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António Manuel Ribeiro em Cacilhas, abril de 2018

Rita Carmo

António Manuel Ribeiro: “Não cheguei aqui de cadeira de rodas nem de bengala”. Entrevista de vida com um resistente, a alma dos UHF

O rock e a intimidade. O dinheiro e a fama. Os amores, tantos, e os desamores. As drogas e outros demónios. Quem já saiu de cena e quem sobrevive. António Manuel Ribeiro não se esquivou a nenhuma das ‘balas’ numa longa entrevista a propósito do 40º aniversário da sua banda de sempre, os UHF, e que passou exaustivamente em revista um percurso sem igual na música em Portugal

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Há 40 anos, em Almada, António Manuel Ribeiro iniciava à frente dos UHF um dos mais singulares percursos do nosso rock. Ininterruptamente, durante quatro décadas, ladeado por inúmeros músicos, o vocalista dos UHF vestiu a pele do eterno rebelde, do rocker que se eterniza em palco e que se recusa a desligar os amplificadores. À BLITZ, jogando ‘em casa’, bem perto do sítio em que os UHF deram os primeiros passos, António Manuel Ribeiro abre o extenso livro da sua vida, fala dos alvores da carreira, das mudanças de editora, dos excessos do rock e dos problemas que as drogas impuseram à sua banda, dos egos e das rivalidades, da saúde e da sensação de mortalidade, do passar do tempo e dos problemas que teve com uma fã que foi longe demais, como nos filmes.

Aquele chavão que diz que “a minha vida dava um filme” teria razão na sua boca. Já sabe quem é que vai vestir a sua pele no grande ecrã?
Não, ainda não sei. Se bem que tenho estado a trabalhar muito perto com o Jorge Paixão da Costa para organizarmos o guião que há de ser escrito por alguém, não por mim, mas eu serei uma espécie de conselheiro. Agora não faço ideia de quais sejam as personagens, não é? Se eu não fosse músico, é mais do que provável que não houvesse filme porque esta história deriva do facto de ser eu músico.

Antes da música, como foi a sua infância?
Posso dizer que tive uma infância feliz. Cresci numa casa grande onde havia os meus pais, os meus avós, até o irmão da minha mãe, o meu tio e padrinho, o ator António Machado. Mais tarde fomos viver para o Feijó e foi um bocado confuso porque saí de Almada para o Feijó e entrei um bocado numa zona onde eu era um desconhecido. Era mais um entre os outros. E para me safar num meio de um bairro pesado de gente pesada – eu era o copinho de leite – tive que mostrar que jogava bem à bola. Se eu não jogasse bem à bola, tenho dúvidas que tivesse sobrevivido muito tempo sem um tareão. Mais tarde vim estudar para Lisboa e há uma coisa que recordo sempre da minha infância e da minha adolescência: a disciplina que o meu pai me ensinou. As regras do jogo, a seriedade, às vezes muito contra a minha vontade. Naturalmente queria passar por cima dos obstáculos mais rapidamente do que ele queria. A normalidade num estudante era não ter dinheiro. Quando tinha dificuldades, ultrapassava-as. E é por isso que nos meus 18 anos faço a minha primeira guitarra pelo modelo da Gibson 335. Claro que nem sequer havia em Portugal. Aliás, se houvesse, eu nem saberia onde é que ela estaria...

Como aconteceu a descoberta da música?
A primeira banda que me sensibiliza em Portugal é o [Quarteto] 1111. As canções pop/rock em português... muito diferente. Depois há um programa muito importante, que é o “Página 1”, em que o Adelino Gomes e José Manuel Nunes trazem discos de fora e começam a mostrar coisas. E simultaneamente a passar música portuguesa: Pop Five Music Incorporated, Quinteto Académico, e essa é um bocado a minha construção, a primeira pop music portuguesa, nomeadamente a forma como o José Cid vai fazendo coisas – e o Tozé Brito também. Isso para mim é muito importante. Eu cheguei a ver o Quarteto ao vivo, aliás, eu ia de propósito onde eles estivessem para ver como é que eles tocavam, para ver as guitarras e as baterias, toda aquela parafernália que no fundo era o meu sonho.

