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Selma Uamusse

Rita Carmo

A incrível história de Selma Uamusse, uma “moçambicana muito portuguesa” que descobriu Deus na música e esperou 4 anos pelo 'milagre' “Mati”

Nasceu em Moçambique, veio para Portugal aos 6 anos e aos 14 convenceu os pais a ficar sozinha em Lisboa. Do coro gospel aos Wraygunn de Paulo Furtado, passando por Rodrigo Leão, com quem canta em português, inglês, russo e latim, a história de Selma Uamusse faz-se de muitas cores. Ouça-a contada na sua voz, uma força da natureza quer nos palcos quer em disco

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Sob o sol ainda escaldante de setembro, encontrámo-nos com Selma Uamusse para conhecer melhor o trajeto invulgar de uma das vozes mais entusiasmantes da música feita em Portugal. Nascida em Moçambique mas criada em Portugal a partir dos 6 anos, a artista que em tempos integrou os WrayGunn de Paulo Furtado contou-nos porque escolheu dedicar-se à música, deixando para trás a área da engenharia, em que se formou, e revelou alguns dos segredos do seu país de nascença, do qual tem o maior orgulho em servir de embaixadora. Um furacão em palco, uma voz que gosta de ser muitas em disco, eis Selma Uamusse em discurso direto - ao coração.

Quatro anos depois de começarmos a ouvir falar deste disco, ei-lo nas lojas. Está feliz por finalmente ter “o bebé” nos braços?
Estou radiante! (gargalhada) Mais do que feliz. Cheguei a pensar que, quando o disco finalmente chegasse, já estaria tão cansada deste processo moroso que já não me iria encantar. Mas não - estou super feliz, até porque o disco acaba por ter um som um pouco diferente do que tenho feito ao vivo.

A que se deveu esta grande demora?
Uma das razões fez todo o sentido e prende-se com o processo de encontrar um som com que me sentisse confortável. Há quatro anos, tinha um disco gravado, com o qual... não é que não me sentisse satisfeita, mas achava que não correspondia às minhas expectativas em relação ao que poderia ser uma novidade de vida. Então tive de compor novos temas. Acho que, da primeira parte das gravações, só aproveitámos um tema e meio. Depois houve a parte da produção. Como vinha de áreas diferentes, queria resumir todos esses sons num só e sentia necessidade de alguém que ouvisse as músicas “de fora”. Primeiro trabalhei com o David Neerman, que teve um problema pessoal e teve de parar. Fui à procura de um outro, mas as coisas não aconteceram, e finalmente comecei a trabalhar com o Jori Collignon, dos Skip and Die, e a partir daí foi tudo muito célere e natural. Além da busca do som e da parte mais técnica e de produção, também houve questões logísticas de editoras, distribuidoras, etc. E foi preciso encontrar o timing certo.

Durante essa longa espera, não teve momentos de angústia?
Várias vezes! (risos) Chorei, cheguei a dizer que já não queria mais fazer o disco, quase obriguei a minha agência a lançá-lo... Foi muitas vezes exasperante. Mas agora que olho para trás, tudo fez sentido. A espera, o momento em que o disco saiu, o processo... Havia pessoas que me diziam: “quando sair já não vai fazer sentido”, mas faz. Passei por muitas dores. Mas as dores fazem parte do crescimento. E crescer dói, então estou uns centímetrozinhos mais alta.

O disco chama-se “Mati”, que significa “água” no dialeto moçambicano changana. Ainda recentemente a Aline Frazão lançou um disco de título “Dentro da Chuva”... Este seu título tem alguma coisa a ver com o regresso à natureza, a força dos elementos?
'Mati', a canção, é um tema espiritual, como se fosse uma espécie de Selma gospel, com todos os meus sonzinhos. Mas porque é que eu decidi dar o nome de “Mati” ao disco? Porque acho que a água, nas suas várias formas, acaba por ser uma evidência muito clara de algo grandioso e divino com que todas as pessoas se identificam, sendo crentes ou não. A água, o mar, os oceanos, os rios, os lagos são algo a que não conseguimos ficar indiferentes. Nem os bebés quando estão a chapinhar numa banheira. É algo que nos liga e tem várias formas: o estado líquido, sólido, gasoso. É muito universal e este é um disco que, apesar de ir buscar muitas coisas à minha matriz mais moçambicana, não é um disco de música tradicional moçambicana. Também não é um disco de jazz, nem de soul - não tem uma etiqueta. Quis que fosse um disco universal e para todos. Não tem uma mensagem só pessoal, mas sim uma mensagem pessoal que quero transmitir ao mundo que está à minha volta, ao meu mati. Sou eu, és tu, somos todos nós. Lembro-me sempre daquela máxima: somos 75% de água. A nossa essência tem muito a ver com a água, sem querer puxar para todo o lado espiritual e o sentido bíblico e o batismo. É algo com que todas as pessoas se podem identificar e é super fácil de dizer em qualquer língua. (risos)

