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Springsteen na Broadway: A história da estrela que tem tudo mas só queria que o pai cá estivesse “para ver isto”

Mais do que um concerto, uma lição de vida (sem moralizar). Registo de um espetáculo simultaneamente simples e riquíssimo, “Springsteen on Broadway” estreia no Netflix a 16 dezembro. Um dia antes, chega o disco ao vivo. Fomos a Londres ver o filme e contamos-lhe o que precisa de saber

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Londres, início de dezembro. Com as ruas engalanadas para o Natal, a metrópole afadiga-se entre o bulício das grandes avenidas, a avalanche de turistas e as múltiplas referências aos Queen (em Carnaby Street, as iluminações natalícias começam com um néon onde se lê 'Is this the real life, is this just fantasy?' e termina com uma loja temática, onde é possível comprar material relacionado com o grande filme deste final de ano, “Bohemian Rhapsody”). Numa rua do Soho, uma discretíssima fachada anuncia estarmos perante um “screening room”, ou seja, uma sala de projeções. É lá que, durante mais de duas horas, assistiremos à estreia de “Springsteen on Broadway”, um espetáculo que é muito mais do que um simples filme-concerto. Na pequena sala de cinema, com capacidade para três ou quatro dezenas de pessoas, jornalistas de todo o mundo ficam a conhecer o especial que, na próxima sexta-feira, estreia no Netflix; no dia antes, sai o disco ao vivo, em CD, vinil e versão digital. A emoção, essa, é comum a todos os suportes, a começar por “Born to Run”, a autobiografia de Bruce Springsteen que inspira, também, boa parte deste espetáculo de palco. À semelhança dos seus camaradas internacionais, a BLITZ emocionou-se com o filme e conta-lhe aqui e conta-lhe aqui alguns pormenores sobre o mesmo.

O espetáculo estará em cena até 15 de dezembro; no dia seguinte estreia o filme no Netflix

O espetáculo estará em cena até 15 de dezembro; no dia seguinte estreia o filme no Netflix

Rob DeMartin

- Entre outubro de 2017 e o próximo dia 16 de dezembro, Bruce Springsteen terá subido 236 vezes ao palco do teatro Walter Kerr, na Broadway, em Nova Iorque. Inicialmente, o espetáculo “Springsteen on Broadway”, no qual se apresenta quase sempre sozinho, deveria ter durado cerca de um mês. Contudo, a imensa procura de bilhetes fez com que mais e mais datas fossem acrescentadas à agenda - no final, este misto de concerto, espetáculo de spoken word e stand up comedy passou mais de um ano numa sala para 960 pessoas, que o Boss escolheu precisamente pelo intimismo que proporciona.

- O espetáculo pode ser intimista, mas não lhe falta energia nem emoção. Ao longo de mais de duas horas, Bruce Springsteen revisita episódios da sua carreira e, acima de tudo, da sua vida pessoal, com uma vivacidade e um humor que conquistam e comovem. A viagem começa, claro está, em Freehold, New Jersey, a cidade onde cresceu, na sombra permanente da igreja católica (da qual é impossível escapar, comenta no final da noite) e de uma família dividida entre o autoritarismo do pai e a meiguice da mãe. Na sua autobiografia, o músico revela que o pai o criticava pelo seu temperamento dócil, mais próximo do da mãe. Mais tarde, viria a saber que Douglas Springsteen sofria de esquizofrenia paranoide; em entrevista recente à Esquire, desvenda que, ao longo das décadas, recorreu também a terapia e medicação para controlar problemas de saúde mental como depressões.

Bruce Springsteen, uma ou duas guitarras, um piano e todas as histórias do mundo

Bruce Springsteen, uma ou duas guitarras, um piano e todas as histórias do mundo

- Quando Patty Scialfa, com quem é casado há 27 anos, estava prestes a dar à luz o primeiro filho do casal, Evan, o pai de Bruce Springsteen apareceu de surpresa em sua casa, depois de atravessar o país de costa a costa. “É o estilo dele”, brinca o nosso anfitrião. Juntos, beberam cerveja ao pequeno-almoço (“É o estilo dele!”) e Springsteen, o pai, quase formulou a Springsteen, o filho, um pedido de desculpas. “Tens sido muito bom para connosco. E se calhar eu não fui muito bom contigo”, admitiu o patriarca, num gesto que Bruce recorda até hoje como um dos momentos mais importantes da sua vida. “No fundo, ele estava a dizer-me para eu não repetir com os meus filhos os erros que ele tinha cometido comigo”, interpreta.

