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Rita Carmo

Importantes e ambíguos: orgasmos, ronaldos e carreiras. Os GNR em entrevista BLITZ

A nobre arte de não dizer sempre a mesma coisa: uma conversa com os GNR nunca é uma conversa qualquer. Rui Reininho e Jorge Romão falam sobre música, o Porto, o mundo e arredores. “Às tantas, os alemães ganharam a guerra e a gente não se apercebeu disso”

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Estamos quase à escuras num enorme estúdio fotográfico de um piso -2 and "it's a wrap", como se usa dizer na moda. No penúltimo dia de outubro de 2018, Rui Reininho e Jorge Romão - dois terços dos GNR, faltando ao picar de ponto lisboeta Tóli César Machado - descomprimem depois de quarenta minutos sentados a fitar a câmara de Rita Carmo para os excertos vídeo que poderá ver ao longo da entrevista. Podia ter sido mais, "mas vocês também só fazem uma canção", atiçamos. Reininho e Romão riem-se, cúmplices. Sabem que 'Quem?', apesar de ter sido apresentado como unidade alheia a qualquer outra edição alargada, é uma entre várias canções que o Grupo Novo Rock, nado em 1980, tem para mostrar no futuro próximo. Há de dar um álbum, dizemos. Eles respondem que não, que já não faz sentido falar em discos na era do digital. 'Quem?', a segunda aparição dos GNR após "Caixa Negra", álbum de 2015 (recorde-se que 'O Arranca-Coração' foi publicada em CD em 2016 na biografia "Onde Nem a Beladona Cresce") é descrita por Reininho como "mercearia fina" e a escolha "entre as duas ou três hipóteses que havia". "Havia outra mais adiantada, mas apesar de sermos três quem desempatou foi o Tiago Novo [New Max, dos Expensive Soul, produtor da mesma]", acrescenta.

A conversa foi a que se segue:

Boas vindas ao single novo dos GNR. Qual é o plano que se segue?
Rui Reininho (RR): Este é o primeiro elemento que não tem aquela existência física a que estávamos habituados. Nós já vimos do vinil. Isto não contempla nenhuma edição mais extensa. Para ser sincero, o que nos interessa nesta vida é fazer espetáculos e refrescar o nosso repertório.

O “Caixa Negra”, de 2015, ganhou com o tempo, apesar de ter temas muito imediatos como ‘Cadeira Elétrica’, o tema-título…
RR: Ou ‘Dançar Sós’, que ganhou uma versão agradável de se fazer com a Rita Redshoes. O ‘Triste Titan’ também, o ‘MacAbro’… e já vamos em mais de metade do álbum. Tudo isso entrou nos nossos concertos.

Diriam que essa é a matriz do que estão a fazer agora? A sonoridade ‘adulta’ dos GNR?
Jorge Romão (JR): Nunca sabemos…
RR: Receita, infelizmente, não temos. E infalível não é de certeza. Há alturas em que nos sentimos até afastados dos movimentos. Cada vez temos menos a ver com o som nacional, que é muito por modas. Há uma moda assumidamente de um rock vincadamente alfacinha. Para nós não é muito inclusivo…
JR: Há uma tendência trap, mas também não…
RR: Descaracterizava muito.

“ÀS VEZES OLHO PARA OS MEUS COLEGAS JÁ COM LONGAS CARREIRAS E PENSO ASSIM: 'ELE TAMBÉM USA CASACOS COMO EU, O PENTEADO TAMBÉM NÃO ANDA LONGE” Rui Reininho

Qualquer banda ou artista com a longevidade dos GNR – chame-se Rolling Stones, U2, Caetano Veloso ou Xutos – acaba por ter um espetáculo com um forte lastro de antiguidade. Nesta altura dos GNR, encaram um disco como algo mais egoísta, uma espécie de ‘ir sozinho ao cinema’, por oposição ao ‘encontro social’ que são os concertos?
RR: Eu vejo os discos quase como uma inexistência. Estou com curiosidade em decifrar aquela pop coreana, a K-POP… De resto, não vejo nada de misterioso em ver sair um CD. Dá-se muito pouca atenção, em termos de rádio…
JR: Há uma inversão dos objetivos. Nos anos 80 e 90, os artistas nacionais faziam tournées para vender discos e nós fazíamos discos para vender tournées.
RR: A nossa ligação com o chamado business é mesmo com os espetáculos. Até numa certa intelligentsia, as pessoas que pensam a música em Portugal, há uma certa exigência... Nós não somos os ressentidos, apesar de já termos tocado com eles [refere-se à banda galega dos anos 80 Os Resentidos], mas penso que nos abordam de uma maneira… (pausa) Noto que são mais permissivos com outras bandas, mesmo contemporâneas nossas, porque lhes permitem fazer o mesmo espetáculo, o mesmo disco, durante vários anos. Connosco há sempre uma exigenciazinha “ah, isto não é o que eu quero”. Quer dizer, não é o que as pessoas querem, é o que sabemos e podemos fazer.