Uma das influências deste disco foi uma viagem que fez a Moçambique. O que aprendeu com a mesma?
Essa viagem aconteceu no decurso da primeira tentativa de fazer o disco. Comecei por pré-produzir o disco em Bruxelas, no sótão de uma casa, com o Pablo Lapidusas, que foi o produtor dessa minha primeira fase. Nessa altura o disco estava muito virado para o jazz, mas eu já sabia que queria que Moçambique estivesse [presente]. Então ele disse: “tenho um grande amigo que tem um grande estúdio em Moçambique, o melhor que podes encontrar lá, vamos para lá”. E eu pensei: OK, tenho a minha família toda lá... Então fomos e foi muito bom, sobretudo porque conheci um músico, que é o Simão Nhacule, que me deu a conhecer uma série de instrumentos musicais moçambicanos que eu acabaria por trazer para o disco e que são muito especiais: têm sons muito vibrantes, meio eletrónicos, sem qualquer tipo de manipulação. Houve uma descoberta dos sons destes instrumentos mas também da fonética dos dialetos. A viagem permitiu-me começar a investigar e a trabalhar mais, com esta base dos polirritmos da música tradicional moçambicana. Percebi [como concretizar] este encontro entre a matriz mais convencional de soul/jazz e o lado tradicional, mas com alguma frescura e eletrónica.

Selma Uamusse, fotografada em setembro de 2018

Selma Uamusse, fotografada em setembro de 2018

Rita Carmo

Nasceu em Moçambique e veio para Portugal em 1988. Tinha que idade?
Tinha 6 anos.

Então ainda tem memórias de viver em Moçambique?
Tenho! Depois os meus pais regressaram a Moçambique, tinha eu 13 ou 14 anos. Passei a ir lá com mais frequência ainda. Lembro-me que fui para a escola de música aos 3 ou 4 anos e era a solista do coro da escola, e gostava muito de cantar. Gosto de cantar desde sempre. Mas, ao mesmo tempo, isso era muito comum na família. Sempre que havia festas de família, o meu avô materno juntava os filhos todos, e ele teve 11 filhos. As festas eram a cantar, a dançar, e essas são as principais recordações que tenho das reuniões familiares. Por isso, durante muitos anos, não era nada evidente que eu viesse a ser cantora, porque achava que era uma coisa que toda a gente sabia e devia fazer: cantar, dançar. (risos) Estava habituada a isso na minha família e ninguém era músico por causa disso.

Quando os seus pais voltaram para Moçambique, ficou a viver sozinha em Portugal?

Sim. Eu sou um bocadinho teimosa... E, quando eles regressaram, eu fui com eles e achei que era muito giro, mas que os amigos que tinha deixado em Portugal eram muito mais fixes. Na altura, achei que me adaptava mas que não me identificava com algumas coisas. E que era nova e super responsável e os meus pais podiam confiar em mim, que eu vinha para aqui estudar. E então convenci-os. À minha mãe custou um bocadinho, porque eu tinha 14 anos quando comecei a viver sozinha. Mas eu tinha uma boa rede de amizades aqui. Inicialmente era para fazer o 12º ano e depois ir para Moçambique ou África do Sul estudar, mas vim, fiz o 12º, entrei na faculdade, depois quis mudar de curso, mudei, casei-me, fui mãe, nunca mais voltei. (risos)

