentrou-se ali muita da gente que depois fez coisas", explica o jornalista.

"Juntou-se ali muita gente: alguns por causa das raparigas do Liceu Camões, outros por causa dos ensaios na Senófila, havia quem morasse por ali, outros que vendiam ali umas coisas, outros ainda que iam lá para comprar... e era curioso porque aquilo era a 100 metros da Polícia Judiciária. Todo o dia e toda a noite aquilo tinha muito movimento e havia muita gente que morava ali ao pé, o António Variações, o Paulo Gonçalves dos Faíscas. Foi nesse ambiente que eu conheci o Zé Leonel [que viria a ser o primeiro vocalista dos Xutos], graças a uns amigos comuns".

Sonhos em toalhas de mesa

"Quando a noção do movimento punk chegou a Portugal, nós já estávamos cheios de punks. Essa é que é a realidade. A revolução tinha sido há muito pouco tempo, vivia-se ainda aquela euforia toda. E havia muita gente que sempre tinha calado o bico que de repente começou a exprimir-se. Era como se o punk já existisse cá, mas sem estar referenciado, sem ter código de barras. Por isso o timing foi perfeito", explicava em 2009 à BLITZ Zé Leonel, vocalista original dos Xutos & Pontapés, posição que manteria até 1981. "Estávamos na espuma da onda, para nós mais revolução ou menos revolução, sentíamos que fazíamos parte de tempos agitados, tudo era revolucionário", adianta Tim, baixista dos Xutos e, desde 1981, "dono" do microfone.

"As coisas nasciam nas mesas dos cafés, com violas de caixa: tiravam-se duas cordas a uma para ter um baixo. No nosso caso, o ponto de encontro era a cervejaria Munique, uma coisa que existia ali no Areeiro. Quando os Xutos & Pontapés nasceram, tinham mais expressão física do que musical. Eu e o Zé Pedro [guitarra-ritmo dos Xutos] inventávamos zangas para andarmos à tareia no meio da rua e só parávamos quando aparecesse sangue, isto ainda antes de existirem os Xutos & Pontapés.

Já havia a ideia de dar espectáculo e até de vir a ter uma banda. Chamámo-nos Delirium Tremens primeiro e tínhamos certezas de que a banda iria para a frente, mesmo ainda antes de haver alguma música", explica Zé Leonel, que depois dos Xutos fundou os Ex-Votos. Jorge P. Pires tem memórias que seguem no mesmo sentido: "Era naquela vida de café, nas toalhas de mesa, que o Zé Leonel escrevia as canções, e eu assisti a isso muitas vezes".

"Antes ainda do concerto de 13 de Janeiro, houve um espectáculo punk no CACO, o Clube Atlético de Campo de Ourique", refere Jorge P. Pires. "Como não havia muitos concertos, eu e os meus amigos íamos a tudo, mesmo que não fosse punk. Esse era um concerto com O Circo da Vida, com o Fernando Girão a cantar, e talvez os Aqui d'El Rock. Essa foi a primeira vez que vi a tribo punk de Lisboa, gente maquilhada. Digamos que metade desse público não era composto por freaks, o que era um acontecimento", ironiza.

"Nós tomávamos uns comprimidos interessantes nessa altura e fomos depois tomar uma amêndoa amarga ou Licor Beirão a uma leitaria na esquina do CACO onde vimos entrar o Pedro Ayres [dos Faíscas e, depois, dos Heróis do Mar] com uma guitarra e o Emanuel Ramalho [baterista que faria parte dos Rádio Macau, entre outras bandas] de baquetas na mão. Eles sentaram-se e lembro-me de acharmos aquilo esquisito, porque eles não estavam no cartaz. Ficámos à espera para ver o que aquilo ia dar. Foi uma coisa curiosa porque os Aqui d'El Rock tocaram e, quando acabaram, os Faíscas entraram pelo palco dentro, houve ali uns empurrões e tal e eles tocaram mesmo duas ou três canções".

Zé Pedro foi um dos pioneiros punk em Lisboa, tendo tido a vantagem de experimentar muito cedo, num festival em França [Mont de Marsan] por onde passaram os Clash logo em 1977, o impacto desse explosivo movimento. "Nessa altura", adiantava em 2009 o guitarrista dos Xutos & Pontapés, "ainda havia pouca gente sintonizada com o fenómeno punk, mas felizmente o António Sérgio tinha começado muito cedo a tocar punk na rádio, ainda na Renascença. Vivíamos aqueles tempos pós-25 de Abril com toda a gente muito aluada e aberta a todas as cenas de arte. Havia uma enxurrada de informação para digerir".

"Em termos visuais, o acessório mais fácil era o alfinete, que se podia arranjar em qualquer lado", avança Zé Pedro. "Depois a loja Porfírios começou a encomendar alguns adornos, umas pulseiras, etc". Referindo-se igualmente à "farda", Tim explica que "não havia aquela atitude que surgiu com a new wave de a roupa estar totalmente ligada à música, mas já havia a ideia de se criar uma personagem. Adoptei aquele ar meio Wilko Johnson, da gravata estreitinha e camisa. O Zé Leonel era uma pessoa muito mais exuberante, o Zé Pedro tinha a atitude mais punk e o Kalu se calhar mais bluesy. Já nessa altura a banda vivia exactamente desse encontro de personalidades".

