Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

John Coltrane, Elvin Jones, Jimmy Garrison e McCoy Tyner no estúdio de Rudy Van Gelder

Jim Marshall

55 anos depois de se 'perder', um álbum de John Coltrane encontra o caminho para o presente. E é uma obra-prima

Mais de meio século após o desaparecimento de um dos maiores gigantes do jazz, um álbum inédito de John Coltrane está a deixar meio mundo de boca aberta. “Both Directions At Once” afirma-se, desde já, como um dos inevitáveis álbuns do ano. Conta-se aqui a sua história

Parece incrível, mas numa era em que as descobertas vão sendo cada vez mais raras, em que todos os arquivos já foram digitalmente escancarados, ainda acontecem revelações surpreendentes. "Both Directions At Once: The Lost Album" é o mais recente lançamento de John Coltrane, nome maior do jazz que faleceu há precisamente 51 anos. O álbum agora inscrito no catálogo da Impulse – “a casa que Trane ergueu”, de acordo com o escritor Ashley Kahn, uma das maiores autoridades mundiais na vida e obra do saxofonista – resulta da descoberta de gravações datadas de 1963 e protagonizou a maior entrada de sempre de John Coltrane no Top 200 da Billboard (isto é, o do top de vendas nos Estados Unidos): a estreia no 21º posto da exclusiva lista resulta da venda de 22 mil cópias do álbum na sua primeira semana de mercado, com 21 mil dessas unidades a corresponderem a vendas tradicionais.

A música de John Coltrane, sobretudo a que o saxofonista produziu com o denominado “quarteto clássico” – com McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no contrabaixo e Elvin Jones na bateria –, como é o caso da sessão agora revelada ao mundo, tem sido alvo de um permanentemente renovado fascínio e foi elevada à condição de magistral património do século XX, ombreando natural e justamente com as mais celebradas obras das esferas eruditas e populares: Coltrane é artista da mesma dimensão de Maria Callas, Frank Sinatra, Duke Ellington, Leonard Bernstein, Igor Stravinsky, George Gershwin, Tom Jobim, Aretha Franklin, Beatles, Bob Dylan ou Amália Rodrigues, para mencionar apenas alguns dos maiores expoentes desse prodigioso século. Portanto, a descoberta de um trabalho inédito traduz-se num evento de proporções compreensivelmente épicas.

É incrível que o material agora revelado tenha estado longe do alcance dos editores e investigadores que há décadas abordam a obra do autor de "A Love Supreme"

Nas últimas décadas, a evolução do mercado e da tecnologia ditou que a música lançada no terceiro quartel do século XX tenha sido amplamente disponibilizada e, logo, profundamente estudada. Com o aparecimento da gravação em fita magnética no período que se seguiu à II Guerra Mundial, os estúdios começaram a produzir masters mais duradouros e de maior qualidade que proporcionaram à indústria muitos lançamentos na era do vinil. Depois de meados dos anos 80, com a invenção do CD, esses masters voltaram a ser revisitados, reempacotados e vendidos a novas gerações. Finalmente, a imposição da era digital e a transposição de catálogos inteiros para as plataformas de streaming levaram também as editoras a apostarem em produtos premium para colecionadores, com luxuosas edições físicas em CD e vinil a obrigarem, uma vez mais, os curadores dos catálogos a mergulharem com rigor científico nos arquivos que resguardam a história, procurando novas fontes de receita na era da frenética contabilização de frações de centavo por cada “play”.

Nos últimos anos, essa realidade motivou o aparecimento no mercado de cobiçadas edições de grandes nomes da história da música, dos Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Bob Dylan a nomes de referência do universo erudito, como Leonard Bernstein ou Philip Glass, e, claro, dos mais lendários gigantes do jazz, com as obras de nomes como Miles Davis ou de catálogos como a Verve a merecerem lançamentos repletos de extras, raridades e inéditos até aqui escondidos nos arquivos. Tudo para apelar a uma minoria que ainda não desistiu da ideia de posse física das suas obras favoritas.