- Ao contrário de Douglas, a mãe de Bruce, Adele, era uma fonte de “amor, humor, graciosidade, meiguice, justiça e fé”. É à mãe que Springsteen dedica as palavras mais bonitas do serão, contando que, mesmo nos seus últimos dias, quando já sofria de Alzheimer, Adele nunca deixou de gostar de dançar. “Quando estávamos com ela, fazíamos sempre questão que houvesse música a tocar”.

Mais do que a música, o espetáculo ancora-se na palavra - emotiva, vívida - de um contador de histórias exímio

Mais do que a música, o espetáculo ancora-se na palavra - emotiva, vívida - de um contador de histórias exímio

Rob DeMartin

- O primeiro concerto que, inspirado pelo exemplo de Elvis Presley, o pequeno Bruce deu aconteceu no quintal de sua casa, com uma guitarra alugada por 25 dólares. Durante duas semanas, teve aulas daquele instrumento mas, aborrecido e frustrado, acabou por trocá-las pela “escola da vida”: “Toquei em manicómios, bares no deserto, bar mitzvahs”, recorda, lembrando também a ocasião em que atravessou o país de carro para dar um concerto na costa oeste. 72 horas a conduzir, mesmo que, aos 20 e poucos anos, ainda não tivesse carta.

- Ainda que não tivesse a mais pacífica das relações com o pai, que o considerava demasiado “tímido e sonhador”, Bruce Springsteen inspirou-se em Douglas e nas suas “pernas de dinossauro” para a sua iconografia de herói americano. “Canto sobre fábricas sem nunca na vida ter tido um emprego honesto. Inventei tudo!”, brinca, jogando amiúde, ao longo do espetáculo, com a ideia de construção de identidade e até de fraude. “Se pudesse pedir um desejo, era que o meu pai estivesse aqui a ver isto”, confessa a certa altura, emocionando o auditório londrino onde assistimos ao filme.

A única convidada deste 'one man show' é Patti Scialfa, mulher de Springsteen há 27 anos

A única convidada deste 'one man show' é Patti Scialfa, mulher de Springsteen há 27 anos

- No palco onde Bruce Springsteen desfia a história da sua vida, não há acessórios nem cenários, mas sim um piano e algumas guitarras, nas quais vai apresentando versões despidas mas emocionantes de alguns êxitos e temas menos conhecidos (ver alinhamento abaixo). Para duas canções, chama ao palco Patti Scialfa, “rainha do seu coração”, a quem chama mulher desde 1991. É a única visita neste one man show onde lida com sonhos e fantasmas, aspirações e frustrações.

- Elogios à “santidade” da democracia e críticas ao ódio que grassa nas ruas da América - “Vi coisas que nunca pensei voltar a ver”, lamenta - ocupam também parte do espetáculo, que tem tanto de concerto como de comício, espetáculo de humor (seco, autodepreciativo) e oração.

- Oração? Sim, como Bruce Springsteen diz, “ninguém escapa à igreja católica”, e o espetáculo termina ao som de um Pai-Nosso muito especial e de um 'Born To Run' inesquecível. Só voz, guitarra e uma alma sem par.

A 14 de dezembro, chega às lojas o disco (em CD duplo, vinil quádruplo e versão digital). Eis a capa e o alinhamento.

A capa do disco ao vivo, também disponível nas plataformas de streaming

A capa do disco ao vivo, também disponível nas plataformas de streaming

Springsteen on Broadway
Growin' Up (introdução & canção)
My Hometown (introdução & canção)
My Father's House (introdução & canção)
The Wish (introdução & canção)
Thunder Road (introdução & canção)
The Promised Land (introdução & canção)
Born In The U.S.A. (introdução & canção)
Tenth Avenue Freeze-Out (introdução & canção)
Tougher Than The Rest (introdução & canção) with Patti Scialfa
Brilliant Disguise (introdução & canção) with Patti Scialfa
Long Time Comin' (introdução & canção)
The Ghost Of Tom Joad (introdução & canção)
The Rising (canção)
Dancing In The Dark (introdução & canção)
Land Of Hope And Dreams (canção)
Born To Run (introdução & canção)

O filme fica disponível no Netflix a 16 de dezembro.