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Chester Bennington

Getty Images

Consumido e confuso. A enorme escuridão de Chester Bennington, uma alma conturbada que não resistiu aos seus demónios

Honesto em relação à sua frágil saúde mental e à batalha constante que travava com o abuso de álcool e drogas, tocou bem fundo uma vasta legião de seguidores, mas já lá estava tudo preto no branco, de 'Crawling' a 'Numb' e 'In The End'. Um ano depois do desaparecimento precoce da voz dos Linkin Park, percorremos os meandros da sua mente e da sua obra

José Miguel Rodrigues

O rock está a passar por uma fase de luto. Chris Cornell, vocalista dos Soundgarden, Audioslave e Temple of the Dog suicidou-se em maio. Dois meses depois, Chester Bennington, dos Linkin Park, foi encontrado sem vida na sua residência em Palos Verdes, perto de Los Angeles, na Califórnia. O calendário marcava 20 de julho, exatamente o dia em que o seu amigo Cornell comemoraria 53 anos se estivesse vivo. Em menos de dois meses, dois artistas que ajudaram a definir duas gerações do rock pesado acabaram por sucumbir à dor emocional que, por muito que custe agora admiti-lo, alimentou muita da música que escreveram e que vendeu milhões de discos por todo o mundo durante as últimas décadas. Não estranhamente, os laços que ligavam os dois músicos eram mais que muitos, e os trágicos acontecimentos dos últimos tempos originaram inúmeras dissertações acerca das fragilidades que, aparentemente, inspiram e alimentam muita da música com que os ouvintes se identificam com paixão. Chester, à semelhança de Chris, enforcou-se. Os dois músicos eram amigos próximos, sendo que se conheceram uma década antes na digressão Projekt Revolution, durante a qual se juntaram várias vezes em palco para cantar «Hunger Strike», dos Temple of the Dog. Nasceu ali uma ligação muito forte entre a dupla, talvez propiciada pelo facto de ambos transformarem em canções as suas respetivas batalhas com o abuso de drogas e álcool e com depressões. Uns anos depois, Bennington foi padrinho da filha de Cornell, Toni, e, a 26 de maio, cantou «Aleluia», de Leonard Cohen, no funeral do ícone grunge. «Inspiraste-me mais do que alguma vez poderás imaginar», escreveu, profeticamente, Chester a Chris numa carta aberta. «Não consigo imaginar um mundo sem ti... Espero que encontres a paz na próxima vida».

Linkin Park em 2000

Linkin Park em 2000

Consumido, confuso

Nascido em Phoenix, Arizona, a 20 de março de 1976, Chester Charles Bennington foi criado pela mãe, Susan Elayne Johnson, enfermeira, e pelo pai, Lee Russell, um detetive que dedicou grande parte da sua carreira a investigar casos de abuso infantil, até ao divórcio de ambos, tendo o pai ficado com a custódia da criança. Chester tinha duas irmãs mais velhas e um meio-irmão mais velho, Brian. Como Lee fazia frequentemente turnos duplos, Chester passava muito tempo sozinho em casa e, no geral, não teve uma infância fácil. A futura voz dos Linkin Park foi vítima de bullying no liceu e, dos 7 aos 13 anos, sofreu abusos sexuais por parte de um amigo mais velho, acabando por cair num padrão de abuso de drogas e álcool como forma a lidar com a dura realidade com que se tinha deparado. «Consumi tanto ácido que fico surpreendido por ainda conseguir falar”, disse à Metal Hammer. «Fumava um monte de crack, metia metanfetaminas e, depois, sentava-me num canto e ficava ali a tripar. De seguida, se quisesse descansar, fumava um pouco de ópio». Foi na criação artística que encontrou a boia de salvação – a poesia, o desenho e a música transformaram a sua vida, com bandas como os Stone Temple Pilots e os Depeche Mode a inspirarem as primeiras composições originais. Por fim, aos 17 anos, Bennington mudou-se para a casa da mãe e começou a trabalhar num Burger King enquanto tentava dar início à sua carreira musical.