De onde é que chegava a informação, além da rádio?
Comecei a ler a “Rock & Folk” em 1971. Até hoje. Tenho tudo. Tenho a história toda da “Rock & Folk” porquê? A “Rock & Folk”, aliás, os franceses sempre tiveram uma grande relação com São Francisco, a Costa Oeste dos Estados Unidos. E é assim que eu começo a perceber que há outras bandas que não se ouviam na rádio. Em lado nenhum. Nem no “Dois Pontos”, nem sequer no “Em Órbita”. Os Doors sim, algum Jefferson Airplane, mas Grateful Dead? Quem são os Grateful Dead? E eu começo a ler sobre grupos que eu não conseguia ouvir.

Só na imaginação...
Sim, o que era aquilo? Na altura havia o Flower Power, sobretudo aquela era pós-Woodstock. O Woodstock de 1969, o primeiro Woodstock, e pós-Ilha de Wight de 1970, que é o último concerto dos Doors no continente europeu… tudo isso me sensibiliza muito. Ver aquelas situações todas. O que é isto? O que é que está a acontecer? Que movimento é este? O pós-Flower Power, no fundo. Tudo isso é a minha escola, só que eu não tinha era os discos.

Esse fervor da imaginação e a paixão pela música incitaram uma decisão de também querer ter um papel ativo nesse mundo?
Quer dizer, eu não sei quando é que tomo essa decisão. Acho que ela foi sendo tomada. Não é uma decisão que se toma, mas ela está connosco. Há um disco importantíssimo para mim que é o “Pré-Histórias” do Sérgio Godinho. Em 1973. Comprei-o no tempo ainda da censura. E há uma história rocambolesca para comprar aquele disco aqui em Almada. Numa loja chamada Alma Danada, que vendia o disco, mas por baixo do balcão. É um colega meu que me diz: “pá, o tipo tem o Sérgio Godinho. Este gajo está em França e é muita bom. É diferente”. Aquelas coisas enormes que a gente constrói porque há um que tem. “Vai lá que o tipo tem o disco”. E eu fui lá e entrei e disse: “vinha comprar o Sérgio Godinho”. Diz-me o homem com a cara fechada: “Não tenho, não sei o que isso é”. Vim para a rua, “epá, o gajo diz que não tem o disco”. “Vai lá, que ele tem o disco, não pode é vendê-lo às claras”. Voltei uma, duas vezes até que finalmente ele disse: “dá cá os 150 escudos”. E quando oiço o Pré-Histórias, apanho uma outra poesia, uma outra musicalidade e um tipo diferente. Um tipo completamente diferente. Claro que depois há outros discos, mas isso já a seguir ao 25 de Abril, que me abrem a cabeça que são os primeiros dois álbuns do José Mário Branco. Muito bem produzidos. E começa-se a perceber que é possível fazer música com percussão, nomeadamente com ritmo, com uma bateria, com um baixo, que era o que não havia porque os baladeiros estavam quase sempre cingidos à questão de uma viola e acompanhamento noutra viola. Eu acho que é nessa fase que a decisão aparece e começo a ter vontade de cantar em cima dos discos dos The Doors. Começo a cantar em cima do ‘Touch Me’. Acho que é a primeira canção que eu começo mesmo a cantar, a ‘Touch Me’ dos Doors. Eu não sei porquê, porquê é que não comecei pelo ‘Light My Fire’, pelo ‘Hello, I Love You’ porque eram os singles...

Não vê uma rutura entre essa geração de cantautores e o que viria depois, com o punk?
Sabe porquê? A censura foi muito importante para a poesia portuguesa. Isso é uma forma de dizer as coisas com alguma provocação. Porquê? Porque obrigou a escrever bem. Obrigou a que nossa poesia cantada usasse as figuras de estilo com muita qualidade, nomeadamente a metáfora e a comparação. Por exemplo: como é que a censura, que era burra, deixou passar o poema ‘A Tourada’ no Festival da Canção? É porque eles não perceberam. Ainda bem que eles não percebiam.

