Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Lucy Dacus, fotografada nos bastidores do Vodafone Paredes de Coura, em agosto de 2018

Rita Carmo

23 anos e uma voz poderosa. Lucy Dacus, a ex-estudante de cinema que transforma dor em canções de esperança

“Historian” é um dos melhores álbuns do ano, mas a cantora compositora norte-americana também brilha nos palcos. Este verão, estreou-se ao vivo em Portugal e falou com a BLITZ sobre a sua paixão pela música, mas também pelos livros e pelo cinema. Uma boa leitura para este domingo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Poucas horas antes do seu primeiro concerto de sempre em Portugal, no festival de Paredes de Coura, a norte-americana Lucy Dacus conversou com a BLITZ sobre a vida na estrada, as suas aventuras no Porto e aquilo que acredita que os fãs procuram na sua música: esperança. "Historian", lançado em março, já é um dos álbuns do ano.

Como tem passado o tempo desde que chegou a Portugal?
Tenho sentido muito calor humano, em Portugal. Estamos aqui há alguns dias, mas já tinha passado algum tempo em Lisboa, no ano passado. Sinto-me muito confortável, aqui, e nem sei porquê.

Antes de vir para Paredes de Coura, esteve no Porto. Conseguiu ter tempo para passear?
Sim, fomos de elétrico até ao mar [à Foz] e tentámos ir àquela livraria [a Livraria Lello], mas a fila dava a volta a três quarteirões. Talvez para a próxima consiga.

A Lello tornou-se uma atração turística, devido à ligação com os filmes da saga Harry Potter...

Pois, eu só queria ler uns livros!

É uma grande leitora?
Sim, leio muito. O facto de viajar muito de carrinha faz com que tenha muitas horas livres para ler, o que é espetacular. E toda a gente na minha banda adora ler, então vamos lendo os mesmos livros. Temos uma biblioteca rotativa na carrinha. Neste momento temos uns 30 e tal livros a bordo, o que é bastante. Isso faz-me feliz.

Qual o último livro que adorou ler?
“Her Body and Other Parties”, um livro de contos de Carmen Maria Machado. É muito surreal e muito estranho, mas muito bonito, por vezes negro… não quero revelar demasiado, mas recomendo a sua leitura. A autora vive em Filadélfia, não tenho a certeza de onde é originária. [Carmen Maria Machado tem ascendência cubana]

Lucy Dacus tocou pela primeira vez em Portugal este verão, no Vodafone Paredes de Coura

Lucy Dacus tocou pela primeira vez em Portugal este verão, no Vodafone Paredes de Coura

Rita Carmo

Tem andado a apresentar as canções do seu segundo álbum, “Historian”, já há algum tempo...
Desde março!

Alguma vez se cansa de cantar a mesma coisa todas as noites?
Não me canso, porque vejo o público a cantar comigo... e cada noite tenho um público diferente. Então ocorre-me que, para aquelas pessoas, é a primeira vez. Sobretudo quando as pessoas cantam comigo. Olho para uma pessoa e penso: isto é um momento que nunca aconteceu. Esse é um dos aspetos mais gratificantes de andar em digressão.

No concerto dos Fleet Foxes, o vocalista Robin Pecknold deu o seu casaco a um fã que estava nas grades...
Que querido! Eu provavelmente não faria isso - comprei este casaco a uma estilista no Porto, ontem. Susana Bettencourt. Muito fixe!

Quando anda em digressão, tem oportunidade de confraternizar com outros músicos? Vi no seu Instagram que conheceu o Father John Misty, recentemente...
Sim! (risos) Demos um concerto juntos, foi só dessa vez. E quando chegámos a Portugal, o Kevin Morby, a equipa dos Japanese Breakfast e a Meg [Duffy], que [faz música como] Hands Habits mas também [toca guitarra com o] Kevin, fomos todos a um bar, no Porto, pôr a conversa em dia. Essas coisas fazem-me sentir que existe uma comunidade. Muitas vezes não tenho essa sensação, porque tens a tua banda e pronto. Sinto-me aliviada por conhecer outras pessoas com o mesmo estilo de vida e perceber que se dão bem com isso, que andam entusiasmadas e que não se aborrecem. Por isso é que também gosto de fazer a primeira parte de outros artistas, para conhecer pessoal novo!

