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Os Marretas, os amigos Broken Social Scene e um álbum nascido da depressão. A nossa entrevista reveladora com Feist

Artista canadiana regressa a Portugal, o seu “país favorito na Europa”, este fim de semana para concertos em Braga e Lisboa. A BLITZ falou com ela

Mais de seis anos depois da sua última passagem por Portugal, Feist regressa a solo nacional para dois concertos: atua esta noite no Theatro Circo em Braga (esgotado) e amanhã desce até Lisboa para subir ao palco do Coliseu dos Recreios. Consigo, a artista canadiana traz o mais recente álbum, "Pleasure", editado no ano passado, mas promete tocar um pouco de tudo num país que, em entrevista à BLITZ, confessou ser o seu "favorito na Europa". Numa conversa telefónica, que a apanhou num momento de descanso ("neste momento estou no lago, a tirar umas férias"), falou sobre a crise de depressão que a levou até "Pleasure", os concertos que vai dando com a sua "família" dos Broken Social Scene e o dia em que foi à "Rua Sésamo" e conheceu "Os Marretas".

Não toca em Portugal desde 2012. Que boas e más memórias guarda do nosso país?
Decidi que Portugal é o meu país europeu favorito e o que é fascinante é que nem tenho muitas razões para isso. Não passei muito tempo em Portugal. Ao longo destes 10 anos em que tenho ido aí tocar, o pouco que conheço é de ficar um ou dois dias antes ou depois dos concertos. Há uma humildade e um otimismo. Os concertos são sempre muito alegres e as pessoas todas muito recetivas. Sinto-me como se estivesse no Campeonato do Mundo! Mas mesmo nas minhas curtas interações com as pessoas, quando ando a passear, sinto um enorme calor. O [meu amigo e produtor] Mocky teve exatamente a mesma experiência que eu e há uns meses mudou-se com a família para os arredores de Lisboa. De entre todos os nossos amigos do Canadá que acabaram a viver na Europa – a Peaches, o Chilly Gonzales, o Taylor Savvy – ele foi o primeiro. Mudou-se para Londres dois anos antes de a Peaches se mudar para Berlim. E agora brincamos com o facto de ele ter sido o primeiro a ir para Portugal e que todos nós nos vamos mudar também.

O que podem os seus fãs portugueses esperar destes dois concertos?
Quando o álbum saiu, andei a tocá-lo do início ao fim, por puro prazer pessoal. Tocava-o todo e só depois as canções antigas. Sei que ainda não fiz isso em Portugal, mas como o disco já tem um ano não garanto que o faça. Sempre que regresso a Portugal, a cada cinco ou seis anos, é como se fosse uma reunião, portanto basicamente toco tudo. Uma das coisas que me entusiasma mais é levar comigo a Ariel Engle, uma das minhas melhores amigas, que canta com os Broken Social Scene e é casada com o guitarrista, o Andrew Whiteman. Há anos que colabora com eles e o novo álbum tem quatro canções dela... Acho que são as minhas favoritas. O primeiro disco a solo dela sai agora [enquanto La Force], portanto vou levá-la comigo para a Europa.

Li que batalhou contra uma depressão enquanto construía estas canções… Escrever música ajuda-a a lidar com períodos complicados ou tem o efeito contrário?
Para ser sincera, é o meu único método de sobrevivência, neste momento. Não estou constantemente a lidar com tantas dificuldades, mas não é uma escolha lidar com a depressão: é algo que parece estar a acontecer-te mas, na verdade, está a acontecer dentro de ti e ninguém se apercebe disso além de ti. É difícil. E depois mistura-se e amplia-se com a vergonha que sentes ao admitir que estás a passar por um período difícil. Toda a gente te pergunta “mas porquê?”, “o que se passa?”… Uma vez, tentei explicar a uma amigo que nunca experienciou crises existenciais. Disse-lhe que era como o clima: “imagina que o sol brilha para toda a gente mas tu estás no meio de uma tempestade. Não consegues ver o sol se estás no meio de uma tempestade”. Ele ficou confuso, “isso não faz sentido nenhum, porque se o sol está a brilhar por que razão não consegues vê-lo?”. É um fator da vida muito difícil de explicar. Não falei abertamente sobre a depressão quando o álbum saiu, provavelmente com medo das suposições que as pessoas iam fazer sobre mim e sobre o disco. Na verdade, até acho que é um álbum cheio de esperança. É como se tudo fosse, de facto, negro e eu precisasse de fazer escolhas dentro dessa escuridão para mudar as minhas circunstâncias. Chamei-lhe “Pleasure” quase como uma experiência: apercebi-me que tinha investido tanto na minha dor, ao longo de tantos anos, que mais valia declarar o oposto e ver o que acontecia… e devo dizer que acabou por funcionar.