É, por todas as razões aqui apontadas, incrível que o material agora revelado tenha estado longe do alcance dos editores e investigadores que há décadas abordam a obra do autor de "A Love Supreme". Para entender o que significa a edição agora de uma sessão realizada a 6 de março de 1963 é preciso ter noção de que as discografias jazz funcionavam, mesmo nesta altura, quando a cultura pop já ia ditando novas regras na gestão de carreiras, de acordo com parâmetros muito singulares. Os solistas, permanentemente na estrada, registavam sessões que depois iam sendo organizadas em “álbuns”, com os nomes mais relevantes a poderem assinar vários trabalhos no mesmo ano: por exemplo, de duas sessões gravadas a 11 de maio e 26 de outubro de 1956, Miles Davis extraiu os famosos álbuns "Relaxin’, Cookin’, Workin’" e "Steamin’"; o também trompetista Donald Byrd, em 1960 e 1961, lançou 8 álbuns como líder, mas trabalhou igualmente de forma intensa como sideman de vários outros nomes importantes; e no mesmo ano em que Coltrane gravou o material de "Both Directions at Once", o pianista Thelonious Monk apresentou nos escaparates 7 novos títulos da sua então já extensa discografia.

Muitas vezes, estas sessões eram marcadas pelos líderes porque do constante trabalho nos clubes resultavam frequentemente novas ideias e abordagens que era preciso documentar, sob pena de a próxima fornada de ideias numa era turbulenta de criatividade poder fazer esquecer fases relevantes. E no arranque de 1963, John Coltrane, McCoy Tyner, Elvin Jones e Jimmy Garrison eram uma poderosa célula de frescura e invenção. Nas extensas notas de capa de "Both Directions at Once", o Ashley Khan descreve a música do “quarteto clássico” nesta fase como tendo “uma intensidade frontal que não se encaixava facilmente nos standards da tradição de onde vinham. As suas performances”, acrescenta Khan, “causavam suor e suspendiam as regras do tempo e do espaço. Juntos, eles invocavam espíritos, injetando a mensagem de êxtase da igreja negra no educado mundo do jazz: o domingo de manhã num sábado à noite”.

Coltrane fazia parte do catálogo da Impulse desde 1961, ano em que se estreou na icónica editora comandada por Creed Taylor com o espantoso "Africa / Brass". No ano seguinte, Coltrane foi o primeiro álbum a contar exclusivamente com o quarteto clássico e no arranque de 1963, um mês antes da sessão de "Both Sides At Once", Coltrane viu ser editado um álbum colaborativo com Duke Ellington, gravado no início do outono anterior. De certa forma, John Coltrane, com o estabelecimento deste quarteto, que se seguiu a um período de explosiva procura documentada nas gravações de 1961 no Village Vanguard, deu um passo atrás e adotou uma postura mais reflexiva e aparentemente conservadora, com o constante trabalho ao vivo sobre os principais momentos da sua discografia, incluindo a sua soberba leitura de 'My Favorite Things', a servir para refinar o seu som e cimentar a sua linguagem. O escritor Ben Ratliff, em "Coltrane – The Story of a Sound", refere que o período que se seguiu ao sucesso obtido com a versão do clássico de "Música no Coração" e que se estendeu até ao álbum "A Love Supreme", de 1964, “parece ter sido uma era de tentativa e erro, de equilíbrio”. Entre o arrojo das ideias e o refinamento estético do som. A convulsão, explica ainda Ratliff, era também emocional e romântica, com 1963 a ditar o fim do seu casamento com Naima.

John Coltrane em Amesterdão, outubro de 1963

John Coltrane em Amesterdão, outubro de 1963

Getty Images

Quando o músico abandonou o seu lar, deixando todas as suas posses com a mulher, Naima, terá muito provavelmente esquecido a caixa com o registo da sessão de 6 de março. E o mistério começa a compor-se

Coltrane casou com a mulher que inspirou a sua famosa composição 'Naima' em 1955. Juanita Grubbs, de seu verdadeiro nome, já se tinha convertido ao Islão e as suas crenças religiosas influenciaram o saxofonista, que usou a espiritualidade para ultrapassar o seu problema de dependência de drogas e álcool. Juntos, Coltrane e Naima mudaram-se para Nova Iorque em 1957 e, um par de anos mais tarde, compraram casa em Queens, onde residiram até o músico sair de casa, no verão de 1963. Em "Chasin’ The Trane", de J.C. Thomas, Naima recorda o fim do seu casamento: “Sabia que iria acontecer mais tarde ou mais cedo, por isso não me surpreendeu realmente quando o John saiu de casa. Ele disse-me apenas que havia coisas que precisava de fazer e saiu só com as roupas e os instrumentos”. Para trás ficaram todos os seus outros pertences, incluindo bobines da sessão de 6 de março registada no estúdio de Rudy Van Gelder. Naima morreu vítima de um ataque de coração em 1996 e isso ajuda a explicar porque só agora se descobriram estas preciosas gravações.

