Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Phil Mendrix

Vasco Ludgero

“Até sempre, Filipe Mendes!” Gimba escreve sobre o ídolo, o amigo, o companheiro de estrada

“Aos meus olhos e ouvidos de criança, o Filipe Mendes ganhou uma aura com a mesma dimensão de um Paul McCartney ou de um Keith Richards. Tornou-se um ídolo. Um super herói!”. A homenagem de quem, vinte anos mais tarde, viria a partilhar com ele carrinhas, quartos de hotel e muitos palcos

Gimba

O meu primeiro contacto com Filipe Mendes foi uma enorme surpresa. Eu tinha dez anos. Como qualquer rapaz dessa idade, estava com os meus pais a ver televisão numa segunda feira à noite. Estamos no fim de 1970, e a RTP tentava repetir o efeito e a aura mítica do lendário "Zip Zip" com um novo programa, de nome "Curto Circuito".

Diga-se que o "Zip Zip" foi um programa histórico, apresentado por Raúl Solnado, Carlos Cruz - esse mesmo - e Fialho Gouveia, em que, semana após semana, em direto do Teatro Villaret, se sentia que "a liberdade está a passar por aqui", em plena primavera marcelista, ou seja, os últimos anos da ditadura - com Salazar já morto e uma esperança enorme que as coisas se modificassem. O "Zip" foi um êxito estrondoso - um talk show (em que o primeiro convidado foi Almada Negreiros) com muitas rábulas cómicas e muita música à mistura, música essa maioritariamente interpretada por "baladeiros" - rapazes geralmente barbudos, geralmente com óculos, e geralmente acompanhados apenas à guitarra. Nomes como José Barata Moura, Pedro Barroso ou Manuel Freire (o tal da "Pedra Filosofal") passaram por lá. Era uma atmosfera indescritível: o público, farto de cinzentismo e ávido de mudança, ovacionava ruidosa e expontaneamente tudo o que se passava naquele palco, onde, reciprocamente, também havia espontaneidade e à vontade para dar e vender! E o que é que isto tem a ver com o Filipe Mendes?...

O "Curto Circuito" tentou em vão seguir as pisadas do "Zip", mas não era bem a mesma coisa. O Teatro Monumental, de onde era transmitido, era uma sala enorme, com um pé direito descomunal, que estava longe de poder proporcionar aquela atmosfera "compacta" do Villaret (onde se fumava em cena, com o fumo a conferir um ambiente especial, iluminado pelos holofotes da televisão). No Monumental, o palco era mais frio e mais distante. Mais distante era também a apresentação - a cargo de Artur Agostinho, coadjuvado pelas beldades Glória de Matos e Laura Soveral - um trio muito mais formal, que ficava a milhas da graça, do à vontade e da "juventude" da troupe de Solnado e Cia...

E foi por entre bocejos, depois de mais uma entediante entrevista, que ouvi uma das atrizes apresentadoras lançar: "Eles ganharam o concurso 'Barbarella 70' em Palma de Maiorca; eles são: Os Chinchilas!". O público bateu as palmas da praxe, e em palco um quarteto de visual hippie ataca os primeiros acordes de uma canção com um balanço e uma sonoridade invulgares. Destaque para um guitarrista de cabelo pelos ombros (ninguém em Portugal usava cabelo pelos ombros em 1970!) com uma grande fita à roda da cabeça, tipo índio. A banda tinha um som incrivelmente moderno e vanguardista para um grupo nacional! Ao tempo, o meio musical português, nomeadamente no que toca ao pop/rock, era tão “careta” como o resto do país, sem rasgo, sem originalidade, sem onda. Em resumo: Portugal era uma parvónia, e a sua música "moderna" era incipiente, fraca; de importação. Era na realidade (além de geralmente não muito bem tocada) "antiga"!