Os seus pais deviam confiar muito em si para deixá-la ficar a viver sozinha aos 14 anos...
Sim, mas eu era muito responsável e, como disse antes, um bocadinho teimosa e convenci-os que era capaz. E isto numa altura de algumas dificuldades económicas, em Moçambique. Hoje em dia, continua a ser um país que se está a desenvolver, mas tem um panorama económico muito diferente. E quando os meus pais me dizem: “mas não temos dinheiro para ficares aí a estudar!”, eu digo: “eu vou trabalhar!”. E comecei a trabalhar muito cedo, também. Eu sou uma miúda de convicções muito fortes. E tinha a plena convicção de que tinha de estar aqui com um propósito, que na altura era: formar-me em Engenharia, trabalhar em Planeamento Urbano e fazer parte da construção do novo país. Acabei por largar esse lado da Engenharia e abraçar a música, não só porque senti essa vocação mas também porque senti que podia ter um papel importante na divulgação da cultura e do património cultural de Moçambique.

Ainda chegou a trabalhar como engenheira?
Sim! Acabei o curso em 2005 ou 2006 e até 2010 trabalhei como engenheira, em várias empresas. Acabei a minha carreira como investigadora no Instituto Superior Técnico e, na semana passada, recebi um post da minha ex-chefe, a dizer: “mas que grande reviravolta que a Selma deu! Mas foi muito boa, muitos parabéns!” (risos)

Mas gostava desse trabalho, também?
Gostava! Gostava de trabalhar em engenharia, na área de planeamento urbano. Quando deixei de trabalhar, estava na área de avaliação ambiental estratégica, mas o que sentia é que as questões de planeamento muitas vezes confundem-se com questões políticas. Ou fazem parte da agenda política. Muitas vezes é difícil levar um plano de pormenor ou de urbanização avante - depende de quem está, naquele momento, à frente da câmara ou do governo. E eu, além de teimosa, gosto de fazer coisas. Quando fiz a minha tese de licenciatura, já estava em plena digressão com os WrayGunn, em França. Como já cantava há algum tempo, sentia que aquilo que fazia na música tinha um impacto muito mais imediato do que na área da engenharia. Comecei a sentir que o que desejava fazer na engenharia - mudar o mundo, ser um agente participador e ativo na mudaça da sociedade - podia fazê-lo com a música. Como dizia o Fela Kuti, “a música é a arma do futuro”. Isso para mim faz muito sentido: gosto muito de fazer música com outras pessoas e várias temáticas, mas utilizo sempre a minha música para tocar a vida das outras pessoas, seja com alegria, consciencialização, amor... Então tive necessidade de fazer algo urgente. Pensei: “não quero esperar para ver este plano funcionar dentro de 20 ou 30 anos, quero poder agir agora”, e por isso interiormente foi fácil tomar essa decisão. Pensei: “não posso ser mãe, engenheira e cantora ao mesmo tempo. Não consigo”. Há quem consiga, mas se eu quero levar alguma coisa avante, e se quero usar a engenharia ou a música para mudar um bocadinho o meu quintal, tenho de me dedicar só a uma delas. E comecei a perceber que com a música era mais eficaz.

Começou a dedicar-se mais à música quando entrou para um coro gospel. E foi aí que descobriu a sua fé, também? Porque os seus pais não eram religiosos...
Eu não fui batizada, os meus pais não se casaram pela igreja, não tínhamos uma vivência cristã... Mas lembro-me de ser miúda e dizer à minha mãe: “não sei o que se passa, mas Deus está a falar comigo” E ela ficou: “e agora, o que é que eu faço a esta filha?” (risos) Houve duas coisas que assustaram os meus pais, mas já era mais crescida. Aos 18 anos, disse-lhes: “tenho duas coisas para vos dizer. Sou cristã e quero ser música”. E eles: “tantos anos a investir numa educação para a nossa filha!” (risos) O meu pai perguntou-me logo: “mas não vais ser uma daquelas fanáticas? E em relação à música, não vais cantar música pimba?”. E eu: “mas vocês não acreditam na educação que me deram?”. Foi engraçado. Mas as questões de fé têm de ser algo muito pessoal. Provavelmente é por isso que a maior parte das pessoas que vêm de famílias muito tradicionais, em relação à religião, acabam por se afastar - porque são obrigadas a ter uma vida de fé. Mas a minha fé veio na sequência da música.