Depois de se mudar para a Impulse, Coltrane passou a entender a sua discografia como um conjunto de marcos de um percurso artístico e espiritual que desejava ver o menos perturbado possível pelas estratégias da indústria. O sucesso obtido com a sua releitura de 'My Favorite Things' levou, no entanto, a que editoras com que tinha trabalhado anteriormente tentassem capitalizar no seu estrelato, inundando o mercado com álbuns feitos a partir de sessões que já não representavam o momento em que o saxofonista se encontrava. Coltrane era, por isso mesmo, muito zeloso do seu output e, como explica Ashley Khan, tinha acordado com a sua editora que as gravações efetuadas só deveriam ver a luz do dia se se encaixassem com o que pretendia dizer ao mundo em cada momento. Explica o especialista na obra do saxofonista nas notas de "Both Sides At Once" que Coltrane haveria de regressar ao estúdio de Rudy Van Gelder na manhã de 7 de março, para registar nova sessão com o cantor Johnny Hartman (lançada como "John Coltrane and Johnny Hartman" em julho de 1963) depois de, na noite anterior ter, uma vez mais, tocado no Birdland, mítico clube da Broadway. Época agitada, portanto, tanto em termos pessoais e emocionais como profissionais.

No final de uma sessão, Van Gelder arquivava as fitas no armário reservado ao seu cliente Impulse. Quando o saxofonista faleceu em 1967, a editora recolheu todos os masters na posse do engenheiro de som e pouco tempo depois, quando a empresa se mudou de Nova Iorque para Los Angeles, todas as fitas foram enviados para um armazém na nova cidade. Cortes no orçamento da ABC, a editora que detinha o catálogo da Impulse, ditaram no arranque dos anos 70 que muitos masters, cujo arquivo e manutenção implicava um significativo custo, fossem destruídos e isso deve ter levado esta sessão a cair no esquecimento geral.

Coltrane, como já se referiu, no entanto, tinha uma relação de privilégio com a Impulse, e um dos frutos do seu estatuto era o fornecimento por parte dos engenheiros de som com que trabalhava de cópias em bobine mono das sessões que ia protagonizando. Destinavam-se a posterior audição privada que permitisse ao artista gerir a sua agenda de lançamentos. Quando o músico abandonou o seu lar, deixando todas as suas posses com a mulher, Naima, terá muito provavelmente esquecido a caixa com o registo mono da sessão de 6 de março. E o mistério começa a compor-se.

Poderia ser este ser um simples registo de trabalho, um “treino” para alguma sessão futura, um mero assentar de ideias, ou teria Coltrane pensado mesmo neste material como uma potencial nova entrada na sua discografia?

Ashley Khan devota boa parte do texto desta edição a procurar responder a uma importante pergunta: será este conjunto de gravações mesmo um “álbum perdido”? Poderia ser este material um simples registo de trabalho, um “treino” para alguma sessão futura, um mero assentar de ideias, ou teria Coltrane pensado mesmo neste material como uma potencial nova entrada na sua discografia?

Vários “pormenores” concorrem para suportar a teoria do “álbum perdido”: a duração do material gravado era conforme a capacidade de um LP clássico, com as faixas a encaixarem-se na perfeição na ideia de um lado A e um lado B. Em "Both Directions at Once" há igualmente um equilíbrio entre material mais reflexivo, baladas, e outro que atesta o fogo que o quarteto conseguia gerar ao vivo, um emparelhar de extremos que Coltrane privilegiava à época nas suas edições. É algo que também ajuda a acreditar que este material, a que o músico adicionou algumas notas nas caixas da bobine, sugerindo que poderia estar em busca de títulos para as duas composições que aqui surgem como 'Untitled Original', se destinava de facto a um álbum.