Fiquei espantado com a qualidade daquele som. O meu pai, amante da bossa nova, dos Beatles e do melhor jazz, deu um pulo no sofá: "Alto aí. Estes tipos nem parecem portugueses. Tocam bem que se fartam!". "Estes tipos" eram Os Chinchilas: Guilherme Inês, bateria; Pedro Romeiro, baixo; Luís Pedro (Fonseca), teclas; Filipe Mendes, voz e (uma incrível incrível) guitarra. Foi amor à primeira vista! Escusado será dizer que comprei o single no dia seguinte. E lá estava, na capa, o nosso Filipe com o tal cabelo comprido e a tal fita à volta da cabeça. Note-se que na discoteca de um miúdo de dez anos e irmã de 13, circa 1970, (maioritariamente constituída por singles), não havia um único disco português! Muitos Beatles, Stones, Moody Blues e Bee Gees, os inevitáveis franceses - Sylvie Vartan, France Gall, Mireille Mathieu ou Johnny Halliday, e um ou outro italiano (eu era super fã de Rita Pavone!). Portugueses, nada! Mas o single dos Chinchilas rapidamente se tornou o mais tocado no meu gira discos. Tenho a certeza - e aposto já com quem quiserem - que sou a pessoa (em Portugal e no mundo) que ouviu mais vezes o "Barbarela" (assim mesmo, só com um L). E aos meus olhos e ouvidos de criança, o Filipe Mendes ganhou uma aura com a mesma dimensão de um Paul McCartney ou de um Keith Richards. Tornou-se um ídolo. Um super herói!

Passado um tempo, uma enorme deceção: o Filipe aparece na televisão, num programa “para jovens”, de cabelo rapado e, obviamente, sem a sua fita à volta da cabeça, anunciando que ia entrar para a tropa! Note-se que estamos em plena guerra colonial, e nesta altura, o serviço militar era obrigatório - e durava quatro anos! Aliás, esse mesmo serviço militar estilhaçou praticamente todas as bandas da altura, e para o evitar, muitos fugiram para o estrangeiro. Adeus, Chinchilas, Adeus, Filipe Mendes!

Só voltei a ouvir falar do meu herói já depois da revolução. De repente vejo o nome do Filipe, já sem Chinchilas (agora integrado num misterioso conjunto “Luz"), anunciado para um concerto no teatro Ádóque (um barracão mal amanhado em pleno Martim Moniz). Como qualquer super fã, fui para o local com horas de antecedência. E lembro-me de ver cá fora, no banco de trás de um Citroën "arrastadeira", uma guitarra elétrica sem estojo: uma Gibson Les Paul dourada, sem dúvida a nova guitarra do Filipe (que, no tempo dos Cinchilas e do "Curto Circuito" usava uma Gretsch Tennessee Rose, semi acústica, modelo Chet Atkins). O concerto foi algo dececionante para quem esperava ouvir o “Barbarela” ou qualquer coisa parecida. O grupo era “experimental”, e toda a música era improvisada. Filipe Mendes brilhava com os seus solos, que tinham tanto de virtuoso como de interminável; na sala cheirava a erva angolana; o som não era o melhor (a banda nem sequer fez testes: foi chegar e tocar). O jovem fã sai algo dececionado...

Dois anos depois, no verão de 78, cruzámo-nos de novo. Foi uma incrível coincidência. Eu e o Jorge Galvão (com quem viria uns anos depois a formar Os Afonsinhos do Condado) fomos convidados para abrir um festival em Lagos – chamado “Full Moon Concert”. Foi a nossa primeira aparição em público e o meu primeiro concerto (o disco que estou prestes a lançar – de título “Ponto G” – assinala precisamente os meus quarenta anos de música, 1978/2018). Além do malogrado Rui Siqueira, Filipe Mendes constava do cartaz com a sua nova banda (também “experimental”), os Rastafari. O nome grande da noite era a Go Graal Blues Band (de Paulo Gonzo). Que honra – ainda que a dar os primeiros passos – tocar no mesmo palco do meu ídolo, que nesse espetáculo se apresentava de turbante, com um broche reluzente na testa, e uma vistosa pena de pavão a completar o ramalhete! Tal como no Ádóque, não gostei muito do que ouvi. A banda não tinha pedalada para o grande mestre que, imune ao pouco apuro dos seus músicos, solou a seu bel prazer, como sempre – como se não houvesse amanhã!...

Entretanto, eu saí do país, e andei pelas Américas – do norte e do sul – apenas regressando em 1982, mesmo a tempo do boom do “rock português”, rock português, esse que, inevitavelmente, tinha Filipe Mendes à mistura, como solista dos Roxigénio, curiosamente um grupo que – ao contrário da corrente – insistia em cantar em inglês... Quando todo este burburinho serenou, como é sabido, o Filipe larga tudo e leva a família às costas para o Brasil, para os confins de Belo Horizonte, onde permanece dez anos.

