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Beach House “prontos para o desconhecido”: depois de “7” nada vai ser como era antes. A entrevista BLITZ

Sétimo álbum da dupla de Baltimore marca uma transformação e a vocalista e multi-instrumentista Victoria Legrand falou sobre o trabalho com o “feiticeiro” Sonic Boom, a história de amor que mantêm com Portugal e canções que são políticas sem o serem abertamente

Os Beach House tornaram-se um dos nomes fortes da música independente americana quando, em 2010, o terceiro álbum, “Teen Dream”, os lançou em altos voos. Oito anos passados, e três discos depois, a dupla composta por Victoria Legrand e Alex Scally acusou o toque e decidiu abrir a sua sonoridade muito própria a novas interferências. Para tal, os dois músicos decidiram mudar de produtor e convidaram Sonic Boom (ex-Spacemen 3, atualmente a residir em Portugal) para os ajudar a viajar por novos territórios. O resultado dessa colaboração chama-se “7”, um sétimo longa-duração que deixa em aberto o futuro da dupla, disposta a continuar a trocar as voltas ao destino.

A BLITZ falou com Legrand sobre o novo registo, os significados do número 7 que os levaram a escolher um título “simples”, os tempos conturbados e a luta feminista que influenciaram a escrita das 11 canções, mas também sobre a história de amor que vivem com o público português e aquilo que querem fazer daqui em diante. “Não sei o que vai acontecer nos próximos dois anos, mas sei que não há surpresas. Não temos mais nenhum disco para sair”, garante, referindo-se ao facto de, em 2015, terem editado dois álbuns no espaço de curtos meses, “não vamos fazer isso novamente”.

Grande parte das canções incluídas neste “7” trazem novos ambientes à sonoridade distintiva dos Beach House. Foi fácil encontrar um equilíbrio entre novos sons e a vossa identidade?
Bom, eu diria que foi extremamente natural, porque estávamos preparados. Foi a altura certa. É essa a loucura desta vida. No geral, não podes controlar aquilo que vai acontecer a seguir. E penso que com a quantidade gigantesca de trabalho que tínhamos feito em discos anteriores e o facto de termos trabalhado com o Chris Coady, da mesma forma, em quatro álbuns, uns a seguir aos outros, nos sentíamos cansados de sistemas antigos. Portanto, estávamos prontos e recetivos. O novo material começou a manifestar-se e saiu-nos muito rápido. Sabíamos que não podíamos tratá-lo da mesma forma como tínhamos feito as coisas no passado.

Contaram com a ajuda de Sonic Boom na produção. Trouxeram-no para bordo logo no início ou só o convidaram quando já tinham as canções em mãos?
Já tínhamos algumas canções escritas quando começámos a falar sobre convidar alguém diferente para trabalhar connosco. O nome dele surgiu de forma muito espontânea. O Alex chegou ao pé de mim e perguntou-me o que achava de ele tentar entrar em contacto com o Sonic Boom. Disse-lhe: “força, vê o que acontece”. Ele podia rejeitar-nos… Mas estabeleceu-se comunicação e… como já estávamos a escrever e tínhamos mais ou menos a noção de quando começaríamos a gravar começámos a discutir como gostaríamos que as coisas se passassem. Explicámos-lhe que queríamos partir as sessões de gravação, que não queríamos estar em estúdio mais do que duas semanas seguidas. E foi assim que fizemos as coisas. Pegámos em quatro ou cinco canções de cada vez e trabalhámos nelas muito rapidamente e com muita liberdade. O Sonic Boom foi, definitivamente, a pessoa mais indicada para trabalhar connosco neste álbum.