A primeira banda em que esteve envolvido, os Sean Dowdell And His Friends?, gravaram só uma maqueta de três temas em 1993, acabando por se separar pouco tempo depois, mas Bennington e Dowdell criaram de seguida os Gray Daze, que gravaram três álbuns durante os anos 90. Corria o ano de 1996 quando casou com Samantha Olit e, dois anos depois, abandonou os Gray Daze, propiciando-se uma mudança para Los Angeles. Por esta altura, Chester estava prestes a abandonar o sonho de viver da música quando recebeu um convite de Jeff Blue, o vice-presidente do departamento de A&R da Zomba, para fazer uma audição como vocalista principal de uma banda chamada Xero que, uns anos depois, se transformaria nos Linkin Park (nome feito a partir de um trocadilho com o Lincoln Park, em Santa Mónica). Corre a lenda que encontrar um vínculo criativo com o co-vocalista Mike Shinoda não demorou muito tempo, sendo que o coletivo acabaria por assinar com a Warner, tomando de assalto o efervescente fenómeno nu-metal – e, já em 2000, trepando ao número 2 da Billboard com o álbum de estreia, Hybrid Theory.

A amálgama de hard rock, rap e eletrónica contida em temas como «One Step Closer», «In The End», «Crawling» ou «Papercut», combinada com as letras de Bennington acerca do divórcio dos pais e do seu uso e abuso de drogas, ajudou a banda a tornar-se um fenómeno à escala mundial e um símbolo de mudança cultural, ganhando diversos Grammys e vendendo mais de 30 milhões de cópias durante os dois anos que se seguiram à edição do disco. Hybrid Theory transformou-se no álbum de estreia mais vendido do séc. XXI e, há três anos, catorze após o seu lançamento, foi interpretado na íntegra no festival Download frente a milhares de fãs rendidos à alma daquelas canções. Os adolescentes que, ao ouvirem um tema como «One Step Closer» («Everything you say to me / takes me one step closer to the edge / and I’m about to break»), se depararam com a tristeza e a fúria contidas na voz de Bennington, identificarem-se de imediato, e o vocalista transformou-se num porta-estandarte da dor reprimida, do sofrimento que não podia ser expresso, libertado ou compreendido.

Na viragem do milénio, os Linkin Park fizeram parte de uma revolução juvenil, e a voz de Chester era a sua trombeta. Em luta constante entre estados de espírito dicotómicos, tanto a sua entrega como as suas letras, expressões apaixonadas de medo e desespero, transportavam um misto de vulnerabilidade e desencanto, autênticas declarações de derrota alimentadas por uma valente dose de raiva latente, a borbulhar nas suas cordas vocais. Contrariando as más línguas, do ponto de vista da indústria a posição dos Linkin Park como heróis para uma geração de adeptos da fusão rap/rock pouco diminuiu desde que a estreia os catapultou para o sucesso. O segundo álbum, Meteora, de 2003, manteve os níveis de aclamação com o sucesso global do single «Numb» e fez mover milhões de cópias, tendo registado um respeitoso terceiro lugar na lista de álbuns mais vendidos de 2003. Dez anos depois, tinha vendido cerca de 27 milhões de cópias em todo o mundo, tendo sido certificado quatro vezes platina. Os álbuns que se seguiram continuaram a ocupar a primeira posição da Billboard, mas a banda nunca se furtou a arriscar constantes alternativas à fórmula, como comprova, por exemplo, a colaboração com Jay-Z no EP Collision Course, editada em 2004.

Linkin Park em 2017

Linkin Park em 2017

Forte à superfície

Mostrando a sua vontade de explorar outros sons, em 2005 Chester criou, com músicos dos Orgy e dos Street Drum Corps, os Dead By Sunrise, que lançaram um único álbum, Out of Ashes, quatro anos depois. Entretanto, já os Linkin Park tinham retomado o seu percurso em 2007 com Minutes to Midnight, um disco conceptual coproduzido por Rick Rubin e que constituiu um passo deliberado na direção de um som mais mainstream – dando origem aos singles de enorme sucesso «What I’ve Done», «Bleed It Out» e «Shadow of the Day». «New Divide», incluído na banda-sonora de Transformers valeu-lhes outro enorme sucesso comercial, repercutido nos álbuns subsequentes, A Thousand Suns e Living Things, de 2010 e 2012, respetivamente.