Isso não terá a ver com o facto de os GNR terem partido de um ponto mais arty? Ou seja, pede-se mais porque se espera mais?
RR: Sim, é aquela diferença com a qual brinco sempre. Os espanhóis distinguem os poporró e os rocopó [pop rock e rock pop, mais pop ou mais rock]. Nós vamos ser sempre mais poporró do que rocopó. Ou cocoricócó e rococó.

A composição, hoje em dia, fica completamente entregue a Tóli César Machado. O que leva, por um lado, a uma certa homogeneização musical não causará também uma perda de diversidade? No “Rock in Rio Douro” havia três créditos de autoria… Agora há mais teclados, mais pianos…
JR: É verdade. De acordo. São compostas em teclados…
RR: É diferente, sim.
JR: Estávamos a falar nisso no outro dia…
RR: Nós próprios sentimos isso. É uma das coisas que se pode procurar, gente com ideias instrumentais que nos complemente, que nos inspire, nomeadamente.

Os teclados e o piano não vos acantonam num lado mais baladeiro, mais slow?
RR: Sim, mas desde que seja feito com intensidade não vejo problema nisso. Um dos problemas que víamos nesta canção, que nos fez despertar certos alarmes, é que a canção a certa altura… Vou dizer isto de maneira despretensiosa: com outra maneira de pegar, com outros músicos, poderia soar um bocado George Michael. Bastava meter um sax [risos]. Tentou-se. A primeira leitura foi essa.
JR: Era altura de produção e dissemos logo: nós não…
RR: Spandau Ballet… São esses riscos. Mas sem cair no mainstream… Eu não tenho medo do chamado mainstream. Se uma pessoa vai pela autoestrada, vai pela autoestrada. Não tem de andar sempre a fazer trail ou pistas de atletismo. Não há esse risco porque as vidas não são mainstream. As vivências não o são. É o que, se calhar, nos afasta um pouquinho, um poucochinho, dos nossos colegas pimba: temos uma vivência que não tem a ver com aquelas vidas. Embora pensando em duas ou três vedetas nacionais, às vezes olho para os meus colegas já com longas carreiras [enfatiza a palavra] e penso assim: “ele também usa casacos com eu, o penteado também não anda longe”. É uma questão de opções estéticas [risos].

Alguém que tenha ouvido o “Psicopátria” no início da sua vida adulta, terá hoje 50 e poucos anos. Quem era Sub-16 e esteve em Alvalade e nas Antas em 1992 e 1993 anda à volta dos 40. Quem entrou nos GNR via ‘Asas Eléctricas’, da banda-sonora do filme “Amo-te Teresa”, será agora um trintão. Qual é o público dos GNR hoje?
RR: Agora nós temos, se calhar, mais dificuldade com aquela geração a que chamo “Os Ronaldos”, aquele pessoal que tem aqueles penteados mais ‘arronaldados’. Já não nos encaixamos nas receções estudantis; fica para outros. Há um núcleo forte nas pessoas que estão nos seus primeiros quarentas, que têm uma memória para trás e querem alguma coisa para a frente. É o barco que puxa mais. As pessoas da minha geração já estão preocupadas com netos, e o prazer que se tinha ao viver com essas músicas, o que lhes proporcionava, agora dificilmente provoca a mesma ereção. Os orgasmos múltiplos serão mais difíceis.

O facto de nunca terem voltado ao disco que vendeu mais, “Rock in Rio Douro”, teve a ver com o que veio a seguir, na altura? Ficaram negativamente marcados pelo reverso da medalha de uma certa sobre-exposição?
RR: Não foi negativo. Era difícil refazer os concertos nos estádios…

