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Júlio Resende

O pensamento de Júlio Resende, o filósofo que desde os quatro anos não larga o piano. “As pessoas que digam coisas, mas tentem pensá-las”

O pianista e compositor português, que nos últimos anos se tornou mais conhecido do grande público mercê das colaborações com Salvador Sobral, acaba de lançar o álbum “Cinderella Cyborg”. Em entrevista à BLITZ, Júlio Resende conta porque decidiu trocar a Filosofia pela música e revela alguns dos momentos mais “bonitos” da sua carreira até agora - um deles inclui Caetano Veloso

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

2018 tem sido um ano frenético para Júlio Resende. Depois de participar no Festival da Canção como compositor, escrevendo a canção a que Catarina Miranda, aka Emmy Curl, havia de dar voz, marcou também presença na Final da Eurovisão, que pela primeira vez se realizou em Portugal. No palco da Altice Arena, em Lisboa, o pianista e compositor acompanhou, no seu instrumento predileto, o dueto entre Salvador Sobral e Caetano Veloso, naquele que considera ter sido um dos pontos altos da sua carreira até agora. Ao longo dos últimos meses, Júlio Resende tem também dado concertos com Salvador Sobral, ora a solo, ora na banda Alexander Search, de que é membro de pleno direito. Para finalizar o ano, o pianista e compositor algarvio acaba de editar “Cinderella Cyborg”, um disco a solo, não obstante contar com a participação de outros músicos. Reflexão sobre a dualidade homem/máquina e os mal-entendidos em seu redor, o álbum serviu de pretexto a esta entrevista.

Quando começou a pensar neste disco que agora chega às lojas, “Cinderella Cyborg”?
Foi nascendo em paralelo com as outras coisas que vou fazendo. Mas a relação com a eletrónica já existe há muitos anos - foi explorada nos Alexander Search e noutros [projetos]. Entretanto, finalmente surgiu esta possibilidade de construir canções originais com esta dialética, com este jogo entre o acústico e o eletrónico, entre homem e máquina.

Essa dicotomia, mas não necessariamente no aspeto negativo, já o ocupa há algum tempo? A possível complementaridade entre homem e máquina?
É um assunto atual... Mas dá-me um bocado de azia a ideia negativa que há sobre a máquina. Porque a máquina tem um construtor, humano, e é ele o responsável pela forma como lida com a máquina e como se junta à mesma. E a máquina tem tido serviços maravilhosos! Como disse no texto [de apresentação do disco], tenho amigos que viveram melhor por causa do pacemaker, e são eles o cyborg perfeito. Essa máquina favorece os humanos. E mesmo as redes têm muitas coisas boas para oferecer, em relação à empatia e à distância.

Há sempre um lado humano na tecnologia?
Sim, há sempre uma parte humana. Aliás, é essa [parte] que gera as coisas e, nessa medida, da relação entre homem e máquina - ainda que o homem tenha tendência para pensar na tragédia - podem acontecer coisas boas. Também podem acontecer coisas muito más, mas a responsabilidade é nossa, não da máquina. Musicalmente falando, a eletrónica tem um mundo sonoro maravilhoso e, para mim, era um grande desafio combinar as exigências do mundo acústico com as exigências do mundo mecânico, e eletrónico. A ideia de Cinderela tem que ver com, no meio da tragédia, haver qualquer coisa que emerge e que se torna mais bela, no final.

No texto de apresentação, fala dos sons belos que as máquinas também são capazes de produzir... Estava a pensar nalgum som em particular?
Um dos temas tem sons de relógios que, combinados com as tecnologias, constroem um beat e uma dança que a bateria não é capaz de fazer. Juntar bateria a isso é mais um acrescento. Juntar o piano - acústico, sem tomada, sem eletricidade - é mais uma coisa interessante. E, no final, queria fazer boas canções e boas performances.

Nasceu em Faro, no Algarve, e começou a estudar piano aos 4 anos. Foi uma vocação precoce ou um desejo dos seus pais?
Há qualquer coisa de vocacional, não por ter sido tão cedo, mas por ser uma coisa que desde então me acompanha. Há [atividades] que começamos mas depois largamos. Eu nunca larguei o piano - nessa medida, pode pensar-se em qualquer coisa como vocação. É um brinquedo, o meu brinquedo favorito, desde sempre. É tão mais vasto e tão mais ilimitado do que eu... Tento sempre descobrir mais coisas para juntar ao piano, que possam transformá-lo.

