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Giorgio Moroder em 1979

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Giovanni Giorgio Moroder é amor. Muito amor

Numa altura em que o veterano músico anuncia a sua primeira digressão (aos 78 anos!), recordamos o seu percurso: foi um dos pioneiros do disco sound e um dos primeiros a levar as eletrónicas aos espaços da música de dança. Com sedução do primeiro ao último pelo do bigode

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

A voz tem um pouco de sotaque, e não esconde a prosódia do alemão... Conta-nos que quando se liberta a mente de um conceito de harmonia e daquilo que se diz ser correto, pode fazerse o que bem se entender. E como ninguém lhe disse o que devia fazer, não foi tomado pelo preconceito. Ele mesmo identifica-se: «o meu nome é Giovanni Giorgio, mas toda a gente me chama Giorgio»... As palavras não foram proferidas numa entrevista em rádio nem mesmo em televisão. Surgiram, faladas, num disco. Mas ninguém imaginaria contudo que em «Giorgio by Moroder», do alinhamento do mais recente álbum dos Daft Punk, estaria o ponto de partida para uma reativação da carreira de um dos mais celebrados produtores dos anos 70 e 80 e um dos pais do disco sound. E agora, aos 74 anos, que como ele mesmo entretanto explicou à revista Rolling Stone, «são os novos 24», Giorgio Moroder acaba de lançar o seu primeiro novo álbum em 30 anos.

A história deste regresso pode apontar o seu momento zero ao dia em que, estando em Los Angeles para trabalhar na banda sonora da sequela de Tron, os Daft Punk contactam Giorgio Moroder, convidando-o para um almoço, falando desde logo no desejo de uma eventual colaboração. Sem agenda ainda marcada, o produtor comentou o convite com filho, que ainda não tem 20 anos. E foi o seu evidente entusiasmo que não deixou o pai Moroder indiferente. Tinha de aceitar o desafio.

Algum tempo depois é o próprio Thomas Bangalter (um dos dois elementos dos Daft Punk) quem o chama a estúdio.
Moroder estava então convencido de que seria convidado a tocar guitarra ou sintetizadores. Mas não. Disseram-lhe que teria apenas de falar. De contar alguns dos seus segredos. E o veterano recordou então histórias de idas a discotecas na Alemanha entre finais dos anos 60 e inícios dos 70, das noites em que ficava a dormir no carro para gastar menos, do desejo em fazer uma música que juntasse os ecos passado ao som do futuro... E aí faz-se luz, compreendendo quem o ouve que, nesse instante, está já a falar das colaborações com Donna Summer que colocaram ambos no mapa das atenções.

Animado pelo impacto global de «Get Lucky», o álbum dos Daft Punk levou «Giorgio By Moroder» aos cantos do mundo, lembrando a muitos um vulto maior na história da música de dança. Não foi preciso esperar muito para que uma editora a RCA lhe propusesse um regresso algo que, mesmo sentindo ele a jovialidade dos 24, Giorgio Moroder sabe que não é convite frequentemente feito a quem tenha na verdade 74 anos de idade. Uma vez mais tinha de aceitar. E agora estamos perante um verão com as coordenadas certas para descobrir o que há de novo e recordar o que em tempo fez aquele a quem muitos chamam o «padrinho» do disco.

PRIMEIROS PASSOS DE DANÇA

O seu nome é, como ouvimos na canção dos Daft Punk, Giovanni Giorgio. O apelido, Moroder. E nasceu numa pequena localidade do Tirol italiano a 26 de abril de 1940. Foi dos primeiros a frequentar o Scotch Club a primeira discoteca (em Aachen, na Alemanha). E começou a fazer música quando, em 1966, se mudou para Berlim, gravando canções pop em várias línguas, muitas vezes revelando açucarado e garrido tempero bubblegum. Entre os singles que lançou ainda nos anos 60 está uma versão de «Mah na Mah na», o «clássico» imortalizado pelos Marretas (com «Doo-Bee-Doo-Bee-Doo», usado no programa de Benny Hill, no lado B). Saiu em 1969, o mesmo ano em que «Looky Looky» lhe deu um primeiro grande êxito, um segundo chegando pouco depois ao assinar, em parceria com o letrista Pete Bellotte (um colaborador recorrente), o tema «Son of My Father», que alcançaria o número um no Reino Unido em 1972 numa gravação pelos Chicory Tip, já em pleno festim glam rock.

Moroder era, por isso, um músico já com discografia em nome próprio, e com trabalhos de sucesso como autor e produtor, antes de ter encontrado, numa parceria com Donna Summer, a chave não apenas para o seu futuro mas para a própria abertura do disco (e consequentemente da dance music) à música eletrónica. Vale a pena lembrar que esta era uma forma que desde a aurora dos setentas emergia nos EUA em clubes essencialmente dedicados a minorias negros, latinos e homossexuais e conhecera até então uma existência essencialmente underground mas com uma instrumentação mais «clássica», diretamente herdada de raízes na cultura R&B, com grande contribuição vinda do chamado som de Filadélfia.

A sua ideia era, então, a de juntar características das vivências pop dos anos 50 e 60 a sinais da contemporaneidade, sonhando o que poderia ser uma música do futuro. E com as emergentes eletrónicas encontra uma forma de sugerir uma pulsão rítmica hipnótica que num ápice conquista não apenas as pistas de dança mas inclusivamente a paixão do comprador de discos.