A sessão, de acordo com registos de Van Gelder, decorreu entre as 13 e as 18 horas, de forma a permitir ao quarteto cumprir com o seu compromisso no Birdland. Bob Thiele, produtor que haveria de fundar a notável etiqueta Flying Dutchman, foi o representante da Impulse nestas sessões que decorreram no estúdio do lendário engenheiro Rudy Van Gelder, em Englewood Cliffs, Nova Jérsia. O engenheiro, que faleceu em 2016, aos 91 anos, foi um dos principais arquitetos do som clássico do jazz, um verdadeiro maestro dos microfones, capaz de imortalizar grandes músicos através da sua delicada gestão de ar e frequências registadas em fita magnética, o que torna ainda mais extraordinária a noção de que até finais dos anos 50 trabalhava sobretudo como optometrista.

Van Gelder era notoriamente cuidadoso: insistia que não se podia comer ou beber no seu estúdio, não permitia que ninguém mexesse nos seus preciosos microfones, que manuseava sempre com luvas, e era muito cioso dos seus métodos de captação, sendo normal, quando os músicos eram fotografados no estúdio, pedir aos fotógrafos para remover primeiro os microfones das suas localizações corretas para não revelar aos seus concorrentes quaisquer pistas sobre o seu som. E “catedral” é um termo muito usado para o descrever. O patrão da Blue Note, Alfred Lion, acreditava que Gelder podia usar e abusar do “reverb”, e Charlie Mingus recusava-se mesmo a gravar com o engenheiro por entender que os seus métodos alteravam a “cor” do som dos músicos, mas entende-se que Coltrane, em busca de uma sonoridade que espelhasse a sua espiritualidade e a própria experiência religiosa negra na América – a tal ideia avançada por Khan de “domingo de manhã no sábado à noite” – se sentisse confortável neste estúdio de pé direito elevado onde o engenheiro manuseava os microfones como se de verdadeiras relíquias se tratassem.

Este é um precioso tesouro que Ravi, filho de Coltrane, oferece agora ao mundo

A música contida (ou libertada, na verdade...) em "Both Directions At Once" – um título que se refere a um comentário que Trane fez a Wayne Shorter quando explicou que a sua música era como uma frase começada a meio com o solista a tentar depois ir para o início e para o fim da frase ao mesmo tempo – é vibrante, plena de ideias e reflete um momento de intensa criação: 'Nature Boy', o tema do proto hippie Eden Ahbez que foi um hit na voz de Nat King Cole, tinha começado a ouvir-se nos sets do Birdland e traduzia a procura de estímulos de 'Trane' na música popular, como tinha acontecido com 'My Favorite Things'; o mesmo se pode dizer de 'Vilia', tema de Franz Léhar para a opereta "The Merry Widow" que o saxofonista aborda tanto no tenor como no soprano.

Os originais sem título também resultavam de ideias que andavam a ser testadas no palanque do Birdland, estudos em torno dos blues que Coltrane pintou de forma intensamente lírica com o seu soprano. O tema 'One Up, On Down' (original que já se conhecida de um bootleg que documentava uma noite no Birdland) é executado no tenor.

A peça mais abordada nesta sessão é 'Impressions', um tema que Coltrane trabalhou intensamente ao vivo durante anos, e que aqui, na edição especial e aumentada de "Both Directions At Once", é mostrada em quatro takes diferentes que revelam a capacidade de genial invenção que Coltrane possuía, sendo perfeitamente capaz de expandir ou contrair o seu discurso a cada nova passagem pelo tema. Esta música haveria de dar título a um famoso álbum também lançado em 1963, mas para esse registo o saxofonista acabou por escolher uma versão do tema registada ao vivo no Village Vanguard, em 1961.

Finalmente, 'Slow Blues' parecia refletir a ideia contida no título do álbum, com o músico a partir da tradição em direção ao passado e ao futuro ao mesmo tempo, com um registo discursivo pautado por uma inventividade em que Coltrane haveria de se embrenhar cada vez mais, até ao seu falecimento, aos 40 anos.

Mais de meio século após o seu desaparecimento, John Coltrane confirma assim que existe 'vida' depois da morte e que as grandes criações são eternas e resistem ao tempo. Mesmo que tenham que esperar mais de meio século para chegarem finalmente aos ouvidos de uma geração que não teve a oportunidade de escutar o génio quando este era vivo. Guardadas num armário, estas fitas mono continham afinal um precioso tesouro que Ravi Coltrane, filho do malogrado saxofonista, agora oferece ao mundo. Para que todos possam também perceber como se chega a dois destinos ao mesmo tempo: basta fechar os olhos e meter este disco a tocar.