Celebraram o “Psicopátria” [1986] com concertos especiais em 2016, mas parece que há um certo pudor em voltar ao “Rock in Rio Douro” [1992], que teve mais sucesso comercial…
RR: Se virem o alinhamento do DVD do Campo Pequeno [“Os Primeiros 35 Anos Ao Vivo”], fazemos ali um remembering.
JR: A sensação com que eu fiquei quando tocámos o “Psicopátria” na íntegra foi: o Tóli já não está a tocar bateria, a secção rítmica já não é a mesma, a formação que gravou o disco não é a mesma... Se calhar os músicos que tocaram connosco [em 2016] não sentem isso, mas para mim – que estive em estúdio – há detalhes que não senti da mesma forma. [Fazer o mesmo] com o “Rock in Rio Douro”, não podendo tocá-lo com a mesma formação, não me bateria da mesma maneira. Ainda se chegou a falar nisso, mas recusámos logo. Não era verdadeiro.
RR: Soaria um bocado Supertramp.
JR: Supertrampa!
RR: Não seria muito sincero. O mais interessante foi feito talvez no disco “Revistados 25-06” [onde nomes ligados ao hip-hop nacional releram o repertório dos GNR], que para mim é dos mais interessantes da nossa não-carreira. É gente de outra geração e outras referências musicais.
JR: É a visão do lado de lá.
RR: É quase como um ‘remake’ de um filme: feito por outro realizador e com outros atores.

Há alguns anos o Rui, refletindo sobre a pop contemporânea, dizia que “o Marco Paulo hoje em dia parece o Beethoven”. Continua escandalizado com os adventos musicais?
RR: Com quase toda a pop. Os prémios da MTV parecem um congresso de cabeleireiros.
JR: A Flock of Seagulls! [risos]
RR: É muito difícil ter paciência. Eu tenho um lado infantil muito grande, mas não vou dizer que tenho um lado La Féria, porque não tenho. Custa-me muito ver um espetáculo da Katy Perry… Não tem interesse para mim seja em termos musicais ou estéticos. Conheci o grande Neil Hannon, dos Divine Comedy, e ele perguntou-me: “o que é que achas do que se faz agora?”. Respondi-lhe: “não gosto assim tanto, se calhar”. E ele teve um quote muito inteligente: “I think it’s Lady Gagas' fault”. A culpa das Lady Gagas deste mundo é vulgarizar o que já de si era vulgar. Eu não considero pop art o que as pessoas hoje chamam um artista pop. É para lá disso: é talvez um pós-pop, ultra pop. Super pop! Há quem prefira o Ajax, que limpa vidros, mas eu continuo a gostar mais de Super Pop.

“TODOS OS ÓRGÃOS FALHAM. SE NÃO É ISSO, É A CABECINHA. POR ALGUMA COISA O GATO VAI ÀS FILHOSES. EU AGORA É MENOS FILHOSES” Rui Reininho

Porque é que os GNR nunca embarcaram em superbandas como os Rio Grande ou Resistência? Desconfiam destas empreitadas?
JR: Nunca sentimos necessidade. Nunca vimos que fosse preciso. Nem tiveram grande interesse em vir ao nosso repertório.
RR: Parece que agora fizeram uma. Os Resistência… O ‘Sete Naves’ [tema de abertura de “Ventos e Marés”, lançado em outubro]. Não ouvi, mas vou ouvir, com certeza.

Estas superbandas...
RR: Acabam por correr mal [risos]

Resistência correu bem.
RR: Nós também tivemos coisas que correram muito mal. Espetáculos que correram francamente mal, mas é interessante ter essas memórias também.

Está a lembrar-se de alguma coisa?
RR: Lembro-me de estar a espernear, furioso, no Bombarral… em que as coisas correram muito mal [risos]. Quando havia quebras de energia, tínhamos de reiniciar o espetáculo duas, três ou quatro vezes. E em termos de gravações também. A “Valsa dos Detectives” [1989] estava a correr mesmo muito mal. Um ambiente de estúdio de cortar à faca.
JR: Teve a ver com o produtor [Remy Walter].

Nos primeiros tempos de GNR havia muita gritaria…
RR: Todos a falar ao mesmo tempo. Não sei o que fiz a algumas cassetes dos ensaios. Estive a ver num documentário do Edgar Pera um espetáculo nosso em Moscavide… Antes do encore, achei hilariante, estamos todos a discutir que música é que íamos fazer ou não fazer no encore.
JR: Isso mostra a nossa organização. [risos]
RR: Era o nosso ‘manageiro’ da altura, o Ricardo Machaqueiro, no meio de nós: “epá, entrem, entrem”. Estávamos a fazer uma votação do género fósforo mais curto. “Não, não, essa não”.