Recebi um convite para fazer parte de um coro gospel e avisei logo: “mas eu não sou crente!”. E eles aceitaram-me na mesma. Existe uma máxima: Deus persegue-nos. E é muito cavalheiro. E espera pelo momento em que tu digas: “até gostava de falar contigo. Tenho aqui umas coisas para acertar”. Veio tudo de maneira muito natural e a música escancarou o meu coração àquilo que era o meu conhecimento de Deus, às minhas convicções. E o gospel abriu, também, portas ao meu percurso profissional. Porque, além da fé e da música, o gospel oferece muito espaço para aprender a cantar enquanto se dança, enquanto se comunica. Para quem vem de uma escola protestante, e até posso citar algumas pessoas, como o Samuel Úria, o Tiago Guillul ou o Jónatas Pires, facilmente se percebe que têm facilidade em falar. Porque desde muito cedo somos expostos a falar, a tocar.

O gospel [proporcionou-me] este lado da profissionalização muito rápida. Fui para os WrayGunn por via do gospel, porque o meu maestro perguntou-me: “está aqui um grupo, eles são um bocado estranhos, até acho que são um bocado demoníacos... E dizem que gostavam de gravar um disco connosco, que querem um coro de gospel mesmo a sério”. E eu: “mas são os WrayGunn, eles são espetaculares!”.
Então sinto-me sempre responsável por termos sido capazes de gravar o “Ecclesiastes 1.11” com os WrayGunn. Mas este traquejo de fazer muitas coisas, de cantar em muitos sítios, vem tudo do gospel, dessa escola que é muito malabarista e quase “polvo”.

Gravou o “Ecclesiastes 1.11” com os WrayGunn e acabou por ficar na banda...
Eu não gravei, fui a responsável por dizer: “têm de gravar!”. Porque, na altura em que estavam a gravar, fui para Moçambique de férias. Mas como tinha sido tão entusiasta em relação à banda, quando os WrayGunn fizeram a apresentação disco, no TAGV [Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra], o meu maestro convidou-me para fazer parte do coro. Era um coro só com seis vozes e nós acompanhávamos alguns concertos. Depois ficámos três vozes e eu continuei lá, mas entretanto comecei a criar uma relação muito próxima com a banda. Eles chamavam-me Baby Face e achavam-me muita piada, porque eu andava sempre agarrada a uma Bíblia, a pensar: “não me vou misturar com estas pessoas...”. Mas gostava imenso de falar com eles, era uma coisa meio dúbia. E houve um dia em que deixámos de fazer concertos enquanto coro gospel e eu recebo um telefonema a dizer: “Selma, gostávamos muito de reunir contigo e de saber se querias fazer parte da banda”, o que eu achei estranhíssimo. “Mas vocês são de Coimbra!” E eles: “se não te importares de fazeres as viagens de comboio…”. Lá fui a uma reunião, e o Furtado disse-me: “vamos passar por um período de experiência, a ver se isto funciona... Temos uma série de concertos em França e achamos que faz sentido manter a identidade do coro - e tu és a única pessoa que nos pode salvar”. (risos) E eu disse que ia tentar. As coisas correram muitíssimo bem e [aparentemente] eles gostavam das pregações que eu dava durante as nossas caminhadas. E, mais do que uma banda, passaram a ser da minha família, musical e pessoal. (Pausa) Que nostalgia, agora!

Bateu a saudade?

Sim! Foram tempos muito especiais, de muita energia. De muita garra. Nós não acabámos, mas a Raquel [Ralha] agora regressou com os Belle Chase Hotel e tem o projeto dela, e também está com os Twist Connection. O Paulo com o Tiger Man e os filmes e o João Doce com o Tó Trips, o Sérgio Cardoso com Twist Connection, eu entre o meu projeto e o Rodrigo Leão... Acaba por ser difícil reunimo-nos, porque somos muitos. Deu uma nostalgia, mas é bom! Recordar é viver. (risos)

