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Rita Carmo

O furacão Anitta, a madrinha Marisa Monte e o herói Caetano Veloso. Este é o universo de Silva, o “Brasileiro” que Portugal quer conhecer

Esteve em Portugal este verão e falou connosco sobre a sua ligação com o nosso país e as suas grandes inspirações. Lúcio Silva de Souza, ou simplesmente Silva, é cada vez mais “Brasileiro”, como indica o título do seu novo disco. Habitue-se ao seu sorriso

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

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Fotojornalista

Dono do sorriso mais generoso do festival, Silva recebeu a BLITZ em agosto, no Vodafone Paredes de Coura, para uma conversa breve mas saborosa sobre o seu disco novo, “Brasileiro”, o desejo de conhecer melhor Portugal e os tempos “obscuros e complexos” que o Brasil atravessa.

Este verão deu alguns concertos em Portugal: no Sol da Caparica, em Paredes de Coura... Sente-se bem recebido por cá?
Mal lancei o meu primeiro trabalho na internet, há sete anos, vários blogues musicais portugueses elogiaram o meu trabalho. Fiquei muito lisonjeado por saber que, do outro lado do Atlântico, havia pessoas a ouvir-me. Desde então, vim a Portugal tocar em 2013, em 2014... depois fiquei um tempinho sem voltar e, no ano passado, voltei para um festival de verão [Super Bock Super Rock]. Sinto que sou muito bem recebido e estou muito feliz por estar de volta.

Costuma ter tempo para visitar as cidades?
Tenho muita pena por não poder ficar mais tempo, mas estou a trabalhar muito no Brasil - agora estou a meio de uma tournée - e já volto amanhã. Mas fico morrendo de pena, há tanta coisa para ver! Preciso muito de voltar numa viagem sem trabalho, só para ver. Já deu para conhecer um pouquinho do Porto, mas são precisos alguns dias para conhecer o que é bom.

No Brasil, a sua base continua a ser a cidade de Vitória, no estado de Espírito Santo?

Sim, não me quis mudar, no Brasil. Até costumo dizer ao meu irmão: se for para mudar, talvez venha para Portugal. Porque Vitória, a cidade onde moro, tem uma qualidade de vida maravilhosa, as coisas não são tão caras como no Rio ou em São Paulo, o trânsito não é tão caótico e a violência não é tão chata... É um lugar de que gosto muito.

Vários músicos brasileiros vivem em Portugal: Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Momo, o Cícero está a pensar mudar-se também...
Sim, há brasileiros que são loucos por Portugal e eu sou um deles. E talvez um dia venha morar para cá. Não descarto essa possibilidade!

Este ano, lançou um disco de originais, intitulado “Brasileiro”. Antes, tinha lançado um disco de versões de Marisa Monte. Este trabalho de homenagem deu-lhe vontade de escrever as suas próprias canções?
O projeto “Cantando Marisa” foi muito importante para mim. Por um lado, pude entrar em contacto com o repertório dela, que é tão importante para a cultura brasileira e também para Portugal - mundialmente, acho a Marisa uma artista incrível, não foi à toa que fiz esta homenagem... E fiz o projeto porque nos aproximámos pessoalmente. Inicialmente a homenagem era um programa de televisão, acabou virando um disco, um concerto e um DVD. Quando a Marisa soube do programa de televisão, convidou-me para ir a sua casa. Então ficámos amigos. A Marisa é uma pessoa a quem poderia chamar madrinha; dá-me sempre bons conselhos, inspira-me, manda-me para a frente, estimula-me. Fico muito feliz por me ter cruzado com ela nesta vida.

E essa 'aventura' acabou por inspirar o novo disco de originais?
Sim, acabou por me colocar em contacto com o repertório brasileiro, de que já gostava muito, mas não executava. Por exemplo, Novos Baianos, que é um grupo que eu amo e cresci a ouvir, mas achava que aquele swing, aquela maldade baiana, não cabiam na minha boca. Pensava que não tinha swing suficiente. Quando cantei as músicas em concerto, fiquei apaixonado, pensei: tem de ser isso! E acho que o disco “Brasileiro” vem daí: é um momento em que deixo as minhas referências brasileiras aflorarem, sem pudor.