O que conseguiu ele arrancar dos Beach House que vocês nunca tinham pensado que conseguiriam fazer enquanto músicos?
O que ele fez foi encorajar coisas que sempre tivemos dentro de nós próprios e até acreditávamos que estávamos a fazê-las, mas, por qualquer razão, havia sempre algo ou alguém que as impedia de se manifestarem. Não sei porquê. Não temos arrependimentos, de todo, mas ele entendeu-nos facilmente e foi como se estivéssemos a trabalhar com alguém que nos era familiar. Ele relembrou-nos, através de ações não de palavras, que nada é impossível. Quando experimentávamos com novos sons, ele sentava-se e começava a brincar com eles. O início de ‘Drunk in L.A.’ tem aquele som que parece um chiar elétrico… ele criou-o filtrando duas coisas uma através da outra. Nunca tínhamos feito nada disso no passado e ele fê-lo um pouco por todo o álbum… Há coisas espalhadas pelo disco que resultam do toque mágico do Sonic Boom, do seu toque retorcido de feiticeiro. Só tê-lo ali presente mudou a nossa energia em estúdio e mudou-nos enquanto artistas. Estamos nesse ponto da nossa carreira: prontos para isto e para mais mudança.

“7” sai um ano depois de “B-Sides and Rarities”. Ter editado essa compilação, que juntava pontas soltas, fez com que este novo álbum se tornasse uma espécie de novo começo para os Beach House?
Estávamos tão apaixonados pelo processo que nos limitámos a fazer as coisas sem pensar muito sobre o assunto. No decorrer do processo de composição e gravação olhávamos um para o outro e percebíamos simplesmente que estávamos a viver um período fantástico. Não queríamos que parasse… E penso mesmo que, psicologicamente, colocar o passado numa coleção organizada foi uma espécie de tomada de posição, dizer “isto está feito. E não sabemos o que vem aí, o que vai acontecer, mas não vai ser igual a isto”. Sabíamos que o que viesse a seguir não ia soar aos “B-Sides”, ao “Teen Dream”… Estávamos prontos para o desconhecido. Está tudo ligado, mas quando criamos alguma coisa estamos mesmo compenetrados, porque parece que nunca há tempo suficiente. A ação é muito importante… Este álbum estava pronto para sair e queria chamar-se “7”. Tentámos encontrar outros títulos…

Ia perguntar precisamente isso… O número 7 tem um significado especial? Interessam-se por numerologia?
A “possibilidade” é algo que me interessa. E, também, o facto de “7” ter a potencialidade da numerologia e de espiritualidade, de permitir muita coisa em termos de desenho. É uma imagem icónica. Pode ser um número, mas dá corpo a este álbum agora. Ganhou outro significado para nós, representa este momento das nossas vidas. E há outras pistas ao longo do álbum, coisas nas canções que aludem ao significado do número sete.

A capa de "7", dos Beach House

A capa de "7", dos Beach House

Li que uma das coisas que inspiraram este álbum foi a corrente discussão sobre os problemas que afetam as mulheres… É verdade?
Não é verdade… É algo que não conseguimos transmitir como queríamos na informação que foi enviada aos jornalistas. Falámos sobre o assunto, sobre aquilo que todo o mundo está a experienciar neste momento, apenas para descrever o contexto geral em que este álbum se insere… Estamos a viver estes tempos negros e caóticos, de mudança, em que o mal está a ser arrancado pela raiz, de uma forma louca, mas não desaparece. Parece uma infeção: insistimos em tomar antibióticos, mas ela volta sempre. Era a isso que nos referíamos. Não estávamos a tentar transformar este álbum em algo abertamente político. Simplesmente, canalizámos essa escuridão, o caos, muitas questões humanas que perduram [e] deixámo-nos levar. Quanto à questão das mulheres, há muita iconografia no trabalho gráfico do disco, coisas que me inspiraram em termos artísticos… a Edie Sedgwick, a Factory dos anos 70 em Nova Iorque… Há muitos elementos que incluem mulheres, quer sejam caras, representações, pestanas. Há uma estética punk cinematográfica. Foi dessa forma que ligámos tudo. O problema da política reside no facto de ser uma espécie de jogo criado pelos seres humanos.

E tudo é político…
Tudo é político! E limita-nos… Nós, enquanto artistas… deixámo-nos levar. Foi uma oportunidade que tivemos de parar de olhar para as notícias, para a cara horrível de [Donald] Trump, e trabalhar em arte, fazer música. E entrar num reino onde podíamos pegar em violência e tudo aquilo que andávamos a encontrar e transformar em arte. A razão pela qual escolhemos ‘Dark Spring’ como primeira canção do disco prende-se com a energia que ela tem. Quero agarrar este sentimento de mudança que vivemos, esta energia. O disco é um reflexo disso, como se estivéssemos apenas a segurar um espelho para que as outras pessoas possam ver algo que também sentem. É o mais político a que conseguimos ir.