Deixou passar ‘Os Vampiros’...
‘Os Vampiros’ passava às vezes na Rádio Renascença. Eu ouvi uma vez. E isso abriu-me a cabeça. Aquele refrão abriu-me a cabeça. Tanto que no dia a seguir eu estava no liceu a tentar reproduzir e reescrever o que tinha ouvido. Eu nem sabia quem era José Afonso. Tinha 15 anos. Aquilo mexeu comigo. O que é que eu trago para o rock? É essa vertente poética, é esse rigor de escrita. Dizer alguma coisa e não somar palavras para ficarem a jeito de melodia. O punk ensinou-nos isso também. É curioso como é que a música de intervenção com duas violas e o punk podem estar tão unidas na construção da música que os UHF vieram a fazer. Uma espécie de punk rock português, se quisermos assim, no início da carreira. O ‘Jorge Morreu’ é uma história verdadeira, contada... Acho que é a primeira vez que se escreve sobre droga dura em Portugal e a forma como um amigo nosso morreu. ‘A Caçada’ é uma carga da polícia de choque que eu presenciei no acesso ao Dramático de Cascais, em 1978.

O ano em que tudo começou: ora, como é que as coisas se conjugaram?
Acontece aqui muito perto deste espaço onde estamos agora. Acontece quase diria no eixo lá de cima, do Café Central. Não havia telemóveis, mas havia um ponto de encontro. O Café Central e aqui em baixo o Canecão, onde mais tarde vimos arranjar uma sala de ensaios por amizade lá dos donos. Este era o espaço onde nós vínhamos beber a mini e comer o cachorro ao fim da noite. Alguém começa a falar com alguém, “quero fazer uma banda, gostava de arranjar músicos”. Nós queríamos fazer bandas, mas nem instrumentos tínhamos [risos]. E alguém vai buscando alguém. É sempre assim. Quer dizer, comigo foi. O [baixista] Carlos Peres, que é o primeiro músico dos UHF que eu conheço, que vai fazer os UHF comigo, tinha menos quatro anos que eu. Isso é significante quando andamos a estudar porque ele estava no liceu e eu já estava na faculdade e, portanto, já não nos encontrávamos, não é? Quando tu tens mais quatro anos do que o rapazinho de trás nem olhas para ele no liceu. O primeiro baterista é o Alfredo [Antunes]. Nem é o Américo [Manuel], é o Alfredo. O Alfredo é mais tarde baterista dos Iodo; depois é que aparece o Américo. O Renato [Gomes, guitarrista] aparece ao mesmo tempo que o Américo. E portanto nós os quatro não nos conhecíamos. O Américo já não estudava, tinha um trabalho em Lisboa, acho que era na Imprensa Nacional, e portanto nem nos cruzávamos. Mas havia um ponto de encontro que era um café. E foi aí que tudo começou.

“É curioso como é que a música de intervenção com duas violas e o punk podem estar tão unidas na construção da música que os UHF vieram a fazer. Uma espécie de punk rock português”

Reunidas as tropas, havia que transformar ideias em canções: como é que isso se fazia?
Por tentativas [risos]. Se reparar bem, a poesia, as letras que eu escrevi no primeiro EP, “Jorge Morreu”, que começa a ser escrito no final de 78, aquela rima é um bocado... Eu não queria violar, digamos, a estética da poesia, mas aquilo tinha que entrar nos compassos musicais e não havia essa experiência ainda. E é verdade que as coisas iam sendo um bocadinho forçadas, mas é assim que se fazem as coisas. O que importa é a comunicação. E quando nós começámos a cantar as pessoas percebiam o ‘Jorge Morreu’ e percebiam ‘A Caçada’. Porquê? Porque isso acontecia. Era o que acontecia aqui. Digamos que a estética dos cantores de intervenção pós-25 de Abril baixa muito de qualidade. Baixa bastante. Porquê? Porque eles andavam na rua, andavam a fazer ação direta, digamos. Iam aos sindicatos cantar. Às fábricas, às greves… E esqueceram-se de escrever canções porque não tinham tempo para isso. Aparecemos nós a falar de uma outra realidade. O problema era efetivamente construir canções perfeitas. Isso veio com o tempo. Mesmo a ‘Cavalos de Corrida’… aquilo está bem cantado mas não está assim tão bem escrito porque há ali versos que têm sílabas a mais. No fundo porque eu não queria violar a ideia. A ideia era importante de passar. A consciência das ideias vinha de trás. Vinha daquilo que eu tinha ouvido os outros cantarem.