E a colaboração com a cantora Anitta, como nasceu?
Foi uma colaboração muito inusitada, para mim, porque ela é a maior brasileira do momento, em termos de relevância e números - é muito popular. Nem sequer tínhamos amigos em comum, mas fiz uma listinha de brasileiros que achava que seriam emblemáticos. O disco chama-se “Brasileiro”, então na lista coloquei Caetano, Gil, Ivete... a Anita era a primeira da lista. Mandei a música para a sua equipa de produção e ela respondeu-me um dia depois, a dizer: estou apaixonada pela música, dê-me o seu telefone, vamos fazer um clip! Porque ela é um furacão - quando quer fazer, as coisas acontecem. E eu fiquei muito feliz, porque ela apresentou-me a muitas pessoas que não me conheciam, através do alcance que o seu trabalho tem. Foi maravilhoso.

E os seus fãs, estranharam a colaboração com a Anitta?
Tiveram uma reação muito interessante. Toda a gente disse: nunca imaginei que daria certo, mas gostei muito. Eu gosto dessas coisas. O elemento surpresa é importante, não só na música e na nossa carreira como na vida. É legal colocarmo-nos à prova e surpreendermo-nos com alguma coisa. E a Anita é um exemplo disso: eu surpreendi-me e as pessoas também. Acho que deu certo! (risos)

E para a Anitta também poderá ter sido interessante, mostrar um outro lado da sua voz aos seus fãs...
Exatamente. A 'Fica Tudo Bem' é uma música mais calma, que deixa a voz dela em destaque, sem o batidão que costuma usar.

Com este disco, disse que quis passar uma mensagem de esperança. É importante fazê-lo neste momento, sobretudo no Brasil?
Acho que sim. Toda a gente que trabalha com criatividade - música, cinema, artes plásticas - tem uma forma de se expressar. Tenho amigos que são mais agressivos, que são ativistas e estão na linha da frente das questões. No Brasil, as coisas estão a explodir - o racismo, a questão trans, o aborto, que agora se discute muito. A classe conservadora está a crescer muito, tomando um corpo muito grande, e isso dá-me medo. E a minha forma de contribuir... Eu sou um cara sereno, tranquilo. Para brigar comigo tem de querer muito! Mas ao mesmo tempo não sou omisso. Preocupo-me com o meu país, com a política, com o que está a acontecer agora, e a minha forma de contribuir é trazer um pouco de esperança. Porque no Brasil estamos a viver momentos muito obscuros e complexos, e fico com medo do que vai acontecer nas próximas eleições. Mas não podemos deixar a esperança morrer - o Brasil tem uma cultura muito rica e eu não quero que isso morra, que essa fagulha se apague.

A sua voz é muitas vezes comparada à de Caetano Veloso. É um motivo de orgulho ou a responsabilidade é muito pesada?
Eu acho maravilhoso! O Caetano é um dos meus cantores prediletos, sempre o ouvi muito, juntamente com o João Gilberto. E o Caetano veio da escola do João e o João não sei de que escola veio... acho que veio do Além. (risos) Gosto muito do jeito de cantar do Caetano. Eu sou de Vitória, Espírito Santo, que é colado à Bahia. Então temos muita influência da música baiana. Para mim, os maiores cantores brasileiros são João Gilberto e Caetano Veloso. E isso existe na minha música, sim. Fico lisonjeado com a comparação - não fico surpreso, porque é alguém de quem gosto muito e ouvi muito. Acho uma boa comparação. (risos)

Já conheceu o Caetano Veloso?
Já! Inclusive no ano passado ele fez 75 anos e convidou-me para a sua festa, foi super legal. Nunca tinha conversado com Caetano de forma próxima, e falámos muito de música. Ele pôs-me para cima, com o jeito que ele tem, muito positivo: é uma pessoa com uma energia muito boa.

E gosta de incentivar os músicos mais jovens...

Gosta, e é super ligado ao que está a acontecer. O grande trunfo do Caetano é que ele tem 76 anos e para mim continua a ser tão relevante como sempre foi. É um cara irreverente e ao mesmo tempo tem uma classe na música... sabe o que está a fazer. Eu sou fã!

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