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Ornatos Violeta em 1997

Rita Carmo

“Vivíamos as coisas muito intensamente, muito rápido. Acabava os concertos num fanico”. O tempo dos Ornatos Violeta era outro

Em 2012, Manel Cruz recordava os primeiros passos de uma das bandas mais queridas da música em Portugal

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Queima das Fitas do Porto, maio de 2001. Numa noite chuvosa, estudantes e não estudantes acorreram em massa à festa académica da Invicta, atraídos não só pelo folclore do costume – o jornal BLITZ dava apenas 3/10 ao «espírito» desta edição da Queima – como pelos concertos.

Era segunda-feira e o palco foi estreado pelos The Gift, então em promoção do álbum Film. Seguiram-se os Ornatos Violeta, «interrompendo as férias após a extensa digressão de O Monstro Precisa de Amigos», reportava o BLITZ, para «comemorar os dez anos de carreira iniciada, em palco, em março de 1991».

O ambiente, contudo, estava longe de festivo: na primeira fila, os fãs seguravam cartazes onde se podia ler «Não quero ver o fim chegar», uma frase da canção «Tempo de Nascer», incluída na compilação Tejo Beat, de 1998, e agora recuperada no disco de inéditos e raridades que acompanha as reedições dos dois álbuns dos portuenses. O alinhamento trouxe, também, alguma fuga à norma, com uma versão de «Breakin' Up», dos Violent Femmes, a enevoar ainda mais a mente dos espetadores («breakin' up it's easy to do», cantava Manel Cruz, num idioma que não era seu apanágio).

Iriam os Ornatos Violeta separar-se, tal como indicavam os rumores das últimas semanas? «Isso nunca foi revelado à imprensa», disse o vocalista dos Ornatos, no desmentido com que abriu o serão. Contudo, este espetáculo na Queima do Porto seria mesmo o último grande concerto da banda de Cão!, que decidiu separar-se numa altura em que começava a ganhar um fôlego diferente. «O Monstro vendeu em três meses o dobro do [Cão!] em dois anos e tal», congratulava-se Elísio Donas, teclista e responsável por vários arranjos do grupo, em entrevista, meses antes.

Durante anos, as razões do fim dos Ornatos Violeta, uma banda que, atualmente e graças a uma geração que tê-los-á descoberto na internet, parece ter mais fãs do que nunca, não foram explicadas. Com a reedição de Cão! e O Monstro Precisa de Amigos, Manel Cruz, vocalista, letrista e figura de culto, abre o livro e mostra que muitas das chagas abertas pelo fim da banda começam, agora, a sarar.

Cristina Briona (segunda a contar da dta) cantou com os Ornatos nos primeiros anos da banda

Cristina Briona (segunda a contar da dta) cantou com os Ornatos nos primeiros anos da banda

Do cabaré ao melodrama rock

Fundados em 1991 no Porto, por um grupo de amigos e colegas na Escola Secundária Soares dos Reis, os Ornatos Violeta percorreram, ao longo de pouco mais de uma década, um percurso rico em guinadas e experiências. Ler as primeiras críticas a concertos do grupo é encontrar referências ao «west coast rock dos anos 60 (Doors, Love), swing, Jorge Palma, Violent Femmes ou rhythm and blues» (jornal A Capital, maio de 1993) ou a um «espetáculo de cabaré, onde Kurt Weil se encontra com a plebe e alguns bêbados, boémios e divertidos, como numa sessão de poesia beatnick descomprometida, numa cave parisiense transportada (...) para uma sebosa noite de província» (BLITZ, sobre um concerto na Gesto, no Porto).

Não reconhece nestas palavras os Ornatos de «Ouvi Dizer»? É normal, explica Manel Cruz. «Nós sempre fomos muito permeáveis e muito esponja das coisas. Às vezes até demasiado, mas faz parte do processo criativo das coisas: pões a hipótese de fazer tantas coisas que fazes coisas que não têm nada a ver contigo. No percurso dos Ornatos há coisas muito díspares; muitas delas as pessoas felizmente nunca conheceram», confessa, entre risos. «A nossa identidade passava muito por uma falta de identidade muito vincada. Entusiasmávamo-nos com muitas coisas díspares e éramos muito inconstantes. Associado ao facto de sermos muito amigos, as coisas pendiam para o lado da diversão. Tudo isso misturado leva a que experimentes muita coisa. Embora tenhamos tido uma peneira, as coisas foram sempre muito diferentes».

Antes do primeiro álbum, lançado em 1997, os Ornatos não eram os melhores instrumentistas («Temos um CD-ROM com a gravação do nosso primeiro concerto que explica muito bem porque é que demorámos seis anos a lançar o primeiro disco», ilustravam ao site Voxpop em agosto de 2000), mas não diziam não a quase nada. «Nós nunca dissociávamos aquilo que ouvíamos do que fazíamos», esclarece Manel Cruz. «Quando nos entusiasmávamos com o que ouvíamos, íamos experimentar aquilo à nossa maneira, e isso dava aqueles mutantes».

