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Rita Carmo

Há um fogo de artifício antes do fogo de artifício. O espetáculo de gala dos Killers no Rock in Rio

A banda de norte-americana fez do Parque da Bela Vista o 'ballroom' de um casino de Las Vegas. O apresentador de serviço? Brandon Flowers

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Nota: como já é tradição, não foi permitido o trabalho de fotógrafos profissionais no concerto dos Killers

Comecemos pelo fim, até porque foi pelo fim que uma grande parte do público ansiou ao longo do concerto dos Killers, esta noite, no Parque da Bela Vista. Expliquemo-nos, para que não soe a equívoco: é com a cintilante, estratosférica, flamejante, über-otimista 'Mr. Brightside' que os Killers terminam os seus concertos. E é precisamente no epílogo, aqui disfarçado de encore de festival, que os fãs dos Killers professam de forma mais desabrida a sua admiração pelos ídolos - e vemos gente a chorar, de mãos no peito, nas primeiras filas.

Não vamos tão longe ao considerar que 'Mr. Brightside', esse inspirado condensado de pop/rock fervilhante sacado logo à primeira (é do álbum de estreia, "Hot Fuss", publicado no ano da graça de 2004), é uma canção maior do que os seus criadores, mas dificilmente - em cinco álbuns e cerca de quinze anos de azáfama - Brandon Flowers e companheiros encontrarão outro 'tiro' tão certeiro.

Acabou bem, portanto, um concerto que teve tanto de comprimido pop (na verdade, o expediente durou menos de uma hora e meia) como de gala de casino. Assim é a banda de Las Vegas: um híbrido de new wave com rock FM, uns pós de pop eletrónica dos anos 80, aparato 'over the top', cada acorde hiperbolizado, cada trejeito vocal com perfume épico, cada dramática cavalgada instrumental a terminar em redenção - materializada nos coros onomatopaicos que, no seu tempo, os Arcade Fire instigaram. Assim é Brandon Flowers, mestre de cerimónias 'extraordinaire', dentição digna de 'outdoor' publicitário, indumentária que assentaria tão bem ao 'croupier' do Golden Nugget Las Vegas Hotel & Casino, como ao primo Zé Luís, que vai tocar órgão no casamento da Soraia, ou a João Baião a meio caminho entre o poiso do DJ Pantaleão e o colo de Ágata no "Big Show SIC" circa 1996.

O 'show' começa com 'The Man', uma das duas músicas de "Wonderful Wonderful" (2017) esta noite interpretadas (a outra foi 'Run For Cover'), e desde logo encontramos uma faceta relativamente nova nos Killers: um funk sintetizado herdado dos anos 80, com direito a coro feminino (três mulheres numa banda de seis rapazes crescidos). Desconcertante, como aposta de abertura. O desacerto é corrigido à segunda oportunidade, uma 'Somebody Told Me' (de "Hot Fuss", claro, o álbum mais contemplado na contabilidade final do alinhamento) pontuada por uma propulsão bombástica, primeiras mostras da parafernália do baterista Ronnie Vannucci Jr, dominador da peles. Aliás, a dupla 'resistente' Flowers/Vannucci é o 'beating heart' dos Killers em 2018, depois de tanto Dave Keuning (guitarra) como Mark Stoermer (baixo) se terem fartado da vida de estrada - os seus subtitutos são não mais que discretos 'figurantes' a quem raramente é concedido 'tempo de antena'.

Se algumas canções decalcam a new wave americana do início dos anos 80 ('Spaceman'), outras entram mesmo no território da 'power ballad' da mesma década, com Flowers a assumir vocalizações teatrais, pausas dramáticas, e a haver sempre espaço para mais uma escalada épica nas guitarras. O povo não reage de igual forma aos êxitos consagrados e ao 'filler' de meio de carreira: aqui e ali somos assolados pelo pesadelo pop yuppie, com algum caruncho a entrever-se nos sintetizadores, ao ponto de 'Smile Like You Mean It', mais um regresso a 2004, parecer quase uma discreta maqueta, tão sóbria e concisa que é na sua economia pós-punk. O pico da faceta megalómana dá-se nesse objeto virulento intitulado 'Runaways', onde Flowers e parceiros se mostram possuídos pelo demónio de Meat Loaf e Jim Steinman, tal é a adiposidade dos crescendos.

Sabiamente, os Killers jogam com um leque eclético perto do final, o lado comunal dos Arcade Fire de 2004 em 'All These Things That I've Done' (pura coincidência, já que "Funeral" é do mesmo ano de "Hot Fuss"), uma leitura musical do rock americano em 'When You Were Young' (um dos vestígios de "Sam's Town", de 2006), a robótica dançável de 'Human' (com um dos refrões mais estrambólicos da pop) e, já dissemos, a infalível 'Mr. Brightside'. Não é como começa, é como acaba - já alguém disse no futebol. Se formos por aí, ninguém se chateia.