Mudando de assunto sem mudar de assunto, durante toda a década de oitenta eu toquei com o meu companheiro Jorge Galvão, primeiro em duo (Tiroliro & Vladimir, os tais que abriram o concerto de Lagos), duo que foi depois alargado ao trio que ficou conhecido do grande público como Os Afonsinhos do Condado, grupo de artistas "da rádio, TV e cassete pirata" que calcorreou Portugal de norte a sul. Às tantas, no raiar dos noventas, os Afonsinhos entraram “de férias” (o grupo na realidade nunca se desfez, apenas "cessou funções"...). Passado uns tempos, outro dos meus heróis – Manuel João Vieira – convidou-me para integrar o seu novo projeto - Os Irmãos Catita. E foi a p#&a da loucura! Todos os fins de semana, às sextas e sábados, entre a meia noite e o nascer do sol, este grupo fazia maratonas de música, drogas e outras coisas proibidas, no café concerto do Cinearte – gentilmente cedido por Maria do Céu Guerra e Hélder Costa para entrar na história da noite alfacinha.

As noitadas do Cinearte ficaram famosas, míticas mesmo. E por lá se viu Lisboa inteira: de Carlos Cruz – esse mesmo – a José Alberto Carvalho, passando por Joaquim de Almeida, Catarina Portas, Xana e Zé Pedro, atores, modelos, jornalistas, artistas, enfim: a nata da nata frequentou as noites loucas de Santos. E muita gente ilustre se juntou à banda em palco: Bernardo Sassetti, Carlos Martins, Nuno Ferreira, Perico Sambeat, Suzie Peterson, Marina Albuquerque, Núria Martínez, Tony Barracuda, Flak, o próprio Zé Pedro, poetas como Manuel Cintra ou Joaquim Castro Caldas, Terence McKenna (o novo profeta americano do nonsense), o Malogrado Armando Gonçalves – que se tornou mascote da banda, e muitos muitos outros. O Cinearte foi o grande caldeirão da loucura do seu tempo. O álcool corria a rodos; nas varandas fumava-se a bom fumar; as retretes estavam permanentemente “ocupadas”, eu sei lá... o chão era o limite!

Certa noite, já bem tarde, alguém me abordou ao balcão. Era um rapaz a dizer que estava por ali com "o Filipe Mendes" e que "o Filipe queria tocar", e "nem estás a ver como é que o Filipe está a tocar desde que chegou do Brasil", etc... E eu: o Filipe Mendes? “O” Filipe Mendes?? O grande guitarrista Filipe Mendes, o meu ídolo??? Traz lá o Filipe! Ele que vá já para o palco! Avisou-se o Manuel João que "estava ali o Filipe Mendes" e, em menos de dois minutos, Filipe Mendes, o GRANDE Filipe Mendes, porventura o maior guitarrista de rock que Portugal já conheceu, estava sozinho no palco com a sua famosa Gibson dourada. E foi a primeira de muitas noites em que o Filipe se juntou aos Irmãos Catita. Em pouco tempo já fazia parte da mobília! De tal maneira que a certa altura, além dos solos que fazia com a catitada, ele começou a introduzir umas buchas de “Satisfaction” aqui, “Cocaine” ali, e os finais de noite começaram a pender invariavelmente para o rock de barba dura: Hendrix, Black Sabbath, Deep Purple, etc. Uma vez, ao sair do palco com a subida de volume da rockalhada, Manuel João apresentou “Os Demónios do Rock” que eram os Irmãos Catita liderados por Filipe Mendes! A dose foi tal que os “Demónios” começaram a ensaiar esse reportório e até fizeram meia dúzia de espetáculos em nome próprio...

