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Glockenwise

O tempo dos Glockenwise é agora. “Sou o Nuno, um gajo a cantar em português do norte”

Depois de três álbuns de rock estival, a banda de Barcelos descobriu o outono (e a idade ‘adulta’), que canta pela primeira vez em bom português no excitante “Plástico”. A entrevista com Nuno Rodrigues, 28 anos e uma vontade bem expressa de não ser “o Morrissey, o Reininho ou o [Manel] Cruz” nem de soar “a todas as bandas pós-Tame Impala de Lisboa”

Nuno Rodrigues (voz, guitarra), Rafael Martins (guitarra) e Rui Fiusa (baixo) compõem uma das bandas rock com mais nervo nascidas em Portugal nos últimos dez anos. Criados em Barcelos, crescidos no Porto, lançaram três álbuns onde o garage rock veraneante foi ganhando diferentes tonalidades, à medida que os seus membros foram descobrindo as curvas da pós-adolescência. O quarto volume chega agora. Em “Plástico”, descrito pelo vocalista e letrista Nuno Rodrigues como estando “ali no meio do Atlântico, entre os Smiths e os Sonic Youth ou entre os GNR e os Devo”, instalam uma ‘revolução’: agora é em português que nos entendemos.

Depois de três álbuns em inglês, o português. Quais foram os sintomas de que isto poderia acontecer?
O “Plástico” foi um processo comprido e fora do habitual. É um resultado de um trabalho de equipa, que envolveu uma série de outras pessoas, nomeadamente a Francisca Marques, que encabeçou a direção artística, o Sérgio Couto, no design, Miguel Filgueiras, na realização, Carlos Lobo e João Garcia nas fotos. Toda a gente verteu do universo musical para o universo visual e vice-versa. Acabou por ser uma coisa meio plástica também nesse sentido, porque teve uma consciência visual desde o início e em termos de conceito: eu tinha aquele azul [do design do álbum, do videoclip de ‘Moderno’] na cabeça… os fatos, as fotos de promoção e o vídeo foram feito em simultâneo. Toda a gente participou. O português não foi tanto uma decisão quanto um acidente de percurso. A proposta que eu tinha feito ao grupo era fazer uma coisa muito ambiciosa, que seria um disco-espelho: gravar as mesmas músicas com arranjos ligeiramente diferentes em português em inglês. Comecei a gravar primeiro em português e aconteceu de haver uma certa indisponibilidade emocional para passar para o processo em inglês, e então já não foi uma decisão. Aquilo estava a soar-nos perfeitamente bem assim. Era exatamente o que queríamos dizer. Não houve uma decisão editorial. Não nos sentámos para decidir que o disco era em português para chegar aos grupos x e y. Ficou genuíno.

Musicalmente, há outras voltas, outros contornos, uma embalagem diferente. Seria igual se a língua fosse a inglesa?
Houve condições que foram estabelecidas pela gravação da voz. Sempre tivemos dois problemas de tradução: da sala de ensaios para estúdio e do estúdio para a sala de espetáculos. Partimos de um som de guitar music dos anos 80 e 90, e ainda está lá um bocado isso, mas [o todo] acabou por amaciar quando percebemos que tinha que haver muito lugar para a voz. Se estamos a falar em português, as letras têm importância. Se me estou a dar ao trabalho de fazer letras que querem dizer alguma coisa, então não podemos fazer um disco à My Bloody Valentine. O equilíbrio que nós encontrámos pôs-nos num sítio esquisito, ali no meio do Atlântico, entre os Smiths e os Sonic Youth ou entre os GNR e os Devo. Não consigo perceber bem o que é que saiu, porque começámos a tocá-lo ao vivo e já é outra coisa. O “Plástico” em vez de inerte, acaba por ser orgânico e vivo. O resultado a que chegámos também não foi uma surpresa para nós. Cada pequena coisa que íamos fazendo teve tempo suficiente para maturar na nossa cabeça, mas não era, de todo, o ponto de partida. Quando começamos não sabemos quando é a chegada. Foi a isto que chegámos, agora é vosso.

Quais eram os maiores riscos? O que é que poderia correr mal?
Nunca ninguém disse “tenho medo que fique assim ou assado”, mas eu tinha medo que isto ficasse em terra de ninguém. Nós éramos uma banda de garage rock e de repente queríamos afastar-nos completamente de qualquer coisa que soasse a psicadélico. Os truques são diferentes, a exigência para gravar os instrumentos é diferente, e eu tinha medo que no fim isto não soasse nem a pop nem a rock nem a nada e que fosse um objeto absolutamente desinteressante. Ficou um objeto art-pop e estou muito contente com esse resultado.