13 de Janeiro, 1979

"Foi a 22 de Dezembro que eu, o Kalu, o Tim e o Zé Leonel nos juntámos para um ensaio na Senófila", recorda Zé Pedro. "O Zé Leonel já tinha umas letras para uns temas e esse foi o primeiro contacto que tivemos todos, uns com os outros. Depois o Kalu entrou para a tropa logo no início de Janeiro. Entretanto o Pedro Ayres veio ter comigo para me dizer que ia haver uma festa no dia 13 de Janeiro que ia ser o final dos Faíscas, a despedida, porque ele já estava a pensar nos Corpo Diplomático. Para o Pedro seria uma espécie de passagem de testemunho porque ele já estava com a cabeça numa cena mais new wave. Eu fiquei com o bichinho atrás da orelha. Eu o Zé Leonel e o Tim acertámos as coisas todas, mas faltava o Kalu com quem não se podia comunicar por estar no quartel. Só me restou mesmo ir para a porta do quartel e esperar que ele saísse. Tinha marcado uma hora na Senófila só para vermos umas coisitas e depois íamos tocar logo a seguir".

"O primeiro concerto dos Xutos foi uma coisa vivida com alguma expectativa porque uns bons meses antes, talvez em Outubro de 78, o Zé Leonel veio ter comigo e eu ainda fui com ele até à Senófila prestar provas para baterista... a coisa não me correu assim tão bem e depois veio o Kalú e ficou-me com o emprego", prossegue Jorge P. Pires.

"Esse concerto dos Xutos em Janeiro de 79 juntou essa malta toda que foi sendo arrebanhada pelos concertos punk do ano anterior e mais alguma gente mais velha, que nós não conhecíamos, que estavam lá porque supostamente aquilo era para comemorar os 25 anos do rock. O Variações estava lá a cortar cabelo, o Gimba estava a gritar qualquer coisa nas escadas para uma malta africana. Havia também gente muito produzida visualmente, as raparigas que tinham ido buscar as saias das mães, sapatos dos anos 50. E depois houve um concerto de uns tais Jó Jó Benzovac & os Rebeldes, de que nunca tínhamos ouvido falar, que eram na verdade os Faíscas com umas meias na cabeça que tocaram umas canções de rock and roll um bocado aceleradas".

Uma questão de "speed"

"Na sala do baile era a maior loucura", assegura Gimba, que tem memórias vívidas dessa noite. "Na parede alguém tinha pintado aquela frase do Frank Sinatra, qualquer coisa como "o rock and roll é uma música feita por cretinos e para cretinos". Aquilo era um baile punk, porque o punk estava mesmo no auge", explica Gimba. "Nessa altura havia muito Friganor na cabeça do pessoal, era a droga da moda. Os Faíscas até se mordiam todos. A dança era uns encontrões, chutos e pontapés mesmo. Nessa altura o pessoal tinha aversão a jeans, que era o que os freaks usavam".

"Já bastante tarde apareceram os Xutos, já nem me lembro se foram anunciados. Eles deviam estar muito "speedados" porque tocaram tudo o que tinham para tocar em menos de dez minutos e bastante mal tocado, diga-se. Mas o punk era uma cena tão nova que as pessoas apesar de estarem a curtir a festa e o rock and roll deram um salto para a actualidade quando chegaram os Xutos", garante Gimba, um dos responsáveis por se encontrar o nome da banda, à mesa da cervejaria Munique.

"Não sabíamos bem as músicas, era a primeira vez que ia subir a um palco", admite Zé Pedro. "E à medida que a hora se ia aproximando um gajo ia ficando ainda mais nervoso. Na altura, éramos mais novos, tomámos uns speeds e eu estava completamente frenético. Era um misto de excitação e de nervosismo".

Jorge P. Pires acrescenta alguns pormenores à história: "Aquilo foi de facto muito rápido. Tocaram umas cinco ou seis músicas, incluindo um par delas que nunca mais voltaram a tocar, como a "G3". Tocaram a "Sémen", "Sexo", tudo a abrir. As pessoas estavam todas muito aceleradas e aquilo pareceu que passou ainda mais depressa e ficou-se sem se saber como reagir. Foi uma experiência fugaz, mas intensa".

"Quando acabámos de tocar aqueles minutos de fúria intensa", refere Tim, "as pessoas que supostamente nos tinham ido ver estavam no bar porque pensavam que tínhamos só ido fazer o teste de som, portanto não houve grandes reacções. O Pedro Ayres cumprimentou-nos, claro. Depois agarrámos no nosso grupo de pessoas e saímos dali para o Cais do Sodré, para festejar". Zé Pedro: "No dia seguinte fomos referidos na rádio como uma banda semi-punk que poderia ir longe se trabalhasse mais".

É de Zé Pedro a conclusão desta história que continua a gerar novos capítulos e a mostrar um fôlego capaz de atravessar décadas. Diz ele: "Naquele tempo um gajo mexia-se pelas paixões, querer ser músico de rock podia não apresentar à partida grandes expectativas de carreira, mas era o que nos ia na alma. [Meses depois] fomos tocar à Praia de Santa Cruz e eu tive uma conversa com o Kalu. Era de manhã e tínhamos dormido em cima do palco, tapados com as capas dos amplificadores, e eu disse-lhe: "Vais ver que um dia ainda faremos uma primeira parte dos Rolling Stones". E isso veio a acontecer!".

Publicado originalmente em janeiro de 2009