A CHEGADA À PRIMEIRA LIGA

Depois de uma estreia independente com o primeiro EP, ‘Jorge Morreu’, lançado a tempo da banda poder reclamar um lugar na história local do punk, os UHF estouraram na Valentim de Carvalho com o incansável single ‘Cavalos de Corrida’, que arrepiou caminho para um dos grandes clássicos da era do boom do rock português, o álbum “À Flor da Pele”.

O primeiro EP saiu na Metro Som, mas depois passaram para a Valentim de Carvalho, outro campeonato...
Nunca percebi muito bem, porque nunca ninguém me explicou, porque é que gravámos o “Jorge Morreu” em março ou abril de 1979 e só foi editado em outubro. O que é que acontece? Entre abril e outubro de 1979, nós demos para aí uns 30 concertos. E melhorámos muito. Ou seja, quando o disco saiu, já estávamos noutra fase evolutiva e estávamos chateados com aquilo. Obviamente que nem sequer pensámos em pôr a hipótese de remisturar porque ninguém nos ia levar a sério. Na altura nós não tínhamos capacidade de negociação ou de fazer oposição à vontade do editor e aquilo saiu como saiu, sem promoção, sem nada. Nós comprámos discos para ir levar à rádio. Não havia outra forma de o fazer. Na altura há uma pessoa muito importante que aparece. Nós fazemos aqueles concertos internacionais extremamente importantes: Dr. Feelgood em 1979, em setembro, casa cheia, ganhámos em palco com sangue, suor e lágrimas, Foi muito importante... Um palco internacional. Aí é que tremeste – se não valesses, tinhas saído, acabavas ali. E depois começámos a fazer os outros concertos todos. Até 1980, ano em que tocamos com os Ramones. Mas em 1979 ainda fizemos Elvis Costello. Que grande banda que o Elvis tinha nos The Attractions…

Via esses concertos com caderno de notas na mão?
Obviamente que nós bebíamos tudo. Nós íamos para lá muito cedo para ver como é que se montava um espetáculo. Íamos nós e os nossos técnicos. Como é que se ‘micava’ uma bateria? Como é que se ‘micavam’ os amplificadores? Qual a disposição em palco? Como é que tudo aquilo funcionava? No fundo isso foi a nossa universidade, esses concertos internacionais que começámos a ganhar depois com atitude, já com público. É nesses momentos que aparece um homem muito importante, que já não está entre nós, que é o Luís António Vita. Ele trabalhava na atual Lusa, na altura ANOP, Agência de Notícias Portuguesa, e descobre-nos. Brasileiro e apaixona-se pelos UHF. Tinha caminhos que nós não tínhamos. É ele que leva a nossa gravação à Valentim de Carvalho. Mas é curioso porque a maquete que é reprovada em janeiro ou fevereiro de 1980 é a mesma maquete que é aprovada depois em junho.

Questão de timing?
Completamente. Porquê? O Vita dizia assim: “Você tem que remisturar!”, mas eu respondia “ó Vita, nós não temos dinheiro para isso”. Repare que, na altura, não havia estúdios de maquetes. Nós íamos para um estúdio profissional. Fizemos um disco [“Almada ’79”] que a BLITZ lançou [em 2017] com canções todas com alta qualidade de som porque foram gravadas em estúdios profissionais. Talvez houvesse um microfone com um gravador, mas nós não fazíamos isso. Eu aí era um bocado exigente: o dinheiro que ganhávamos investíamos outra vez. Nós não tínhamos dinheiro para nós. Eles andavam a estudar, eu tinha um trabalho, o Américo tinha um trabalho e portanto nós reinvestíamos o dinheiro em gravações.