Alguma vez sentiram que estavam a desapaixonar-se pela banda, ao longo desta última década, desde que “Teen Dream” vos deu outro tipo de exposição?
Nunca me senti não apaixonada pelos Beach House, mas, tal como acontece em qualquer relação, quando vivemos as coisas intensamente às vezes torna-se duro. Gravar “Bloom” (2012), por exemplo, foi um período muito stressante, mas ainda assim conseguimos ultrapassá-lo. E fizemo-lo por amor. É o amor que nos faz continuar e não é algo que sequer questionemos. Nunca. Continuamos a sentir uma ligação muito forte àquilo que fazemos… Não sei de onde vem, só sei que está lá. Se não amássemos aquilo que fazemos, não seria possível continuarmos ao fim de 13 anos. E nunca editámos algo de que não gostássemos ou em que não acreditássemos. Olhando para trás, consigo dizer que gosto mais deste disco do que daquele, mas enquanto estou a gravar dedico-me completamente. É claro que, às vezes, há coisas que vão parar aos discos que podiam ter sido feitas de forma diferente, mas foi disso que quisemos afastar-nos em “7”. E penso que há muito poucos momentos neste álbum que poderiam ser diferentes.

Têm tocado em Portugal de forma consistente nos últimos 10 anos. Quando pensa em regressar, o que a entusiasma mais?
Não há lugar nenhum como Portugal. Sentimos um calor incrível e vivemos sempre momentos mágicos quando vamos aí. Há qualquer coisa nos edifícios, na água, no ar… É um sítio muito especial. Claro que não estivemos em todo o lado, temos um planeta gigante… Nunca estivemos em África, na Europa de Leste só estivemos em Praga... Há muitos sítios que não conhecemos, mas Portugal, por uma razão que não sabemos qual é, acolheu-nos desde o início. Isso deixa-nos muito agradecidos e nem queremos questionar-nos sobre o assunto (risos). Sentimo-nos muito sortudos por podermos experienciar este amor maravilhoso sempre que chegamos aí e esperamos que as pessoas continuem a sentir isso da nossa parte, esse sentimento que nutrimos por Lisboa, pelo Porto e pelos outros locais onde já tocámos.

O que podem os fãs portugueses esperar dos concertos de apresentação de “7”? Reconfiguraram a vossa presença em palco para este álbum?
É sempre um espetáculo diferente. Estamos constantemente a evoluir e a encontrar novos elementos visuais para os nossos concertos. Além de termos uma maior variedade de canções, porque vamos tocar os temas novos, só quero que as pessoas vão com mente aberta e preparadas para uma experiência imersiva. Esse seria o meu convite aberto.

Beach House no Vodafone Paredes de Coura'17
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O que querem os Beach House da música hoje?
“7” é um ótimo exemplo daquilo que queremos e acredito que termos gravado este álbum abriu uma espécie de comporta nas nossas mentes que nos vai permitir continuar a mudar a forma como fazemos as coisas. Quando começas a mudar, essa mudança traz novas mudanças. Não sei se acredito em ciclos da vida, naquilo de mudamos de sete em sete anos, mas a verdade é que editámos o “Teen Dream” em 2010 e estávamos a escrever este “7” em 2017. Aquilo que queremos da nossa música é apenas a possibilidade de nos continuarmos a sentir inspirados. Desde que não esmaguemos essa inspiração e não tomemos as coisas como garantidas, espero que nos seja possível continuar. Queremos que a nossa música seja aquilo que quer ser, mas no futuro vamos continuar a mudar mais as coisas. Espero mesmo que seja assim!

Os Beach House atuam no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 25 de setembro, e no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, no dia 26 de setembro. Os bilhetes têm preço único de €28,00 e estão à venda nos locais habituais.