“Queria escrever sobre os temas do pós-modernismo, mas o que reparei foi que não fiz disso tese porque acabei, de uma forma completamente pós-moderna, a falar de mim”

O disco de Duquesa [projeto paralelo de Nuno], “Norte Litoral”, que tinha duas canções em português, foi um desbloqueador?
Já pensei nisso: o que é que quereria dizer ter começado a escrever em português em Duquesa. Do ponto de vista da abertura para trabalhar a língua, foi bom ter feito anteriormente alguma coisa. Mas do ponto de vista de haver uma ponte entre aquilo que escrevi para Duquesa e o que escrevi para Glockenwise, a única coincidência é que ambos são em português. Os estados de espírito são radicalmente diferentes. Muita gente me diz “isto foi uma influência de Duquesa, não?”. Discordo completamente. O sítio de onde eu venho para escrever estas letras em português é diferente. Foi uma espécie de zona de teste, mas aquilo que fiz antes não teve qualquer relação temática com o que estou a fazer agora.

Numa canção como ‘Moderno’ (“Sou tão moderno que / Deixei de dançar / Sou tão moderno que / Deixei de comer / Sou tão moderno que / Deixei de sofrer / Sou tão moderno que / Não respiro ar”) há uma visão cínica que também aponta o dedo para si?
Sim, evidentemente. Não tenho respostas para dar a ninguém. Não há aqui tanto uma crítica à sociedade em geral quanto uma constatação. Uma constatação também daquilo que sou. Eu queria escrever o disco sobre os temas do pós-modernismo não de uma forma completamente negativa, mas o que reparei foi que não fiz disso tese porque acabei, de uma forma completamente pós-moderna, a falar de mim. Voltamos aos temas da auto referenciação, características do pós-modernismo, do cinismo e da ironia. No ‘Moderno’ eu não aponto a ninguém um dedo que não esteja já apontado a mim mesmo.

A definição desse sujeito ‘moderno’, blasé, indiferente, é uma forma de dizer a si próprio “não quero ficar como este gajo”?
Não tenho a certeza. É como a ‘Dia Feliz’: há dois gajos ali. Um que está completamente convencido de que há dias que valem a pena só porque as pequenas coisas foram cumpridas – “fiz a cama de manhã, fui às finanças, fantástico” – e há outro gajo que é absolutamente cínico em relação a isso, que acha que essas coisas são menores, não têm interesse e “vou largar tudo”. Não sei quem ganha neste duelo. Eu sou o meu maior adversário.

O que é o “país-festival”, que menciona em ‘Moderno’? (“No país-festival / Podes falar dentro da bolha / Que ninguém leva a mal”)
Claramente estou a falar de Portugal. É este nosso canto à beira mar plantado. Tem várias aceções, mas quando escrevi estava a pensar na questão particular de sermos um país festeiro. Não deve haver país na Europa com tantos festivais de verão per capita. É tudo feito à base de feira popular.

Esta euforia às vezes também é uma espécie de make-up sex
Há um contributo grande para a alienação. Esse é que é o país-festival. Os romanos tinham o pão e jogos; nós só temos os jogos.

‘Sempre Assim’ tem uma letra invencível e é um tremendo retrato de uma vida a dois no preciso momento em que, apesar de todas as adversidades, há uma constatação da felicidade…
Essa é a letra mais presente de todas.

Há uma satisfação eufórica com o que está a acontecer…
Na verdade, as coisas não são assim. Há alguém que acredita mesmo e outro que não. Quem tem que pagar uma fortuna por 58 metros quadrados não está muito satisfeito de nunca poder ter uma casa em condições, de não poder pensar em ter filhos. Esse gajo não está feliz, não quer que as coisas fiquem sempre assim. Mas o raio de luz que existe em mim lembra-se de todas as pizzas que comemos no sofá a ver “Seinfeld” e fica feliz que as coisas sejam sempre assim.

“A minha namorada tem 31 anos, eu tenho 28, e pedir um crédito não existe na nossa vida. Mas de vez em quando podemos comprar uma garrafa de vinho do caraças e isso faz-me uma confusão enorme na cabeça”

“Não bebemos das colheitas más”…
Isso tem a ver com a maneira como nós vivemos hoje. Não temos quaisquer condições de planear uma coisa de fundo, mas conseguimos viver o presente ao máximo. Não ter qualquer perspectiva de pedir um crédito para comprar uma casa… A minha namorada tem 31 anos, eu tenho 28, nada disso existe na nossa vida, mas de vez em quando podemos comprar uma garrafa de vinho do caraças. Faz-me uma confusão enorme na cabeça.

