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David Bowie

Terry O'Neill/IconicImages

“Bowie? A estrela pop mais interessante, educada e simpática que conheci”, recorda o fotógrafo Terry O’Neill à BLITZ

Terry O’Neill, que recentemente completou 80 anos, explica em entrevista a Rui Miguel Abreu o que significou para si estar cara-a-cara com Ziggy Stardust. E atira: “fotografei as estrelas que começaram isto tudo”

Na pirâmide da iconografia rock and roll, os fotógrafos geralmente só surgem depois dos vocalistas, dos guitarristas, dos managers, editores, DJs de rádio, groupies e por vezes até dos roadies – podemos nomear, por exemplo, Jeff Hickey, roadie de Queens of the Stone Age, Megadeth ou Motorhead que alcançou significativa notoriedade e até editou um livro, "I Thought You Were Dead". Raras vezes celebrados, os fotógrafos são, no entanto, uma importante peça da máquina de inventar mitos que a cultura electrificada do rock and roll revelou ser depois de Elvis Presley se ter dado a conhecer ao mundo. E acima de quase todos esses mitos brilha, pois claro, a estrela negra de David Bowie, artista desaparecido a 10 de Janeiro de 2016 de quem o mundo parece ainda não se ter verdadeiramente despedido, com as mais diversas homenagens a sucederem-se em diferentes pontos do planeta. Uma das mais recentes tem por título "Iconic Bowie" e estará patente ao público até ao próximo dia 4 de Novembro na Praça central do Arrábida Shopping, no Porto. A exposição inspira, também, uma programação paralela de cinema e de concertos, entre os quais um de David Fonseca, co-curador da mostra e responsável pelo disco-homenagem "Bowie 70", editado em 2017.

A exposição reúne retratos marcantes de Markus Klinko, Norman Parkinson, Justin de Villeneuve, Milton H. Greene, Gerald Fearnley e ainda de Terry O’Neill. São eles os autores de algumas das mais importantes imagens com as quais David Bowie se agarrou à imortalidade nos últimos 40 anos. E de todas as que se podem admirar no Arrábida Shopping, talvez nenhumas sejam mais importantes do que as que carregam a assinatura de O’Neill, lenda da fotografia que, aos 80 anos, conserva memórias vívidas da era em que descobriu esse estranho ser vindo de Marte que respondia ao nome Ziggy Stardust.

Exposição "Iconic Bowie"
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Exposição "Iconic Bowie"

M/ANIA

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Exposição "Iconic Bowie"

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David Fonseca, o curador da exposição "Iconic Bowie"
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David Fonseca, o curador da exposição "Iconic Bowie"

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Em conversa com a Blitz, Terry O’Neill, verdadeiro cavalheiro que chegou a ser casado com a actriz Faye Dunaway, recordou o dia em que se cruzou com David Bowie pela primeira vez. “Bem, o manager do David sabia que eu tinha fotografado os Beatles e os Rolling Stones e que tinha tido um papel importante em torná-los famosos. Quis que fosse fotografar o David Bowie e foi isso que fiz”, relembra O’Neill, referindo-se a Tony DeFries, que, à época, comandava os destinos da carreira do artista e compreendeu o papel decisivo dos fotógrafos no processo da transformação de artistas em estrelas. “Fotografei o último espectáculo que o David fez como Ziggy Stardust. Foi aí que o conheci”.

Habituado à ofuscante presença das estrelas de cinema e da então ainda imberbe cultura pop, o fotógrafo admite que não se deixou impressionar com facilidade: “eu não gostava da maneira como ele cantava, mas amava o seu trabalho. E costumava fotografá-lo como fotografava um ator ou uma atriz, porque sempre senti que ele representava muitos papéis diferentes. Foi a estrela pop mais interessante, bem-educada e simpática que conheci, para ser honesto”. “Obviamente, os jornalistas sempre destacaram a sua riqueza visual”, explica O'Neill, salientando um dos aspetos de Bowie que mais impacto tiveram na imprensa britânica. “Ele sempre vestiu as melhores roupas e tinha consciência da forma como uma estrela pop se deveria apresentar”, explica.