O que é que o piano lhe oferece que os outros instrumentos não têm?
Atualmente o piano permite-me executar as minhas ideias musicais base. É um instrumento com muitas teclas, muitas possibilidades, muito alcance, que consegue pensar a música em geral. Mas aquilo de que mais gosto, de momento, é aquilo que se pode juntar ao piano. O piano a solo, também, mas aquilo que se lhe pode acrescentar. Tenho feito muitas coisas nesse género, inclusive o [disco com músicas de] Amália [“Amália por Júlio Resende”, de 2013], que no final tem uma canção com a voz da Amália. Foi só acrescentar o piano e tirar outras coisas e a canção logo trouxe uma nova dimensão - ao piano, à própria Amália, não que ela precisasse... No outro dia, o Vítor Pavão dos Santos mandou-me uma mensagem no Facebook. Ele escreveu a biografia da Amália [“Amália - Uma Biografia”, Editorial Presença] - fez-lhe 53 entrevistas e redigiu a biografia compilando aquilo que ela lhe disse, então parece que estás a falar com ela, é uma biografia maravilhosa. Ele é uma das pessoas que ainda podem falar diretamente sobre a Amália e mandou-me uma mensagem a dizer: “a sua homenagem é aquela que a Amália amaria”. E isso deixou-me muito sensibilizado e feliz, ainda que seja uma incógnita saber aquilo de que ela de facto gostava.

Começou a tocar piano muito cedo e nunca largou a música. Quando percebeu que esta viria a ser, de facto, a sua vida?
Quando comecei a estudar Filosofia na universidade e percebi que não iria ter tempo para ser professor de Filosofia de manhã e à tarde e músico à noite. Quando percebi que a música - além do estudo, a própria profissão - exigia muito mais. Quando percebi que aquilo que mais gostava de fazer era música. E que o meu objetivo era ser músico profissional a tempo inteiro e para toda a vida.

Mas sente que o curso de Filosofia o acompanha de alguma forma?
Sim, penso que me obriga a pensar em conceitos interessantes. E a trabalhá-los bem. E tento trazer essas reflexões para o mundo musical, ainda que a música seja outra coisa, que vem depois da reflexão. A reflexão faz-se para trás, a vida faz-se para a frente, como se costuma dizer em Filosofia. E a música também.

É amigo e colaborador de Salvador Sobral, e neste disco incluiu uma canção de título 'Tema Bonito para Salvador'...
Salvador é também o meu filho! Mas o tema é para os dois Salvadores. Assim não precisei de pôr os dois nomes.

Lembra-se do dia em que conheceu o Salvador Sobral? Qual a primeira impressão que teve dele?
O tema chama-se 'Tema Bonito', e o Salvador cantava de modo muito bonito. Mais do que a técnica ou a parte cerebral da música, era um tipo que dizia as coisas com o coração, e eu sempre gostei de pessoas emocionalmente musicais. Isso aproximou-nos. Depois começámos a construir o disco dele e entretanto já se sabe mais ou menos como foi o percurso.

Disse numa entrevista que uma das coisas que mais aprecia é dar concertos com ele. É em palco que a espontaneidade do Salvador Sobral vem mais ao de cima?
Sim, vem muito ao de cima. Gosto muito de tocar com ele e tem sido das coisas mais bonitas que fiz, porque a banda dá-se muito bem e toca muito bem. Ainda por cima houve alguns golpes de magia e golpes do destino em relação ao Salvador, felizmente todos positivos. Ainda que ele seja já uma figura mitológica em relação ao que enfrentou na vida pessoal, tudo isso cria muita emoção. Mas [o meu prazer] centra-se sobretudo no facto de, em cima do palco, a malta se sentir completa.

Está também a trabalhar no novo disco do Salvador Sobral. Quando irá ser lançado?
No próximo ano, acho que não vai demorar muito. Talvez nos primeiros quatro meses do ano.

Um dos temas do seu disco chama-se 'LisbonHood' e nele conta com a voz de um fadista, Peu Madureira, e de Sam Azura, um rapper alemão. Quem é ele e como o conheceu?
O Sam é alemão mas viveu muito tempo em Londres e agora está cá, radicado em Lisboa, cidade pela qual se apaixonou e onde está a construir as suas músicas. Conheci-o há alguns anos e tem-me mostrado melhor o mundo do hip-hop, pelo qual ainda é mais apaixonado do que eu. Eu sempre gostei - nos meus discos de jazz tenho algumas referências ao hip-hop, até escrevi um tema que se chama 'Hip-Hop Du-Bop', que vem no meu terceiro disco, inspirado por uma banda de hip-hop, os Antipop Consortium. O Sam escreveu a letra de 'LisbonHood', depois de eu lhe ter mostrado a música e de lhe ter pedido que escrevesse uma carta de amor à cidade, já que é um estrangeiro que adora Lisboa.

