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Arlindo Camacho

Janeiro não é só um cantor romântico ou um “beatmaker”. Entrevista com o músico que Salvador Sobral mostrou ao país

Tem 24 anos, um curso de Musicologia e a fama inesperada conquistada com a participação no Festival da Canção, a convite do amigo Salvador Sobral. Henrique Janeiro acaba de lançar o primeiro álbum e explicou à BLITZ porque é que não se arrepende de ter trocado Gestão pela música

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Depois de uma participação marcante no Festival da Canção, para cuja final conseguiu apurar-se, Janeiro acaba de lançar o seu primeiro álbum. “Fragmentos”, contou à BLITZ este autor e intérprete, é um espelho fiel do ecletismo das suas referências - de Frank Ocean a John Mayer, passando por Rui Veloso - e vai andar na estrada nos próximos meses. Mais uma forma de os fãs comunicarem com o jovem Janeiro, que faz questão de ter uma ligação próxima com o seu público.

Acaba de lançar o primeiro álbum. Costuma dizer-se que um músico tem a vida toda para preparar a sua estreia... Qual a sensação, agora que o disco está cá fora?
É uma sensação de alívio! Eu sou muito exigente comigo, então fechei-me numa bolha quase introspetiva, a compor e a escrever tudo. Depois veio a parte no estúdio... é um processo algo solitário! Mas agora quero é tocar.

Por falar em processo solitário, sempre se apresentou a solo, ou chegou a ter alguma banda?
Isto começa tudo com uma bandinha que eu tinha em Coimbra! Eu sou de Coimbra e fazia canções em inglês, lá, mas depois a malta não queria a música e fiquei só eu. Mas neste disco trabalho com um produtor - foi todo coproduzido com o Kid, o João Gomes - e há uma banda a tocar comigo... Quando digo que o processo é solitário, refiro-me ao trabalho de escolha. “Que som é que vou usar?”. Daí falar de alívio, ao lançar o disco.

Uma pequena apresentação de Janeiro para o nosso estimado público. Nasceu em Coimbra, em 1995?
1994!

E veio para Lisboa estudar. Com que idade, 18?
17 ou 18. Nessa idade, quando começa a faculdade.

E como foi chegar a Lisboa com essa idade?
Foi incrível, porque vim para Lisboa estudar na Escola Superior de Música, mas não entrei e o plano B era [ingressar] na Universidade Nova, para estudar Musicologia, e ao mesmo tempo estudar no Hot Clube, o que é um bocado marado, porque não tinha tempo para mais nada. Por um lado estudava uma música mais erudita, por outro jazz, que também é erudito... Tinha um lado mais teórico e outro mais prático, então foi uma esfrega! Mas foi muito bom, porque nunca perdi tempo na minha vida pessoal, e também porque ganhei bases sólidas e um chão. Depois, claro, saio da FCSH [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas] e do Hot Clube e o meu primeiro instinto foi pensar: “vou fazer as minhas canções e lançar um disco meu!”. Eu digo “claro” como se isto fosse muito óbvio, mas para mim era, porque desde pequeno que tinha esse bichinho. Fazer as minhas canções e expressar-me exatamente como queria.

Lembra-se da primeira canção que escreveu, ainda em criança, possivelmente?
Não sei ao certo, mas lembro-me de estar nas escadas lá de casa e pensar: a acústica aqui está tão boa! Então escrevia as canções todas nessas escadas, o que acho que é normal nos músicos - [procurarem] a casa-de-banho, ou um sítio com imenso reverb

Mas era em português ou em inglês?
Em inglês. Eu só começo a escrever em português aos 18 anos. É aí que começo a respeitar mais a língua... Já respeitava, mas aí comecei a respeitar o que eu próprio estava a escrever.
Tive de perceber de que forma é que me podia expressar na minha própria língua. Quando estamos a falar na nossa língua, sentimos mais pudor. [Quando falamos noutra língua], parece que as palavras não são nossas, e quando não são nossas, é mais fácil dizê-las.

Janeiro

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O seu percurso é curioso, na medida que foi a sua mãe que lhe disse para não seguir um curso como Gestão e explorar antes a sua paixão, certo?
Eu já tinha dito à minha mãe que curtia ir para música, mas tinha os pés assentes na terra. E houve um dia em que ela me disse: sei que estás a fazer tudo para ir para Gestão, e também estudaste Economia, mas qual é a razão para não ires para música? Tem sempre a ver com a questão financeira, o dinheiro controla as pessoas...

