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Johnny Hooker

Rita Carmo

Johnny Hooker, brasileiro, gay, punk, estreia-se em Portugal: “No Brasil, quanto mais caladinho melhor. Eles odeiam que as pessoas falem”

O artista brasileiro estreia-se em solo nacional com um concerto esgotado em Lisboa esta sexta, passando depois pelo Porto e Barcelos. A BLITZ falou com ele

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Os palcos portugueses podem ainda não conhecer Johnny Hooker, mas os fãs de novelas certamente já o viram e ouviram. 'Alma Sebosa', tema que integrava a banda-sonora de "Geração Brasil", na qual também participou como ator, ajudou a abrir-lhe as portas do sucesso e depois de se estrear em 2015 com "Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Agarrar, Maldito!" regressou aos álbuns no ano passado com "Coração", que vem agora apresentar a Portugal. Esta sexta, sobe ao palco do Musicbox, em Lisboa, para um concerto esgotado (repetindo a dose na próxima terça), segue depois para o Porto, onde participará no Piquenique Dançante sobre a Relva na Casa das Artes no sábado, e Barcelos, onde atua no âmbito do festival Milhões de Festa no domingo.

"O meu trabalho tem essa coisa romântica, intensa, passional, mas também é político", confessa o artista, sublinhando o seu papel na nova vaga de artistas LGBT brasileiros. "Quando a música entrou na novela, tive uma receção mainstream que ainda tenho, apesar de não chegar ao tamanho do fenómeno Pabllo Vittar. Ajudei a galgar um espaço para outros artistas e para uma discussão que é geracional. A Linn da Quebrada é punk, punk rock. A Liniker, que canta comigo em 'Flutua', é mais romântica... Eu acho que estou em algum lugar entre as duas. Sou punk, mas também falo das coisas do coração. E falar de amor é muito político". Em conversa com a BLITZ, o artista que queria trabalhar em cinema quando era pequeno, falou sobre a importância da sua identidade sexual na música que faz, a situação política do Brasil e as canções de "Coração", álbum que diz refletir o espírito passional da América Latina.

Se lhe pedisse para se apresentar em duas palavras, quais escolheria e porquê?
Eu costumo dizer que Johnny Hooker, a persona do palco, é uma mulher em fúria dentro de um homem com os olhos marejados de lágrimas. Essa definição já sugere uma dualidade de género. Para mim, é quase como uma entidade latina, intensa, melancólica… Considero os meus concertos rituais de exorcismo das mágoas e, também, comemorações da liberdade e do amor. O show tem um arco dramático… Se em “Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Agarrar, Maldito!” [álbum de 2015], ia do fundo do poço, da dor de amor, até à superação, “Coração” parte da superação para uma celebração da igualdade.

Este segundo álbum surge de um período complicado da sua vida...
E de um período político complicado também… É engraçado como se cruzam. Artistas são idealistas por natureza e eu sempre fui muito romântico e idealista. Senti que tudo aquilo por que tínhamos lutado se estava a desmoronar. Na minha vida pessoal, confrontei-me com conflitos e muita desilusão. Fui casado durante três anos e separei-me no ano passado, saindo de um universo que me oprimia… E sou um artista independente, portanto ao enfrentar este mercado de frente dececionei-me muito com a forma como a mesa está posta. Está no ADN da América Latina resistir e encontrar um caminho, por mais sombrio que pareça. Aquelas palmas no início de “Coração” são a urgência da vida chamando-me de volta, “olha eu aqui de novo / viver, morrer, renascer / firme e forte feito um touro” [da canção ‘Touro’]. Depois falo: “fascistas passem por lá / levando o seu mau agouro”. É um disco pessoal e um disco político. Tudo se cruza numa grande celebração da urgência da vida.

Sente que há um grande contraste entre este álbum e aquilo que fez antes? Há uma maneira diferente de passar a mensagem?
Quando escrevi “Macumba”, vivíamos um momento político diferente. Esse álbum foi muito influenciado por Amy Winehouse e “Back to Black”… Tem um espírito melancólico dessa época e, ao mesmo tempo, é muito cabaret. É mais cru, mais rock. Com o sucesso desse álbum pude viajar muito, tocar muito, conhecer o Brasil profundo, que não conhecia. É um disco muito sobre o Recife, onde eu morava, e o “Coração” é um disco sobre o Brasil todo, porque nasceu depois de eu poder conhecer mais o meu país e me apaixonar por ele. Tem muito essa coisa da América Latina, da troca, da mistura de ritmos caribenhos e africanos e europeus, americanos. É um feeling mais globalizado. A América Latina tem um formato que lembra um coração e é muito coração, muito passional. É um povo quente e passional. “Coração” para mim, na verdade, era uma forma de mostrar que não importa as vezes que tentarem destruir o nosso coração, porque nós vamos estar sempre de pé. Daí eu estar a sair da água, na capa.

E quão importante se tornou a sua identidade sexual na sua música? Está cada vez mais presente?
Para mim, sempre foi indissociável. Todo o corpo é político, toda a voz é política, toda a música é política. Não há como fugir de quem você é, de como você está posicionado politicamente no mundo. É isto que sou e que me diferencia do resto. Não posso tentar esconder nem negar. Aí vem o lado punk. Não estou aqui para agradar a ninguém, mas para pôr o dedo na ferida, falar sobre assuntos desconfortáveis. Para mostrar “olha, isto aqui está errado… as pessoas estão morrendo”. Num período em que há nova ameaça de retrocesso, de fascismo, é muito importante que a música tenha esse papel e esteja na linha da frente.

Sente que se estivesse ligado a uma grande editora e não fosse um artista independente, alguém tentaria mudar o seu discurso?
Com certeza! No Brasil, quanto mais caladinho melhor. Eles odeiam que as pessoas falem... Acho que isso é um pensamento bem colonial: “ah, vai falar para quê? Para aparecer?”. A arte quebra barreiras... Mas esse é o problema, também… Alguns artistas, depois de quebrarem essas barreiras, viram “aqueles que podem”, “esse é o gay que pode”. É uma piada… Apenas um bobo da corte. E isso reitera o pensamento de que as pessoas LGBT não são seres humanos, só palhaços que vão chegar e fazer uma graça. Por isso acho essa discussão tão importante.

Já está a trabalhar num novo álbum?
Este disco só saiu há seis meses… É muito recente. Fiz dois discos seguidos, então, acho que tenho de respirar agora. A gente lançou o clip de ‘Flutua’, que é o single principal do disco, vão entrar músicas em novelas agora, durante o ano, e falta fazer o clip com a Gaby Amarantos, que também participa do disco. Enfim, ainda tem um chão, este disco ainda vai render. E como foram quatro anos diretos, quero dar um espacinho maior agora. Mas talvez daqui a um ano e meio já esteja a fazer outro.

É muito disciplinado a compor?
Componho muito, mas desde o momento da separação, da depressão, no ano passado, tenho demorado mais. Acho que estava a enfiar o pé forte no acelerador e preciso de um tempo para respirar, aproveitar o tamanho que a minha obra tomou, os encontros, os shows. E agora que a minha carreira, pelo menos no Brasil, está mais estabilizada, já não quero ir com tanta força. Isso faz mal à cabeça.