Com os WrayGunn, em 2007

Com os WrayGunn, em 2007

Essa versatilidade também a aplica nos seus outros projetos, como quando canta com o Rodrigo Leão, por exemplo?
Sempre. E quando falei de versatilidade, não era para dizer que sou muito boa e consigo fazer tudo. Mas no gospel estamos expostos a muitos desafios e temos de dizer que sim, porque estão ali no imediato. Mas aprendo sempre muito mais, recebo sempre muito mais do que aquilo que dou. Se nos WrayGunn aprendi a estar em palco de maneira explosiva e muito livre, com o Rodrigo Leão tive de fazer um outro exercício: perceber como é que a minha voz funciona no trabalho dele, enquanto instrumento. Mas um instrumento que não deixo de ser eu - não deixo de explodir, mas de maneira contida. Adoro trabalhar a minha voz e fazer com que ela não seja sempre reconhecível. Há músicos, ou cantores, que gostam que se ouça e diga logo: isto é a voz de x ou y. Eu gosto muito de criar algum transformismo em relação à minha voz. Gosto de poder ter várias vozes, e isso é um trabalho que faço de maneira muito consciente. Gosto de poder usar a minha voz como um instrumento. E isso acontece muito nas canções do Rodrigo Leão, com quem gosto muito de trabalhar e em cujo universo tenho imenso interesse. Ali, a voz tem de estar limpa. Não tenho de mostrar que consigo fazer as escalas todas, mas tenho de saber estar dentro daquele ambiente. Isso é super especial na música do Rodrigo Leão - todos os instrumentos têm a sua voz e a voz é mais um.

Tem dito que Moçambique é, dentre os países africanos de expressão portuguesa, o mais distante de Portugal, tanto geografica como culturalmente. O que gostaria que as pessoas soubessem sobre Moçambique?
O país é de uma beleza natural incrível e extrema. Nem precisas de enfiar a cabeça dentro de água - vês os peixinhos e os corais. Ainda por cima a água é quentinha, para quem é friorento, como eu. Mas, mais do que as paisagens idílicas, que também existem no resto do mundo, Moçambique é um tesouro muito escondido. Riquíssimo no que diz respeito ao património cultural - dança, artes plásticas, literatura... o Mia Couto é muito conhecido, mas existem outros escritores incríveis - e tenho pena que a música e as artes plásticas não sejam mais conhecidas. Recentemente, a Beyoncé fez uma coreografia com uns bailarinos de Tofo [cidade no sudeste de Moçambique], se não estou em erro. E achei muito interessante, porque há ali passos de dança que nunca ninguém tinha visto. E na área da música e da dança há todo um mundo muito mais encantador, a meu ver, que as kizombas.

O preço das viagens para Moçambique poderá desmotivar alguns curiosos...
Há maneiras de contornar, como ir até à África do Sul e apanhar um autocarro, ou alguém ir buscar-nos. Mas continua a ser muito caro. A procura é alguma mas não a suficiente para que haja concorrência; as nossas linhas aéreas neste momento não fazem voos intercontinentais, o que também dificulta, por isso a única companhia que faz voos diretos da Europa para Moçambique é a TAP. Há uma série de companhias que chegam lá, mas não é muito acessível. Mas vale todos os euros. (risos) E é um país sossegado, com todas as suas questões, de maior ou menor violência e pobreza, mas onde uma pessoa ainda se sente bem e tranquila.

Sei que o seu disco já passa em rádios de Moçambique. Que feedback recebe de lá?
Outro dia o meu pai ligou-me a dizer: “estás a passar numa rádio local!” O meu pai vive no norte de Moçambique, onde as rádios nacionais nem sempre têm expressividade e por vezes não se conseguem apanhar. Há muitos moçambicanos que acham piada, porque eu canto em alguns dialetos de Moçambique e todos dizem que eu canto com sotaque português. Mas, até agora, não me parece que isso seja mal recebido. Mais do que tudo, acho que as pessoas se sentem muito felizes por eu viver aqui há tanto tempo e não estar a cantar fado. E sentem-se orgulhosos por eu ser uma moçambicana que canta com sotaque tuga. Porque no fundo é isso que eu sou: uma moçambicana que é muito portuguesa, e isso tem graça. Seria o mesmo se eu cantasse fado em línguas de Moçambique. E quer uma coisa quer outra seriam válidas. Mas o feedback que tenho recebido é de muito orgulho, especialmente por estar a falar de Moçambique, por usar as capulanas, por dirigir os meus cumprimentos aos instrumentos tradicionais moçambicanos e aos dialetos. Isso deixa as pessoas orgulhosas e eu fico contente.