E ainda não se arrependeu de ter escolhido a música?
Ainda não me arrependi nem por um segundo, até porque está tudo a correr muito bem... Este disco novo é bebé, tem 17 dias, e as pessoas estão a recebê-lo de forma muito bonita. Eu chego aos concertos e as pessoas estão a cantar todas as canções! Há sempre os singles, que as pessoas agarram mais, mas as pessoas estão a cantar todas… É uma sensação incrível.

Há poucos dias na ZDB, o Tim Bernardes chamou às canções que passamos à frente “a faixa 9”... aquelas de que inicialmente não gostamos, mas acabam por tornar-se as nossas favoritas.
Isso acontece-me imenso! Há uma canção que pus no disco mesmo no final do processo, 'Contas no Estrangeiro', que agora, para mim, é a canção mais agradável de ouvir. Talvez por ter sido a última que fiz? Estava mesmo a fechar o disco e pus lá a guitarra – acho que fiz bem.

Nos comentários dos seus vídeos no YouTube, os seus fãs deixam-lhe bastantes mensagens. Tem ali uma via de comunicação aberta com eles?
Sim, eu gosto de responder às pessoas. Houve uma altura em que pensei: não vou estar a responder a toda a gente. Mas depois pensei: porque não? Se as pessoas querem entrar em contacto comigo... é importante ter essa ligação com o público. Porque o que é o público? São pessoas que gostam de ti e que perceberam a tua mensagem. Enquanto eu puder responder a toda a gente, vou tentar.

Tornou-se bastante mais conhecido do grande público depois de participar no Festival da Canção. Ainda o abordam na rua à conta desse momento?
Bastante! Depende da cidade, e do sítio onde estou, mas abordam-me imenso e dizem-me: “tu é que devias ter ganho!” Eu gosto muito que as pessoas me abordem, porque fui ao Festival da Canção apresentar-me como artista. Se me estão a abordar é porque gostaram da canção, e isso é bom. Mas se me vierem falar dos resultados, como se fosse um campeonato… aí já não me interessa muito.

O Festival da Canção gerou uma grande intensidade na reação das pessoas...
Sim, eu tentei gerar um descomprometimento em relação a isso. São canções. Estamos a cantar, é uma coisa leve, feliz! Mas as pessoas levam as coisas muito a sério! E depois a Eurovisão [levou tudo a] um nível mais patriótico ainda.

Alguma vez ponderou não incluir a canção que levou ao Festival da Canção, '(sem título)', no seu primeiro álbum?
A meio do processo eu compreendi: se me estou a apresentar com esta narrativa, faz todo o sentido que, no disco que lanço a seguir, a canção esteja lá. As pessoas perguntavam-me: “esta canção poderia estar no teu trabalho?” Ou: “vais levar esta canção para ganhar?”. Não, este é o meu novo disco e a canção está cá e é das principais. O disco tem três singles até agora - a 'Canção Para Ti', 'Preguiça' e '(sem título)' - e a '(sem título)' é uma das principais. Para mim, foi importante incluí-la no disco.

Escreveu a canção a convite do Salvador Sobral, ou aproveitou alguma ideia que já tivesse preparada?
A convite, sim.

E funciona bem assim, seguindo o convite ou o mote de outro artista?
Muito bem! Quem quiser, basta marcar o 91... (risos) Funciono bem, se conhecer a pessoa. Sou muito idiossicrático e acho que [facilmente] consigo gerar empatia com alguém. Consigo perceber qual é a energia da pessoa, e uma canção tem sempre a ver com a sua vibe, com o seu mood. Se eu conhecer a pessoa - e isso aconteceu com a Ana Bacalhau - acho que consigo escrever para ela.

O Luís Severo diz que, para escrever para a Cristina Branco, leu bastante sobre ela...
(Risos) Eu gostaria mais de estar com a pessoa do que propriamente ler sobre ela. Beber um copo, jantar com ela. Ter uma proximidade com o seu mood, sentir o que ela é ou de que forma se comporta com os outros. Acho que isso é mais importante, porque depois também há nuances na forma como ela vai cantar determinada coisa, ou dizer, porque a música é isso!