No ano seguinte, o vocalista dos Linkin Park foi convidado a ocupar o lugar de Scott Weiland nos Stone Temple Pilots (STP). As duas bandas já se tinham cruzado na digressão Family Values durante a década anterior e, em criança, Bennington idolatrava o grupo e, em particular, o seu vocalista. Em várias entrevistas, disse que cantar com os STP era um sonho de vida – «eu cresci a ouvir os discos deles e quando surgiu a oportunidade nem precisei de pensar duas vezes», confessou à KROQ. Não estranhamente, e infelizmente, Bennington e Weiland tinham muito mais em comum que apenas o facto de terem dado voz àquela banda: em criança, ambos foram abusados sexualmente por homens mais velhos. Na autobiografia Not Dead & Not For Sale, Scott revelou que, quando tinha 12 anos, «um aluno mais velho do liceu, que andava comigo no autocarro todos os dias, convidou-me para ir a casa dele. Depois, violou-me... Sofri com isso até há alguns anos, quando, na reabilitação, essas coisas vieram todas à tona». Bennington, por seu lado, disse à Kerrang!, em 2014, ter sido abusado por um amigo mais velho quando tinha apenas sete anos. «Escalou tudo a partir de um simples toque, e não deixa de ser curioso que isso tenha levado a sucessivas violações», recordou. «Fui espancado e forçado a fazer coisas que não queria fazer, isso destruiu toda a minha autoconfiança». Dois anos e um EP depois – «High Rise», creditado aos Stone Temple Pilots with Chester Bennington –, Chester acabaria por colocar o seu lugar à disposição para se dedicar aos Linkin Park e à família.

Entretanto, o músico tinha encetado uma fugaz carreira como ator – no seu currículo constam aparições nos filmes Saw 3D: The Final Chapter, Crank e Crank: High Voltage – e, com a sua banda de sempre, acabaria por gravar mais dois álbuns – The Hunting Party, de 2014, que ensaiou um retorno a um som mais pesado e, em maio deste ano, o disco mais deliberadamente pop de toda a sua carreira, One More Light, precedido pelo single «Heavy». As reações negativas não se fizeram esperar, mas mesmo que alguns fãs desejassem que a banda se tivesse mantido para sempre presa às raízes nu-metal, o músico nem por um momento pediu desculpa pela opção. Por estranho que possa parecer agora, nas entrevistas de promoção ao disco, mostrou-se sempre incrivelmente lúcido e aberto em relação aos problemas que tinham inspirado as suas letras.

«Em 2015 e 2016 aconteceu uma série de coisas na minha vida pessoal que me deixaram louco», afirmou à Rock Sound em março último. «Passei grande parte desses dois anos a tentar manter o meu mundo tão unido quanto possível... Às tantas, percebi que ser aberto, honesto e verdadeiro com as pessoas que me rodeiam é crucial. Hoje sei exatamente quem sou, sei exatamente do que sou feito e sinto-me totalmente feliz com isso. É ótimo poder fazer o que faço, especialmente para alguém como eu». Nem três meses depois, o suicídio. Nos dias que se seguiram, sucederam-se os elogios dos seus pares e as páginas de fãs no Facebook encheram-se de homenagens sentidas, muitas delas ecoando o impacto que o músico teve no público. De resto, Bennington não escondeu nada dos seus seguidores e fez sempre questão de falar publicamente sobre os abusos de que foi vítima, as reuniões dos Alcoólicos Anónimos, o programa dos 12 passos que seguiu e a sua ingrata luta para se manter sóbrio de drogas e álcool, chegando inclusivamente a admitir uma recaída em 2005 quando se divorciou da primeira mulher.

Acabaria por encontrar de novo a sobriedade e a aparente estabilidade mental em 2006, quando se casou com Talinda Ann Bentley, professora e ex-modelo da Playboy. Pelo meio, durante a última década, manteve-se sempre uma presença gentil e solidária, tanto na vida profissional como pessoal. No entanto, uma vez mais, e muito à semelhança do que se passou meses antes com Chris Cornell, ninguém poderia antever um desfecho tão trágico e, provavelmente, nunca se vai perceber o que, naquele momento fatídico, o fez perder a esperança e dizer adeus, para sempre, à sua legião de fãs, a Talinda e aos seus três filhos em comum, Tyler Lee, Lily e Lila, a Draven Sebastian, o filho do primeiro casamento, e de outros dois, Jaime e Isaiah, de uma relação com Elka Brand. Despede-se Chester Bennington, artista honesto e franco como poucos, a quem faltou a força suficiente para não sucumbir ao abismo.

Publicado originalmente na BLITZ de setembro de 2017