Com Donna Summer, com quem faz de «Love To Love You Baby» (1975) e «I Feel Love» (1977), duas peças centrais no firmamento disco, abre alas a todo um novo conjunto de experiências, assumindo com o segundo deste par de temas uma presença pioneira entre os que usam eletrónicas na música de dança. Uma presença que ele mesmo aprofundaria, com contornos daquilo a que mais tarde alguns chamariam space disco, em From Here To Eternity, álbum histórico de 1977 (sucessor do ainda híbrido Nights in White Satin, de 1976), um dos raros depoimentos de longa duração entre um género que viveu sobretudo do apelo de singles e da emergência do máxi-single.

Com Donna Summer, no final dos anos 70

Com Donna Summer, no final dos anos 70

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O PRODUTOR DESEJADO

O impacto das parcerias com Donna Summer e dos discos que, em nome próprio, vincavam a nova assinatura sonora de Moroder na segunda metade dos anos 70, fizeram da sua presença um sonho com jeitos de quem nele esperava um eventual toque de Midas.

Não foi por acaso que, após dois álbuns de incaracterística aventura elétrica, os Japan o chamaram para criar «Life In Tokyo» (1979), single comercialmente falhado mas que abriu novas oportunidades à música de David Sylvian e companheiros. Também em mudança de paradigma, procurando inventar o futuro com sintetizadores e programações depois de uma década entre guitarras, os Sparks convidaram-no também para produzir um novo álbum também em 1979.

É por essa altura que Moroder começa a fazer música para cinema, explorando caminhos não muito distantes dos que ia experimentando nos seus discos e como produtor. Em 1978, o mesmo ano em que apresenta em disco uma interpretação sua de composições e dos ambientes da série televisiva Battlestar Gallactica, assina a banda sonora de O Expresso da Meia Noite, de Alan Parker, com a qual vence o primeiro dos três Óscares que já arrebatou (os dois seguintes chegando com a canção de Flashdance, por Irene Cara, em 1982, e a de Top Gun, em 1986, o célebre «Take My Breath Away», gravado pelos Berlin). Seguem-se, entre outras, as bandas sonoras de American Gigolo ou A Felina, ambos de Paul Schrader, para os quais, respetivamente, assina canções icónicas com os Blondie («Call Me») e David Bowie («Putting Out Fire»). 1983, o ano de Flashdance um dos musicais de maior sucesso dos anos 80 é também o de Scarface A Força do Poder, de Brian de Palma, antecedendo colaborações seguintes em filmes juvenis como Electric Dreams (entre nós Amor É Música), de Steve Barron (que gerou uma dupla com o vocalista dos Human League, Phil Oakey, que os conduziria a fazer um álbum conjunto em 1985) ou A História Interminável, de Wolfgang Petersen (na qual incluiria uma colaboração com o ex-Kajagoogoo Limahl).

Em 1979, ano em que editou o álbum “E=MC²”

Em 1979, ano em que editou o álbum “E=MC²”

Michael Ochs Archives

O seu mais significativo trabalho no cinema terá sido, contudo, o esforço de reconstrução de uma versão o mais completa possível do clássico de 1927 Metropolis, de Fritz Lang. Era nos dias de juventude um dos seus filmes preferidos, conhecido apenas na versão curta que o mercado norte-americano mostrara nos ecrãs em finais dos anos 20, encurtada das 17 bobinas originais para apenas 10 com vista a permitir realizar mais sessões por dia nas salas de cinema, como se explica no documentário que acompanha a edição em DVD da versão do filme estreada em 1984. Moroder correu cinematecas, coleções particulares e arquivos em busca de imagens adicionais que permitissem recuperar muito do que se perdera. E juntou uma banda sonora à qual chamou vozes como as de Freddie Mercury (Queen), Bonnie Tyler ou Jon Anderson (Yes), devolvendo às salas Metropolis em nova leitura colorida, sonorizada e restaurada, que cativou sobretudo uma nova geração de espectadores. De então para cá, houve entretanto outros restauros e novas sequências localizadas.
Da colheita dos anos 80, que precede um progressivo afastamento da primeira linha das atenções e, depois, um longo silêncio ocasionalmente interrompido, há que assinalar ainda o trabalho de produção no início de carreira dos Sigue Sigue Sputnik, banda que se apresentava como sendo a quinta geração do rock'n'roll, coisa que na verdade ninguém ali viu acontecer.

Enquanto DJ na festa do seu 78º aniversário, a 26 de abril de 2018

Enquanto DJ na festa do seu 78º aniversário, a 26 de abril de 2018

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O REGRESSO DO «PADRINHO»

Com apenas trabalhos pontuais, os anos mais recentes de Giorgio Moroder não imaginavam um regresso como o que 2015 agora acolhe. Assinou música para as Olimpíadas em Pequim, começou há algum tempo a disponibilizar gravações de arquivo e algumas experiências mais recentes através de plataformas online, mas foi com o desafio dos Daft Punk que encontrou novo ânimo (e convites, um deles para remisturar um tema dos Coldplay). Revelado em «Right Here Right Now», na voz de Kylie Minogue, Déjà Vu é o seu primeiro álbum em 30 anos.

Num espaço de trabalho que revela mais consonância com linhas contemporâneas da pop e da música de dança que uma vontade de agir em terreno nostálgico, o álbum junta ainda contribuições de Britney Spears, Sia, Charli XCX, Kelis, Mykki Ekko, Matthew Komma, Foxes e Marlene. Em breve escutaremos a sua contribuição para um novo álbum de Lady Gaga. E pelo caminho já deu e entender que Rihanna é outra voz com a qual gostaria de trabalhar.

Pela frente tem um musical de palco, que recuperará alguns clássicos seus e juntará novas composições. A agenda é intensa. Se calhar é mesmo como ele diz: os 74 são os novos 24.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2015