E depois veio a greve dos músicos profissionais, que paralisou os estúdios...
Exatamente. Que estavam numa reivindicação dos seus vencimentos, o que impede que as gravadoras portuguesas tenham discos na rua, que os estúdios trabalhem, e estava a ser muito complexo. É então que alguém da Valentim de Carvalho descobre que tem lá umas maquetes de um rapazinho chamado Rui Veloso, a cantar em inglês, pedem para o Porto que ele cante em português. Ele ficou todo confuso, ele e o Carlos Tê. E a nossa maquete entra. Porquê? Porque nós passamos a ser artistas contratados por royalty. Contrato de royalty, não contrato à hora de trabalho, como estava estipulado em termos sindicais. Nós não precisávamos de fazer greve...

Como foram as primeiras sessões em Paço de Arcos?
Nós levámos obviamente as duas canções que já estavam a ser um sucesso ao vivo. ‘Cavalos de Corrida’ e ‘Palavras’ foi aquilo que apresentámos. Acho que tínhamos mais uma ou duas canções na maquete mas aquelas duas eram as nossas canções, que nós sabíamos que tinham sucesso ao vivo. Nós gravámos os ‘Cavalos’ na Valentim em junho de 80, mas só saiu em outubro desse ano. Nós o que tínhamos era o reflexo do público. Também saiu no disco da BLITZ a maquete original da ‘Cavalos de Corrida’ – aquilo parece que está em 33 rotações, muito lento. Só que nós ao vivo já não tocávamos assim; tocávamos aquilo a acelerar, a acelerar, a acelerar. Eu não sei porquê. Acho que o Renato começou a puxar aquilo cada vez mais, tanto que no primeiro dia de gravação da levamos um banho no estúdio porque não conseguimos gravar. O nosso baterista já era o José Carvalho e estava tão acelerado que estava sempre a descompassar. O Nuno Rodrigues, que era o produtor, desce as escadinhas da régie e diz: “meus amigos, vocês não estão em condições de gravar”. Eu ia morrendo. Pensei: “bem, o contrato acabou”. “Voltem daqui a não sei quantos dias, vão para casa descansar porque vocês estão a andar p’ra trás e p’rá frente”. E nós ficámos borrados de medo. Borrados de medo acho que é a expressão, perdoem lá o vernáculo. E fomos para casa. Só que nós não fomos descansar porque tínhamos mais espetáculos [risos]. E portanto foi ali numa pausa qualquer que nós conseguimos gravar a ‘Cavalos de Corrida’. Porque nós acelerávamos à brava. Nós tocávamos muito. Tocávamos tão depressa e com uma força tão grande que às vezes chegávamos ao fim do espetáculo e ainda nos faltava meia hora do concerto. Aquilo que aconteceu com os Beatles aconteceu connosco. Acontecia com todos. Quando tu tens o sucesso, e as coisas te estão a correr bem, é assim que as coisas acontecem.

“Deixámos de comer tremoços e passámos a comer lagosta. Nós não passámos do 8 ao 80, foi do 8 ao 800”

‘Cavalos de Corrida’ marcou um tempo e uma geração. Como é que se lida com esse reconhecimento nas ruas, com os cachês mais altos?
Como é que se lida? Com calma. Lá vem a minha educação. Obviamente isto é um frenesim de vida. Tu mudas de vida. Eu deixei de estudar, abandonei o meu trabalho, tornei-me músico profissional. Eu e os outros. Contra a vontade das famílias. Eu já era casado, há aqui uma grande revolução sociológica dentro dos UHF. Nós passamos a ter uma vida fora de casa. Íamos de vez em quando a casa mudar de roupa, meter mais umas cuecas e umas meias no saco e continuar o caminho. Eu só tomo nota disso nomeadamente em 1981 quando vou receber os direitos de autor. Eu em 1980 recebi os direitos de autor do “Jorge Morreu” e eram para aí 3 euros e meio. 750 escudos. Eu e a minha mulher fomos jantar fora. Aquilo era pouco, mas para quem nunca tinha recebido nada era dinheiro. Em 1981, fui receber os direitos de autor que já tinha acumulado com a ‘Cavalos de Corrida’ e com o álbum ‘À Flor da Pele’, com a ‘Rua do Carmo’, e de repente vão-me pagar 1100 contos. 1100 contos são 5500 euros. Tu passas de 3 euros e meio para 5500 euros. Nem queria acreditar. Agarrei naquele dinheiro e investi no grupo. Em guitarras... o PA já estávamos a pagar, paguei foi mais facilmente as letras que tínhamos no banco. Na altura comprámos a prestações, usando as letras bancárias, etc. Investi num segundo carro para o grupo, mais confortável, guitarras Gibson... A minha forma de lidar com isso tudo foi sempre muito pragmática. Em relação ao reconhecimento na rua, isso é muito mais tarde. O reconhecimento hoje em dia é que acontece. Hoje em dia é que as pessoas olham para mim e respeitam. Na altura, eu era um miúdo. “Olha aquele gajo que vai a televisão. Olha aquele tipo de tal”. As miúdas é que andavam atrás de nós. E isso era fantástico porque, de repente, o universo feminino cresceu exponencialmente. Aí é que nós sentimos diferença. Passámos a ser alguém.