Terry O’Neill representa, obviamente, o espírito de outra época. Começou a fotografar na década de 50 e mesmo com a explosão de cor assumida pelo glam rock, os “inkies” ainda funcionavam sobretudo a preto-e-branco, pelo que esse era o seu domínio cromático favorito: “bem, eu adorava fotografar a preto-e-branco. Fiz alguns rolos dele a cores, mas maior parte foi a preto-e-branco”, explica o fotógrafo, que tem muitos desses trabalhos impressos em livros como "Every Picture Tells a Story", "Celebrity" ou, pois claro, "When Ziggy Played The Marquee: David Bowie’s Last Performance as Ziggy Stardust", editado em 2017. O forte carisma e vincada personalidade de Bowie significava que Terry – ou qualquer outro fotógrafo... – podia tranquilamente abdicar de qualquer gesto de direção: “apenas fotografava aquilo que ele fazia à minha frente. O que ele fizesse, eu fotografava. Ele não precisava de direção”.

Com uma ética mais jornalística do que artística, Terry confessa-nos que os seus encontros com Bowie foram sempre profissionais e que nunca privou com ele em contextos sociais fora do set: “nunca gostei de estar próximo demais das pessoas que fotografava. Sempre senti que isso era errado. Só queria fotografá-los como os via”, admite. “Eu sou um fotojornalista”, justifica, “costumava trabalhar em jornais e isso manteve-se para o resto da minha vida, na verdade”. Uma profissão que, indica O’Neill, não daria para ficar rico: por uma foto de página dupla costumava normalmente receber cerca de 200 libras, apenas 50 ou 60 nos casos de foto para uma página só. “Tinha que fotografar muitas pessoas para viver”, confessa. “Todos eles se sentiam como indivíduos únicos”, adianta depois o fotógrafo, quando questionado sobre se alguém alguma vez lhe pediu um “tratamento Bowie”. “Eles não queriam ser como os outros, era uma era de grande procura de individualidade”.

David Bowie por Terry O'Neill
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David Bowie por Terry O'Neill

Terry O'Neill/IconicImages

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David Bowie por Terry O'Neill

Terry O'Neill/IconicImages

Terry O’Neill não tem problemas em explicar que não é ele quem gere a sua própria página de Instagram, que nunca aderiu a essas plataformas e que não tem nenhum interesse por esta nova idade digital. Ainda assim, o presente celebra o olhar único que soube construir há muitas décadas: “não, eu não ia buscar inspiração a lado nenhum, apenas fotografava o que via. Quer dizer, era tudo tão interessante. Não me relacionava com nada, apenas fotografava o que via”. Essa distância permitiu-lhe, também, evitar as típicas armadilhas da fama e da notoriedade que andavam de mãos dadas com a cultura que foi fotografando, “nunca me envolvi no estilo de vida do rock and roll. Odeio drogas e quando os Beatles e os Stones começavam a meter-se nesse tipo de coisas, eu costumava ir para a cama. Tinha que trabalhar todos os dias e não podia envolver-me nisso”.

Quando se pede a Terry O’Neill uma lista dos artistas que mais gostou de fotografar, os nomes parecem estar debaixo da língua, como se todos estes anos tivessem depurado a lista de centenas de personalidades que fixou através da sua câmara nuns quantos ícones que todos lembramos graças, precisamente, a imagens como as que assinou: “Frank Sinatra, David Bowie, Beatles, Stones, Elton, The Who, todos eles eram pessoas fascinantes, bem como estrelas de cinema como Paul Newman, Lee Marvin, Robert Mitchum. Fotografei todas as pessoas que eram alguém, na verdade”. Do presente, pouco lhe importa. O homem que lamenta nunca ter conseguido fotografar Marilyn Monroe não revela qualquer interesse em fazer o mesmo com estrelas da dimensão de Madonna ou Beyoncé: “não, de todo. Não me interessam. Todas as pessoas que fotografei eram inovadoras. Foram eles e elas que começaram tudo”.