Passados uns tempos Manuel João “empurrou” o Filipe para um concerto dos Ena Pá 2000, e a coisa nunca mais parou! Filipe Mendes passou a fazer parte das duas bandas e a ser mais um membro na comitiva das digressões. Terá sido num desses concertos que Manuel João – eterno e exímio improvisador – apresentou Filipe Mendes como "o grande Phil Mendrix!". E o nome pegou. E pegou de tal modo que, se no “sino” dourado da sua Les Paul (uma espécie de tampinha perto dos afinadores, que tapa um ferrolho de afinação do braço da guitarra) estava gravado o nome "Filipe Mendes", no seu novo amplificador, a chapa que ostentava a marca (Budda) passou a ostentar a “marca” Mendrix!

A vida dá muitas voltas. Quem diria que Filipe Mendes passaria de meu ídolo a meu companheiro de estrada? Fizemos juntos milhares de quilómetros, partilhámos carrinhas, palcos, quartos de hotel e restaurantes. Fiilpe levava sempre a sua própria comida e o seu próprio açúcar. Não bebia álcool (talvez uma “lágrima” de vinho tinto de quando em vez...) e fazia muito exercício. Aos 50 anos tinha um corpo de Adónis – musculado, teso e rijo, sem barrigas nem peles supérfulas. Nos tempos do Cinearte tinha o cabelo preto preto preto (provavelmente pintado), de tal modo que um dia alguém perguntou «o tipo é cigano?» dada a sua tez escura. Mas com o passar do tempo começou a assumir as “brancas” e nos últimos anos exibia a sua formidável cabeleira – cabelo comprido até ao fim – impecavelmente branca.

Fora do palco era uma pessoa extremamente afável, educadíssima e sempre muito cortês e atenciosa (ligava-me muitas vezes e perguntava sempre pelo meu "menino"). Ainda hoje, num programa que gravei para a Antena 3, com Henrique Amaro, João Carlos Callixto e “Fast” Eddie Nelson se fizeram comparações entre Filipe e Zé Pedro – duas pessoas amorosas e simpatiquíssimas, com zero tiques de vedeta, e ambos tendo em comum o rock, a guitarra e um sorriso especial.

Mas – agora tenho de recorrer a um lugar comum – uma vez no palco, Filipe Mendes transformava-se. Recorrendo ainda a outro lugar comum pode dizer-se que a guitarra era uma extensão do seu corpo, como que um terceiro braço. Não me hei de esquecer que num dia de concerto em Leiria, Filipe Mendes nunca largou a sua guitarra: foi de guitarra jantar para o restaurante, e na reunião da comitiva no átrio do hotel, antes do concerto, lá estava ele, fazendo as suas escalas em silêncio (as guitarra elétricas não produzem ruído se não estiverem ligadas a amplificação). Ao que parece, fazia estas mesmas escalas a dormir, e no seu leito de morte também segurava uma imaginária palheta, tocando guitarra até ao último suspiro.

Quem o viu tocar, sabe que ele era um figuraço, que se empolgava enquanto empolgava o público. Não sendo vaidoso, preparava-se com detalhe nos camarins: a calça de boca de sino; a camisa psicadélica; a écharpe; a bota de tacão e revirão, tudo tinha que estar impecável para quando as luzes se acendessem. Depois a música fazia o resto e ele deixava-se levar. O talento e o feeling – imensos – faziam o resto. Eddie dizia que ele tocava com o corpo todo: "há guitarristas que fazem caretas; o Phil fazia caretas com o corpo todo!". E não só: quando o amplificador devolvia o feedback e a guitarra parecia que tocava sózinha, com vontade própria, Filipe fitava o público, os olhos muito abertos, a expressão incrédula, como que a perguntar: estão a ouvir a minha menina? Estão a ver esta coisa incrível que ela está a fazer?. E enquanto fazia isto estava nos bicos dos pés, como se uma força divina o puxasse para cima, retirando-lhe peso, quase levitando num transe que só ele conhecia.

O que é certo é que essa força agora o puxou de vez, levando-o de palheta em punho por uma escadaria infinita rumo ao céu. Até sempre, grande grande Filipe Mendes!

Gimba, nascido em Lisboa há 59 anos, é músico, autor e produtor português. Membro fundador dos Afonsinhos do Condado, foi padrinho de batismo dos Xutos & Pontapés, tocou e gravou com Os Irmãos Catita, em nome próprio e a solo. Produziu trabalhos de vários artistas, de José Cid a Vicente da Câmara. Fez música para televisão, rádio e publicidade. Edita em 2018 o seu segundo álbum a solo, Ponto G.