Já conhecia a Ana Bacalhau quando ela o convidou a escrever para o seu disco a solo?
Sim, escrevi duas canções para este seu novo disco e já a conhecia antes, por isso fez todo o sentido. Ela mandou-me o pedido, eu mandei-lhe as canções passados dois dias. Foi super rápido!

E como é ouvir, depois, as suas canções na voz da outra pessoa?

É incrível, muito bom! Há um ano e meio fui ao estúdio [onde a Ana Bacalhau estava a gravar] e comecei a chorar. Fiquei muito emocionado, porque encontrei o Filipe Melo a fazer um arranjo de quarteto de cordas na minha canção. E eu: uau, que bonito! Eu que adoro o Filipe Melo... Entrei nos Atlantico Blue Studios e eles estavam a fazer o arranjo para a canção que eu tinha composto, o que é uma sensação incrível. E depois ouvir a Ana a interpretá-la também é.

Há algum músico para quem gostasse muito de fazer uma canção?
Há. Eu gostava de fazer canções para o Rui Veloso, curiosmente. Ou para o JP Simões... Mas para o Rui Veloso seria um desafio interessante: dar-lhe um mood novo? Ele compõe tão bem, não sou ninguém para lhe estar a dar canções. Mas gostava imenso de escrever para ele.

Sei que é fã do Rui Veloso. O que mais admira nele?
O que mais admiro nele é a capacidade de pegar numa letra - que são quase todas do Carlos Tê - e compor uma melodia tão bonita sobre uma harmonia tão simples. E de repente aquelas canções tornam-se de toda a gente... Acho que é mesmo a capacidade de compor. A forma simples como põe as coisas numa canção. E claro, a forma como ele toca guitarra!

No seu caso, compõe e escreve as letras?
Sim, eu escrevo e componho tudo.

Não precisa de um Carlos Tê...

(risos) Eu gosto de abrir o jogo, para tudo! Até podem compor para mim, ou escrever para mim. Estou sempre aberto a novas coisas, nunca fecho a porta a nada. Mas até agora não precisei de um Carlos Tê.

Pensa mais em si como intérprete ou compositor?
Penso em mim quase como um cantautor. Muito mais compositor do que intérprete. Mas gosto tanto de interpretar as canções que [a coisa] flui naturalmente e acabo por fazer tudo. (risos)

Arlindo Camacho

Quem são os seus intérpretes favoritos?
Pergunta difícil! Mas Frank Ocean. Está a fazer discos com muito power. Gosto imenso do John Mayer, também. Gosto de toda a estética que ele cria à volta das coisas – o descomprometimento de que eu estava a falar, ele tem imenso. Vê um lado humorístico, quase cínico, na canção. Nós estamos a compor canções, é suposto ser uma coisa leve e descomprometida… O John e o Frank são os que eu ouço mais.

Artistas bem distintos...
Se calhar à primeira vista! Eu ligo-os muito. Na forma como chegam às pessoas talvez sejam diferentes - se calhar vês o Frank Ocean mais como rapper... - mas eles até têm coisas juntos.

O título do disco, “Fragmentos”, tem a ver com essa dispersão, esse ecletismo das referências?
Tem dois sentidos. “Fragmentos” porque cada canção parece um pedaço de mim, uma vivência minha, um fragmento da minha vida. Mas também porque o disco é muito desfragmentado em termos de género musical. De repente levas com um beat eletrónico, a seguir com um blues... e pensas: mas isto é o Janeiro? O meu objetivo é que tu sintas que eu estou lá. Mas eu acredito que já está tudo tão feito que ir atrás só de um género seria limitado. Não quero limitar a forma como me mostro às pessoas, porque não sou só um cantor romântico, ou um beatmaker... sou uma junção dessas coisas todas. Acabo por ser um aglomerado de tudo o que ouço. É curioso, porque apanhas-me a ouvir João Gilberto e a seguir tecno, e no meio disso há qualquer coisa que se junta.

Quando partiu para a gravação do disco, já ia com essa ideia de dispersão?
Sim, isso também já estava patente no EP [“Janeiro”, de 2015]. O que eu pensei foi: ou crio uma história, e há uma narrativa por detrás de tudo e vai andar sempre na mesma vibe, ou então desconstruo o facto de ser necessário haver uma história para o disco e a história passa a ser a ausência de história! E aí surgem os fragmentos. Acho mais interessante a ausência de história, porque também há uma ausência de sentido na forma como vejo a vida e como construo toda a minha obra.