Father John Misty e Lucy Dacus, poucos dias antes do concerto de Lucy em Paredes de Coura (Instagram Lucy Dacus)

Father John Misty e Lucy Dacus, poucos dias antes do concerto de Lucy em Paredes de Coura (Instagram Lucy Dacus)

Quais os pontos altos da digressão até agora?
Talvez as pessoas que conheci. Conhecer a Courtney Barnett e tocar com ela; conhecer o Josh, ou seja, o Father John Misty... Tocar com os National foi muito fixe. Ver os Big Thief, que são a minha banda favorita, no festival da Pitchfork e poder falar com eles... Tocámos no Lincoln Centre, em Nova Iorque, o que foi muito especial. E andar com a minha banda! Não é um grande ponto alto, mas gosto muito das pessoas com quem toco e sinto-me muito grata.

Lançou o seu primeiro álbum muito jovem, enquanto projeto de liceu do seu guitarrista... Quando é que sentiu que tinha uma voz? Que sabia cantar e tinha coisas para dizer ao mundo?
Sempre cantei. E a minha mãe é cantora e pianista. Agora já não canta tanto, é professora de música numa escola primária. Tem uma canção infantil para todas as ocasiões. Acho que bastou ter escrito a primeira canção para perceber que sabia fazer isto. Que podia ser o meu trabalho. Levei muitos anos a ganhar confiança e a acreditar que as pessoas me quereriam ouvir. Inicialmente estudei cinema, porque me pareceu mais acessível que a música. Ainda não sei porque é que tive sorte, penso que o devo a doses idênticas de talento, trabalho e sorte.

Consegue perceber porque é que as pessoas se identificam com as suas canções?
Tento que as canções tenham esperança e penso que as pessoas procuram isso. Eu sei que procuro, e gosto de músicos que olham para o futuro e veem o lado positivo das coisas. O que tento fazer é abordar temáticas negras, mas com esperança. Dizer às pessoas que na vida vamos sofrer, mas que podemos ultrapassar isso, porque é o que toda a gente tem feito, desde sempre. Como isso me reconforta, percebo que reconforte os outros.

Algumas das suas canções, como 'Nightshift', foram inspiradas por desgostos amorosos. Cantá-las traz de volta a dor ou nem por isso?
Geralmente traz-me muita alegria. Poder ver as canções pelos olhos de outras pessoas. Inicialmente era doloroso para mim, mas [apresentá-las ao vivo] tem sido muito catártico, e quando estou em palco e vejo a catarse nos outros, isso faz com que tudo valha a pena. As canções que nasceram da dor tornaram-se as mais gratificantes de tocar ao vivo.

Recebe muito feedback dos seus fãs?

Sim, muitas vezes, ora pessoalmente, ora pelo Instagram ou no Facebook. E é difícil de absorver… Eu também tenho esse impulso, de contactar os artistas que me emocionam. Então tento aceitar [os elogios], mas é muito pesado. Fico contente, mas não conheço a pessoa. É uma relação que ainda estou a aprender a "navegar": a relação entre mim e uma pessoa que gosta de mim, mas que eu não conheço. Gostava de poder retribuir na mesma moeda, mas nós só estamos ali duas horas.

Que artistas causaram em si um grande impacto?
Não é da música, mas a Miranda July, que é escritora, atriz, realizadora, produtora, artista visual... faz tudo. O seu manifesto artístico inspirou-me e deu-me muita confiança, enquanto pessoa criativa. Por acaso vi-a numa mercearia, em Los Angeles, mas não lhe disse nada, porque ela estava com a filha e eu não quis incomodar… Se algum dia conseguir falar com ela, provavelmente vou comportar-me como uma idiota. (risos)

Alguma vez pensa em voltar ao cinema, que começou por estudar?

Sim! Às vezes escrevo uma canção e penso: isto não devia ser uma canção, devia ser um conto ou um filme ou um poema. Arquivo essas ideias, e quem sabe o que virão a dar…

Uma última pergunta. O seu batom vermelho é muito comentado pelos fãs. Que cor é essa?

É o Ruby Woo, da Mac. É a única maquilhagem que compro e é completamente de confiança, adoro-o. Muito bom!