No clip da canção nova, há uma rapariga que carrega um ponto de interrogação pelo Porto. Temem que a vossa cidade se torne um parque de diversões para passageiros ocasionais?
JR: Já começa a ser.
RR: Talvez a Baixa… Nas cidades, embora às vezes pareça que não, há uma coisa muito importante, que são as pessoas. Aquela gente é dura e não é seguidista. Claro que acenando com uns euros ou dólares, as coisas podem ser vendidas. Mas já notei isso no Porto 2001, em que houve uma conquista de uma certa elite e em que se apostou pouco na reabilitação. É claro que a mim e a outras pessoas cansa-nos os ‘where are you froms’.
JR: Na semana passada passei pela Ribeira e os empregados das esplanadas já só abordam as pessoas [em inglês]. Uma senhora disse: “olha, este caralho agora só fala camone”. É o sintoma de…
RR: O pessoal não pense que isto dura sempre. Como sou um homem muito antigo, lembro-me de um fenómeno muito parecido. Quanto Itália esteve na moda, foi assim. Todos os artistas iam viver para a Toscânia, para Roma. Não havia vedeta americana que não fosse viver para Roma, ou que não tivesse a sua villa na província. Os gregos também se queixaram disso: o que é que fizeram a Atenas? São as novas invasões. Eu creio que os alemães ganharam a guerra e a gente não se apercebeu disso. [Voltando atrás], eu gosto deste clip porque mantém aquele ar meio cinzento, o Silo Auto, todos aqueles sítios estão ainda muito empedernidos. A Baixa ainda está muito deserta… Parece que ainda há ali um espaço…
JR: Deserta de?
RR: De ideias! Isto de ter um hostel, uma casa de recuerdos e um restaurantezinho gourmet há em todo o lado. Há que criar, outra vez.

A tomada das ‘ilhas’ do Porto pelo turismo é o novo “vamos brincar aos pobrezinhos”?
RR: Ó amigo, mas isto é como o outro: basta cair uma bombita e vai logo tudo para outro lado…

Em 2016, o Rui falou abertamente sobre a hepatite que o apoquentou durante décadas e de como foi “salvo pela ciência”, isto é, por medicamentos que passaram a ser comparticipados pelo estado. Dois anos depois, gostaríamos de saber se…
RR: Se estou bem? Estou, muito obrigado. Agradeço a sua preocupação. E do vosso lado?

Bem, obrigado. Mas o assunto foi público e premente…
RR: Mas isto é como o sarampo. Também já tive varicela. São coisas que já não conto ter. [pausa] Não nos esqueçamos que no ano passado perdemos um grande amigo [Zé Pedro]… Todos os órgãos falham. Se não é isso, é a cabecinha. Por alguma coisa o gato vai às filhoses. Eu agora é menos filhoses. Mas acho muito simpático alguém se preocupar comigo! Estou mais gordinho. Na cara não se nota, mas no corpinho…

O Jorge, por seu lado, está igual há 20 anos. Estaremos perante um vampiro?
RR: É o Dorian Gray. Os vampiros de dia não têm muito bom aspeto.
JR: Não faço ideia! Vou doar os meus órgãos, acho que estão em bom estado.

À semelhança do que aconteceu na eleição de Trump, as múltiplas vozes dos artistas que se ergueram contra Bolsonaro caíram em saco roto. O povo real descredibiliza o que o artista pensa para além da sua música e da sua arte?
RR: Quando era miúdo falava mais. Lembro-me perfeitamente dos ‘tin soldiers and Nixon coming’, uma música do Neil Young, ‘Ohio’ [de Crosby Stills Nash & Young]. Na altura eu achava que a América era o grande Satã, de repente dessacralizou-se… Mais assustador do que isso, o que está por trás deste movimento todo é a evangelização, a intolerância e a estupidez humana. Se eu fosse escultor faria uma estátua à estupidez humana. Uma estátua de Rodes, quase como o Titã de Leça, que é uma peça importante para mim. Pouco a pouco, no contacto com as gentes, é possível alterar muitas coisas. As fake news, o fakebook, como lhe chamo, não resolvem nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir: dedos para cima e dedos para baixo é pouco. Aconselho que se saia mais de casa. A música da palavra, o hip-hop, tinha mais obrigação… Esta vida não é só bonés e sneakers. Era necessário haver coisas mais violentas.
JR: Revolution.
RR: Eu tenho medo é dos banqueiros, aquela gente que nos olha por cima dos olhos. (pausa) Era de esperar. [Artistas como Caetano Veloso ou Chico Buarque] são pessoas que vivem a sua tranquilidade e já não lhes compete… Agora agarrávamos no colega Sérgio Godinho e dizíamos: “vamos fazer uma muralha de aço!”. (risos) Se calhar dava-me um encontrão!