Como é que se encaixa uma vida de homem casado no meio de tanto solicitação?
Prepara-se o divórcio [risos]. Não, aquilo já não vinha muito bem, não é? Mas é um bocado isso. Aliás, todos nós tivemos problemas. Eu com o casamento e eles com as namoradas. Aconteceu.

E o rock'n'roll, onde é que se encaixava aí? Não deviam ter estourado o dinheiro noutras coisas?
Por isso é que nós estamos cá ao fim de 40 anos [risos]. É evidente que comprámos roupa melhor. Lembro-me do Zé Carvalho, houve uma altura que disse, “epá, pede lá um avanço à Valentim de Carvalho que quero ir para Paris comprar roupa”. E foi. Comprar roupa e pratos para a bateria, que não havia cá. Claro que vivíamos melhor. Deixámos de comer tremoços e passámos a comer lagosta. Obviamente. Isso é verdade, mas não fomos para a fossa. Aquela primeira formação era muito alegre, muito divertida e andava a usufruir. Nós não passámos do 8 ao 80, nós passámos do 8 ao 800. Hoje digo, com alguma calma, com as ‘divisas’ aqui nos ombros, que a "Cavalos de Corrida", mais do qualquer outra canção, mudou a face da música portuguesa. Porque a partir dali havia uma exigência nas editoras.

Na primeira parte dos 3 concertos em que abriram para os Ramones, setembro de 1980
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Na primeira parte dos 3 concertos em que abriram para os Ramones, setembro de 1980

Arquivo Gesco

António Manuel Ribeiro em 1980
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António Manuel Ribeiro em 1980

Arquivo Gesco

Em 1981, altura em que lançam o álbum de estreia, "À Flor da Pele": Carlos Peres, José Carvalho, Renato Gomes, António Manuel Ribeiro
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Em 1981, altura em que lançam o álbum de estreia, "À Flor da Pele": Carlos Peres, José Carvalho, Renato Gomes, António Manuel Ribeiro

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António Manuel Ribeiro a ser entrevistado por Rui Pêgo na Rua do Carmo, em Lisboa, 1981
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António Manuel Ribeiro a ser entrevistado por Rui Pêgo na Rua do Carmo, em Lisboa, 1981

Arquivo Gesco

UHF ao vivo em 1981
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UHF ao vivo em 1981

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Os verdes anos dos UHF
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Os verdes anos dos UHF

Em 1982, na sessão promocional do álbum "Persona Non Grata".
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Em 1982, na sessão promocional do álbum "Persona Non Grata".

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Em setembro de 1984, com o núcleo duro António Manuel Ribeiro/Renato Gomes e nova secção rítmica: Fernando Delaere e Hippo Birdie
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Em setembro de 1984, com o núcleo duro António Manuel Ribeiro/Renato Gomes e nova secção rítmica: Fernando Delaere e Hippo Birdie

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Em 1988, ano em que são editados "Noites Negras de Azul" e "Em Lugares Incertos"
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Em 1988, ano em que são editados "Noites Negras de Azul" e "Em Lugares Incertos"

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UHF versão 1990: a formação que grava "Este Filme - Amélia Recruta"
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UHF versão 1990: a formação que grava "Este Filme - Amélia Recruta"

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AS MAZELAS DO ROCK AND ROLL

Quando a vida se transformou no seio dos UHF, graças a uma maior exposição pública, a uma intensa vida na estrada e a cachês mais significativos, António Manuel Ribeiro foi confrontado com sérios problemas de consumo de drogas no seio do grupo que comandava.