Será sempre portuguesa em Moçambique e moçambicana em Portugal?
Mas a realidade é que eu não falo fluentemente nenhum dialeto de Moçambique. Tudo aquilo que falo é porque escrevo, há pessoas que me traduzem e me vão ensinando algumas palavras... é natural que eu leia as coisas como leria em português. Mas eu acho que isso tem graça. Nunca tive a pretensão de fazer uma coisa que não fosse verdadeira. Quando me dizem: “fala changana com sotaque tuga”, eu digo: “pois é!”. Essa é a pessoa que eu sou e como a minha música é sobre a alma e questões mais universais, as pessoas, mesmo que não compreendam [as palavras], sentem-nas. E esse é o grande poder da música: desmistificar barreiras linguísticas e tocar os corações das pessoas. Eu comecei a cantar com o Rodrigo Leão em português, depois em inglês, às tantas gravámos “O Retiro” em latim, recentemente desafiou-me a cantar em russo, e eu nunca perdi a emoção por estar a cantar numa língua que não era minha.
Quanto mais numa língua que é minha. Às vezes precisamos de cortar com estes preconceitos: eu não sou menos moçambicana por não falar fluentemente [os dialetos], nem nenhuma banda é menos portuguesa por cantar em inglês. Desde que a mensagem chegue, isso é que é importante.

A Selma é uma daquelas pessoas que acordam sempre cheias de energia, não é?
Sim, eu acordo com demasiada energia! (Gargalhada) Lá em casa o meu marido queixa-se, porque eu acordo com emails escritos e o dia todo planeado - às vezes acordo a falar! Acordo muito cedo. Gosto muito de ter o meu tempo de manhã, em que leio e tenho os meus tempos de meditação e oração, planeio as coisas e escrevo. E depois também tenho as minhas filhas - uma delas acorda quase tão cedo como eu. Eu acordo sempre muito bem. O que me acontece às vezes nos concertos, quando são tarde, é que para não perder a energia eu durmo! Tenho um ritual… (risos) Não é nada religioso, mas eu durmo quase sempre antes de qualquer concerto. É um exercício não só de energia mas de concentração. Faço umas power naps, de 15 ou 20 minutos.

Mas põe despertador?

Ponho o despertador por uma questão de segurança, mas acordo naturalmente. Acordo sempre cedo e à hora que tenho de acordar.

Para terminar, quem faz os fatos, tão bonitos e especiais, com que se apresenta em palco?
A Teresa Samissone, que tem esta marca maravilhosa. Eu gosto muito de trabalhar com pessoas que são apaixonadas e têm estado comigo desde o princípio. Certo dia em 2014, a Teresa telefonou-me e disse-me: “não nos conhecemos, mas pedi o seu contacto porque vejo na Selma uma artista muito especial, e já percebi que nos concertos de [homenagem à] Nina Simone tenta usar umas coisas feitas com panos africanos… Eu sou estilista e trabalho com capulanas e gostava muito de a vestir, porque acredito que a Selma vai voar muito e poderá mostrar o meu trabalho além-fronteiras”. Fizemos uma parceria e desde então ela tem-me vestido. É ótimo, porque cria especialmente para mim: as roupas são feitas a pensar nos meus movimentos, nos meus saltos, nos meus complexos – não gosto de mostrar as pernas, não uso muitos decotes, mas depois gosto de mostrar as costas, que é um bocadinho mais sexy… Tem sido um trabalho muito especial. Não só em capulana mas noutras coisas, também me veste quando faço os concertos com o Rodrigo Leão.

“Mati”, o primeiro disco de Selma Uamusse a solo, já está nas lojas. Veja aqui o vídeo do single 'Mati' e o programa Inside, que gravou para a BLITZ.

A BLITZ agradece a Clube Fashion o apoio na sessão fotográfica.