Basta ouvir «Dez Lamúrias Por Gole», lançada em 1995 numa compilação da revista Ritual e agora incluída no CD extra das reedições, para sentir essas doses equilibradas de paixão e ingenuidade, sofreguidão e talento. Por esta altura, os Ornatos ganhavam o prémio de originalidade do Rock Rendez Vous e passeavam-se por França, nomeadamente Montpellier e Nimes, onde se deixaram arrebatar pelos sons do ska, muito presentes, mais tarde, em Cão!.

Em palco, a presença de Manel Cruz já se fazia notar. «Acho que me lembro mais da ilustração do que era a minha cabeça nessa altura», recorda o cantor, alertando para a reconstrução a que se sujeita a memória humana. «É difícil imaginar o meu nervosismo na altura e o nervosismo que tenho agora, que prendem-se com razões diferentes, com medos diferentes. Mas tenho imagens dos sítios, de coisas que fiz e coisas que senti, e parece-me muito tempo», reflete.

«Nós vivíamos as coisas muito intensamente, muito rápido, então vivíamos muita coisa num curto espaço de tempo. Dois anos, para nós, era uma eternidade».

Cão!, o primeiro álbum dos Ornatos Violeta, foi editado em setembro de 1997

Cão!, o primeiro álbum dos Ornatos Violeta, foi editado em setembro de 1997

Em palco, os Ornatos conquistavam público e crítica. O jornal BLITZ chegou a chamar «sexual» à prestação de Manel Cruz

Em palco, os Ornatos conquistavam público e crítica. O jornal BLITZ chegou a chamar «sexual» à prestação de Manel Cruz

Cuidado com o Cão

Quando o primeiro disco saiu, os Ornatos já não eram a banda de outros tempos. «Agora o nosso som é muito mais rock. Estamos menos adocicados e pop», resumia Elísio Donas em entrevista ao Sons, em 1997. E, apesar do impacto no cancioneiro nacional e nos primeiros nicks da internet portuguesa de músicas como «Punk Moda Funk», «Mata-me Outra Vez» ou «Dama do Sinal», Cão! não foi um sucesso de vendas.

O percurso discreto do álbum nas tabelas de vendas não desmoralizou aquela que era considerada «a next big thing da [editora] Polygram». «Uma pessoa quando está fechada num projeto e está cheia de si acaba por se aproximar demasiado do quadro e por se esquecer que toda a gente tem uma vida, que vê e ouve muita coisa e tem muita coisa para fazer durante o dia. E as coisas levam o tempo que têm de demorar, e ninguém é burro», relativiza Manel Cruz. «Não me lembro de ficarmos muito parados aí, porque o processo é assim com todas as bandas: elas vão andando e lutando, com um certo orgulho de terem ali uma coisa especial em que as pessoas ainda não notaram», explica. «Nós sabemos que nós é que temos de nos esforçar por fazer coisas boas, não são as pessoas que têm de esforçar-se por gostar daquilo que nós fazemos».

E esforço não faltava aos Ornatos, sobretudo em palco, com a banda a colocar todo o seu empenho em atuações eminentemente físicas e teatrais. «Eu não berrava - é muito raro eu dar um berro - mas a voz era sempre lá em cima», lembra Manel Cruz. «Embora houvesse dinâmicas, tinha uma abordagem um bocadinho narrativa, e por isso acabava por preencher as músicas todas com a voz», diz. «Lembro-me de o facto de dar concertos seguidos ser um problema. E estava num processo de aprendizagem ainda estou, mas na altura estava mais em relação a cantar e à respiração. Se começas a atacar mal o concerto, a atacar mal a voz.... Essa gestão, quando és mais novo, não a fazes tão bem. Também acabas por te deslocar mais em palco e a intensidade com que eu vivia as coisas fazia com que acabasse os concertos sempre num fanico».

A quantidade de gente na plateia aumentaria dois anos mais tarde, com a chegada de O Monstro Precisa de Amigos. Com um título inspirado num sonho de Manel Cruz, o segundo álbum dos nortenhos valeu-lhes um culto, se não muito numeroso, bastante fiel. «Começámos a sentir que tínhamos um público», diz Manel Cruz. «Quando dávamos um concerto tínhamos pessoas que cantavam as nossas músicas, que estavam lá sempre e iam falar connosco».

A crítica rendia-se, também, a um disco mais negro que o seu irmão mais velho (a banda falava em «dor de corno», em entrevista à Fórum Estudante) e marcado por certas tendências mais sinfónicas e até orquestrais (o conjunto de cordas Corvos participa nalgumas canções).

«Se quisermos ser otimistas, poderemos pensar que os Ornatos Violeta reatam, por fim, uma atitude de aproximação e simultâneo alheamento ao quotidiano, que se julgava perdida desde os GNR», escrevia o Expresso, em novembro de 1999. No mês seguinte, o BLITZ também não poupava elogios ao Monstro, mais tarde galardoado com várias estatuetas nos prémios do jornal.

Para ler sobre O Monstro Precisa de Amigos, siga por aqui.

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2012