Ainda consegue olhar para Lisboa dessa forma apaixonada ou é preciso estar a ver “de fora”?
Lisboa é espantosa! Sim, consigo. Não vou muito para os sítios mais cobiçados. Quando vou, percebo o porquê da cobiça. Mas para quem já morou em Paris, ainda está tranquilo.

Menciona vários escritores. É um fã de literatura? Quais os seus autores favoritos?
Sim, sobretudo de poesia. Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes.

Já trabalhou com numerosos músicos. Há alguém com quem ainda adorasse vir a colaborar?
Posso pensar em várias pessoas. Mas este ano aconteceu uma daquelas coisas que eu almejava e talvez achasse que nunca iria acontecer - tocar com o Caetano Veloso. É difícil pensar noutra pessoa com quem quisesse contracenar, depois dele. Alguma que fosse mais inacessível, mais emblemática para mim... talvez o João Gilberto. (risos)

Como foi partilhar o palco com o Caetano Veloso, na Final da Eurovisão?
Foi uma lição. Ele é muito corajoso, mesmo com as dificuldades que diz já ter em decorar novas músicas. Atirou-se de cabeça, sabendo que se podia 'magoar', e deu-nos isso. Acarinhou-nos com esse gesto e isso é uma lição para todos nós. E o modo como pensa música e escuta música, o modo como escreve, como fala com os outros - é uma grande lição. Muito interessado, humilde, comunicativo.

Este ano participou também no Festival da Canção como compositor, escrevendo a canção que a Emmy Curl (Catarina Miranda) viria a cantar. Ficou contente com o impacto que a canção teve?
Fiquei muito contente, por todas as razões. Acho que a canção era forte e a Emmy cantou-a de forma incrível. Foi uma experiência incrível estar num palco para ainda mais gente do que é costume, e mais gente passar a conhecê-la, e ela cantar em português, quando costuma usar mais o inglês. A canção ['Para Sorrir Eu Não Preciso De Nada'] foi crescendo dentro das pessoas e agradava a gregos e troianos, quer aos críticos quer às pessoas que ouvem música “normalmente”. Era uma canção bem posta. De paz, também. E só se descobria mesmo no final, na última frase. Acho que foi preciso ter alguma audácia para não dizer tudo logo no início, o que se faz muito atualmente.

As canções do festival causaram reações muito extremadas e passionais... Alguma vez ouviu alguma coisa sobre o Salvador Sobral que lhe causasse indignação? Por vezes sofremos mais pelos amigos do que eles próprios...
Não. Também nunca ouvi nada que não fosse apenas inútil ou estapafúrdio. Nunca ouvi um raciocínio bem elaborado em relação a alguma coisa que se possa dizer de mau em relação ao Salvador. Ele próprio assumiu o único erro que teve, na performance pelas vítimas dos incêndios. Não contra o respeitar as pessoas, obviamente, mas contra a ideia de sucesso e de a pessoa poder fazer qualquer coisa. E como ele também é descontraído em relação a isso, fico mais descansado. Acho piada à crítica, é importante. As pessoas que digam coisas! Mas tentem pensá-las antes de dizer, já não seria mau.

Com o Salvador Sobral, tem feito versões de canções como 'Anda Estragar-me os Planos', que a Joana Barra Vaz levou ao Festival da Canção. É algo que também lhe dá gozo?
Muito! É uma bela canção. Há pouco falámos da minha canção [para a Emmy Curl], que tem letra da Camila Ferraro - aquela belíssima letra, com aquela bela punchline no final... E temos muito gozo em estar disponíveis para os outros músicos, em tentar desconstruir e voltar a construir de outra maneira. Esperamos que eles gostem!

Em tempos teve uma rubrica onde, a convite da BLITZ, escolhia e tocava ao piano as canções da sua vida. Tem havido acrescentos a esse panteão?
Canções não sei, mas tenho tido uma relação especial com o Jack Johnson. Um tipo muito interessante, porque a sua música reflete a vida que ele leva, enquanto surfista. Encontra-se muito surf, muito sol, muita praia, muito boa onda naquela sua música, muito bem feita. Bem tocada e condigna com o modo como ele existe. E ainda ontem estive a ouvir um disco de um músico eletrónico que também é baterista; chama-se Shigeto e tem coisas muito interessantes.

“Cinderella Cyborg” já está à venda. A 2 de novembro, Júlio Resende toca no Tivoli, em Lisboa, e a 13 do mesmo mês na Casa da Música, no Porto.