Se a música para si é um prazer, acaba por funcionar quase como um medicamento… O nome parece perfeito, nesse sentido.
Quis apenas provar a mim mesma que tinha alguma autoria nesta minha experiência… A música nem sempre é um prazer, é simplesmente a ferramenta que tenho para aceder à minha verdade e essa verdade, por vezes, não é agradável. Ter a oportunidade de experimentar, mudando a lente através da qual observo o que se passa à minha volta, é como se fosse uma espécie de magia.

Tem vindo a colaborar com Renaud Letang, Mocky e Gonzales desde o segundo álbum. Trabalhar com um produtor completamente fora da sua zona de conforto não a entusiasma?
Eu já trabalhei com pessoas externas ao meu círculo, mas o que acontece é que tenho amigos incrivelmente talentosos e acabo por me perguntar “por que razão haveria de procurar outras pessoas?”. Não sei bem como explicar isto, mas eu e o Mocky não estamos confortáveis o suficiente um com o outro para que isso nos impeça de explorar e de nos desafiarmos mutuamente. Há muitos puxões e empurrões, negociamos cada ideia e estamos sempre a ver se conseguimos levar o outro mais longe. É muito desafiante. É mais fácil ser honesta comigo mesma quando trabalho com pessoas que não tenho medo de surpreender.

A primeira vez que ouvi “Metals”, quase consegui imaginar o Jeff Buckley e o Nick Drake a acenar de aprovação. Tiveram um grande impacto na sua educação musical?
Tenho a certeza de que, quando era adolescente, eles estavam lá e fizeram parte da minha educação, mas não eram nem menos nem mais importantes do que qualquer outra mixtape que um amigo meu me tenha passado, naquela altura. Tenho muito respeito por eles, sem dúvida, e sinto que vieram de outro mundo… Talvez mais estudiosos do que eu, mas claro que os adoro.

E uma Feist com 10 anos acreditaria que, duas décadas mais tarde, cantaria na “Rua Sésamo” e com “Os Marretas”? O que queria ser quando tinha essa idade?
Provavelmente uma marionetista (risos). Era obcecada pelos Marretas… E foi mesmo um dos dias mais divertidos da minha vida, porque aquelas pessoas, as pessoas por trás dos Marretas, são as mais criativas, trabalhadoras, amáveis e acolhedoras de todas. Nunca teria conseguido imaginar que aquilo me aconteceria… Não é algo que alguém tenha como objetivo (risos). Não podes dizer “vou trabalhar arduamente na minha música para um dia ir cantar à ‘Rua Sésamo’”. Foi uma coisa bizarra que me aconteceu, mas foi um dia lindo.

Quando pensa nos Broken Social Scene, sente falta de ser uma artista numa banda e não uma artista que depende apenas de si própria?
Na verdade, ainda toco com eles. Atuámos juntos no último fim de semana, portanto foi há poucos dias que senti “isto é tão bom”. Sentes-te como se estivesses numa grande reunião de família. Eles tocam todas as noites enquanto Broken Social Scene e eu estou tão ocupada quanto eles, portanto só me junto quando todos podemos. É sempre uma novidade para mim, como se fosse relembrada de algo. É uma sensação muito diferente, sem dúvida… Há tanta gente em palco, mas quando as coisas encaixam… há muito poder nesse sentimento de família, sem dúvida.

O que quer da música hoje? É o mesmo que queria quando começou a sua carreira?
Claro que é um desejo mais educado, porque já faço isto há muito tempo, mas tudo aquilo que queria quando comecei – e certamente que não era uma carreira, apenas uma obsessão, depois, lentamente, é que lá se foi tornando uma carreira – era simplesmente comunicar a minha verdade. Seja qual for a verdade que eu observe, cante eu sobre o que cantar, escreva eu sobre o que escrever, quero assegurar-me que me mantenho convicta daquilo que estou a fazer. E não quero dar nada como garantido, quero manter-me agradecida por ter o privilégio de poder continuar a fazer isto. Nem toda a gente tem essa sorte. Só porque queres fazer algo não significa que te seja permitido fazê-lo… Espero que, aos 90 anos, tenha a mesma gratidão e olhe para isto da mesma forma.