Até 1974, o grande motivo para as bandas se desagregarem era a ida para a guerra do Ultramar. Depois de 1980 começaram os problemas com as drogas pesadas, a causarem verdadeiros entraves à progressão das bandas…
Isso acontece-nos na segunda formação. Na primeira, não. Na segunda temos problemas graves. Eu não sabia como é que era lidar com gente que estava apanhada pela droga dura. Heroína. Não estamos a falar de haxixe ou coisas do género. Estamos a falar de droga dura, muito complicado. Eu tive que fazer uma espécie de curso rápido de assistência a alguns amigos que não conseguiram: bons músicos, gente inteligente, às vezes nós dizemos como se fosse um bocado lixo humano... não é nada, não é nada. Para já não há lixo humano. Todos nós somos importantes e somos prestáveis, mas muita gente que esteve nos UHF era muito, muito valiosa, mas que a droga tomou. Depois há um problema grave que surge a seguir: o dinheiro. Tu vives com 50 euros no bolso o mês inteiro e passado uns tempos começas a viver com 2000 euros no bolso o mês inteiro e, portanto, começas a consumir 2000 euros por mês de droga. Isto aconteceu.

“Do outro lado ofereceram-me o dobro em termos de contrato, mas não foi só a questão financeira. Foi também a vaidade”

De repente, os editores da concorrência começaram a seduzir os UHF e os ‘Cavalos de Corrida’ desataram a correr para outro lado muito rapidamente. O que é que aconteceu? E, a esta distância, mudar de editora foi a atitude certa?
Eu acho que o que aconteceu tinha que acontecer. O problema naquela altura é que os UHF, o Francisco Vasconcelos e o David Ferreira [diretores da Vecemi]… nós tínhamos todos a mesma idade. Faltou alguém mais velho. É curioso porque o Francisco tentou tudo. Tudo, mas tudo para que ficássemos na Valentim de Carvalho. Posso dizer que, só hoje é que percebo a dimensão disso: o Francisco chegou a oferecer-me uma campanha de outdoors em Portugal para promover o futuro disco dos UHF. E eu recusei tudo. Do outro lado ofereceram-me o dobro em termos de contrato, mas não foi só a questão financeira. Foi também a vaidade...

Ser disputado mexeu com o ego...
Obviamente que eu não posso intervir na gestão de uma editora como a Valentim de Carvalho. Mas havia situações na Valentim que estavam a acontecer que eram erradas. E pouco tempo depois perceberam-se que eram erradas. Nós andávamos na estrada com eles. E às vezes um fenómeno muitas vezes divulgado pela comunicação social na macrocefalia lisboeta de imprensa, rádio, televisão não é real. Nós íamos para a estrada e aquilo era tudo mentira. E isso fez-nos confusão. Porquê? Porque nós éramos autênticos. Repare, quando às vezes te dizem, “ah, porque nós fizemos este artista”. A nós ninguém nos fez. Os UHF vão para a Metro Som e resistem à ignorância, ninguém sabia que existíamos. Só o António Sérgio, por isso ele apoiou. Ele considerava o “Jorge Morreu” o underground do rock português. Vamos para a Valentim de Carvalho os mesmos, mas já melhores. E continuamos da ‘Cavalos...’ para o “À Flor da Pele” ainda melhores. Porque nós trabalhávamos. A nossa relação com o público e com o palco era muito forte. Ali não havia mentiras. Nós íamos para estúdio e não levávamos 8 canções para gravar; levávamos 20. Tanto assim que ainda agora há canções para editar desse tempo que não foram ainda reveladas – ainda tenho duas guardadas. Em 1981 demos 135 espetáculos, uma coisa brutal. E o Francisco sabia disto; o David também, mas o David tinha outras escolhas na altura. Obviamente que quando começaram a soprar coisas, “vocês vão ser, vocês vão ser”… Nós nunca tivemos ciúmes do Rui Veloso, nem acho que o Rui Veloso tenha tido ciúmes dos UHF. Porquê? Porque nós éramos autênticos. Nós tínhamos feito o nosso trajeto de canções e de espetáculos e [naquela altura] houve ali fenómenos, não é? Sabíamos que isso ia acontecer. Aquele investimento no estúdio de Paço de Arcos foi brutal na altura, mas nós realizámos discos para pagar esse estúdio. Houve outra gente que ia passar férias para estúdio. E nós sabíamos disso.