Na faculdade, além de Musicologia também estudou Literatura?
Sim, fiz umas cadeiras! Uma de Literaturas Marginais, uma cadeira incrível com o Rui Zink, e uma de Estudos Pessoanos, com o Fernando Cabral Martins, em que abordávamos muito o Fernando Pessoa. E também umas coisas de cinema... Deu para abrir as portas a outro tipo de arte. Para mim, que já faço um pouco de tudo, é limitado fazer um vídeo sem pensar como é que quero que ele chegue às pessoas, ou quais são os planos que posso dar ao realizador para ele fazer… Quando fiz o vídeo de 'Canção para Ti', houve um brainstorm enorme entre as minhas referências e as do realizador, para chegarmos a um equilíbrio entre a sua visão e o meu mundo.

Acredita que o facto de hoje termos músicos que escrevem e cantam em português, como Samuel Úria ou B Fachada, faz com que essa tarefa pareça mais fácil a quem está a começar?
Pode ser mais fácil, porque eles deram o toque de partida. Por isso, já temos uma referência. Mas parece-me que continua a ser difícil, continua a ser um desafio complicado. Escrever para canção é sempre complicado. Eles deram aquele boost inicial... eles e mais malta antes, em que também se inspiraram. O Alberto Pimenta, que não é escritor de canções, o José Mário Branco Branco…

Também escreve noutros formatos, sem ser para canção?
Sim, escrevo imenso! O poema da '(sem título)' era todo um poema - até o publiquei! Às vezes a letra sai-me inteira, outras tenho uma canção e vou buscar a um poema que já escrevi as partes com que me identifiquei mais ou que apanham o sentido geral do poema. Porque a canção é isso: é conseguires aglomerar, de forma simples e direta, para as pessoas perceberem do que estás a falar... E a '(sem título)' foi isso: fui buscar pedaços, fragmentos de um poema que tinha e que não tinha título, curiosamente, para aglomerar na canção.

Numa das Janeiros Sessions que tem filmado com outros músicos, cantou uma versão de 'Santa Chuva', de Marcelo Camelo, com o Salvador Sobral. Sei que também gosta do Rodrigo Amarante... Qual a sua relação com a música brasileira?
É ótima! Ainda há pouco falava do João Gilberto, que tem um disco, o “In Tokyo”, no qual estou completamente viciado. Nele, ele faz todas aquelas bossas clássicas... E, como eu estudei jazz, acabábamos por estudar alguns standards da bossa [nova]. Mas também [gosto da] MPB nova que está aí a surgir. O Rodrigo [Amarante] e o seu último disco, “Cavalo”, que é genial... E o Marcelo [Camelo], claro. Essa canção, 'Santa Chuva', nós já a cantávamos há imenso tempo quando a decidimos fazer ali - e acho que saiu mesmo bem.

Ainda sobre o curso de Musicologia, qual a melhor coisa que retirou dessa formação académica?
Conhecer pessoas de muitas áreas diferentes. Há pouco falei da literatura e do cinema, dos tradutores, mas nas ciências musicais e na musicologia [a vantagem] era teres amigos que têm uma banda rock, depois um gajo que faz tecno e a seguir alguém que está maluco com os ritmos africanos e não para de estudar Etnomusicologia. Levas com aquilo tudo e ficas assoberbado com tanto género musical que existe. Depois crias uma relação ativa com essas pessoas, que te convidam para ires ao seu estúdio ver como tocam, e estás a sugar de cada um aquilo que te interessa. Acho que isso é o melhor do curso.

E vir para Lisboa também o ajudou a abrir o leque de pessoas com quem contacta?
Completamente. O meu trabalho é todo à noite. (risos) Outro dia um amigo dizia-me: tu podes ir ao Lux e trabalhar! E é isso que acontece. No Lux não sei, mas em Alfama passo noites a cantar e a conhec
er compositores, em troca de canções e ideias... fala-se de tudo.

“Fragmentos”, o primeiro álbum de Janeiro, já está nas lojas. Pode consultar aqui as datas dos seus próximos concertos.

Veja aqui os videoclipes de 'Preguiça' e de '(sem título)':