Porque é que diz que é a letra mais presente de todas?
Porque não faz uma reflexão muito grande do passado nem sequer se preocupa muito com o futuro. Não estou assim todos os dias, mas no dia em que escrevi essa letra provavelmente estava. Não acho que seja das mais interessantes, mas acho que é das mais bonitas. A minha namorada também gosta muito, porque encapsulou o nosso momento. Fazemos promessas de poupar dinheiro e depois a ideia não chega ao final da semana.

É uma canção que vive no momento…
Estamos numa casa pequenina. Ambos gostamos muito dela, mas em semanas alternadas um de nós não gosta nada. Hoje foram uns senhores pintar porque temos uma nódoa de bolor enorme no teto que nos apareceu – é um prédio antigo dos anos 50 – e eu estava a dizer “pronto, já ficou gira a casa”. E ela: “casa de merda, vai ficar tudo cheio de humidade outra vez”. Acreditamos que vivemos num país de qualidade de vida espetacular porque temos quatro meses em que faz um calor tremendo, toda a gente bebe cerveja e esquece, mas o nosso inverno é terrível! Eu tenho uma amiga polaca que preferia estar na Polónia do que em Portugal no inverno porque aqui passa um frio do caraças! Os azulejos a pingar, a tinta a levantar… A minha casa de banho neste momento é isso.

Os Glockenwise têm neste disco também uma certa jangle-pop outonal, algo britânica... Fala-se em Smiths, mas não será Smiths sem Morrissey?
Sim, completamente. O Morrissey é inimitável. Eu sou um gajo a cantar em português do norte…

Em que a palavra “atleta” tem mais do que três sílabas!
A-te-le-ta! (risos) Quem é que são os cantores portugueses do norte? De repente, quase todos os grandes são do norte: Manuela Azevedo, o Adolfo Luxúria Canibal, o Rui Reininho… Quem é que eu sou no meio destes gajos? É intangível ser um deles. Que voz tenho? A ‘Muito Para Dar’ faz lembrar Smiths se de vez em quando eles tivessem um pedal de fuzz. Mas eu não quero ser o Morrissey, o Reininho ou o [Manel] Cruz. Eu fiz as coisas para ser mais sereno e a voz acabou ter uma identidade mais universal. Se calhar vou carregar mais nas próximas experiências, porque gostava de encontrar algo que fosse meu. Que se ouvisse e pensasse: “este gajo é o Nuno dos Glockenwise”. Por enquanto, consegui não ser qualquer um deles, mas não encontrei bem quem é que sou.

E a banda já encontrou quem é?
É muito distinta das outras bandas a fazer pop/rock em português, acho eu. Não estamos a fazer música de vanguarda, mas também não estamos a soar a todas as bandas pós-Tame Impala de Lisboa – não queremos ser uma dessas. Não queremos carregar o legado dos que vieram antes de nós, também não queremos ser iguais aos de agora.

Também por isso, por esse conservar de distância, este disco parece mais um recomeço do que uma síntese do passado…
Eu tenho a sensação de que isto é um reboot porque já tenho os olhos postos no que vem a seguir. O que fizemos agora é uma espécie de tabula rasa, abriu aqui à catanada uma outra via. Sinto que isto foi o nível zero.

Usa mais ‘pinças’ agora que escreve numa língua imediatamente percebida por todos?
Não tenho mais cuidado com o que digo, não tenho medo de dizer as coisas, mas as dificuldades são diferentes. Se por um lado no inglês tenho a vantagem de ter toda a cultura de cantar em inglês introduzida no meu sistema – perceber como funcionam as rimas, as métricas – por outro lado não é a minha língua nativa, o meu vocabulário é mais reduzido e há mais cuidado a procurar não cair nos mesmos clichés. Em português estou mais à vontade com a língua – sou de Humanidades e trabalho com a língua todos os dias, sou quase um ‘nazi da gramática’ –, mas não quero soar elitista. As dificuldades são os sistemas de rimas, que por falta de experiência são simples neste disco. Também me preocupo em como dizer as coisas a soar a mim mesmo sem parecer académico ou tentar ser The Streets, quando toda a gente sabe que não sou.

Portanto, não há hipótese de o próximo disco dos Glockenwise ser cantado em inglês?
Se tivesse de adivinhar agora, se tivesse de entrar amanhã em estúdio, diria que ia gravar em português. Tem de haver alguma coerência, mesmo do ponto de vista da cronologia de intenções. Foi aberta uma hipótese e o ciclo não está fechado. Não sei se isto dura 10 discos ou um EP mais. Ainda não está explorado até ao limite do seu potencial, e eu acho que o que estávamos a fazer em inglês já estava. Não tinha interesse, não tinha relevância artística.