A quem se refere?
Não falo dos meus colegas, até porque a maior parte deles desapareceu.

Ainda assim, havia rivalidades assumidas entre os UHF e outras bandas que estavam a agitar o panorama na altura. Nomeadamente com os Táxi.
Só com os Táxi. Ainda hoje eu com o João Grande [voz dos Táxi] falamos um bocado sobre isso e rimos à brava. Somos amigos.

Mas naquela altura não era bem assim…
Não, não era. Mas nós tínhamos um respeito imenso por eles. Quando um disco dos Táxi saía, eu gravava o disco para uma cassete e íamos para cima a ouvir. Contei ao João que me respondeu: “não acredito”. “Estou-te a dizer. Porquê vocês eram bons”. Nós tínhamos rivalidade por respeito. “Porque vocês eram mesmo bons e tinham canções fenomenais que a malta curtia”. Era uma diferença entre os UHF mais ‘ao vivo’ e os Táxi mais polidos, mais trabalho de estúdio.

Eles eram mais Police e vocês eram mais Ramones...
É isso mesmo. Aliás, aquele reggae um bocado esgalhado deles é Police, naturalmente.

Nunca houve pugilato nos bastidores, os egos nunca chegaram a ferver?
Só com o Zé Leonel [primeiro vocalista dos Xutos & Pontapés], de quem acabei por me tornar grande amigo. Sabe porquê? Porque havia um grande respeito. Nós mais tarde quando nos começámos a falar... Eu recupero o Zé Leonel em 93, 94 quando ele foi com os Ex-Votos para a BMG. Aparecemos os dois numa promoção qualquer da editora e trocámos números de telefone...

“Ao longo destes 40 anos, houve alturas em que eu pensei acabar com isto. Quando a droga dura entrou nos UHF, há uma altura em que eu não consigo controlar a situação. Vais para um espetáculo e não sabes como é que dois músicos te vão aparecer naquela manhã”

Resolveram os problemas antigos...
O Zé Leonel andava sempre a meio metro acima do chão. Estamos a falar de 1979. Ele provocava. Uma vez estávamos no Alfeite, onde gravávamos o primeiro álbum ao vivo, “No Jogo da Noite”, o camarim era cá em baixo e havia uma escada muito estreitinha e tal. Estávamos a subir para ir tocar e os Xutos, que fizeram a primeira parte, estavam a descer, e o Zé Leonel vinha todo provocador. Eu disse “olha que levas uma pera” [risos]. Mas não, nunca aconteceu nada disso. Nunca houve violência de forma alguma.

Nem internamente? Porque a dada altura era difícil os músicos aquecerem o lugar nos UHF...
Houve alturas em que eu deixei de falar com alguns músicos. Isso houve. Uns meses um bocado esquisitos, nomeadamente em 1994. Nquela canção, ‘A Morte Saiu à Rua’, que aparece na compilação “Filhos da Madrugada” [de homenagem a José Afonso], o arranjo é feito a três. Em 1997 soube outra coisa um bocado dramática, mas aí nem me chateei. Foi na altura em que mudei todo o line up dos UHF para miúdos muito mais novos do que eu, e há um dia que o Tozé Brito me telefona e diz assim: “ó António, vê lá o que é que se passa porque estiveram cá dois ou três músicos dos UHF que tu despediste a dizer que vão ficar com o nome dos UHF”. Isso foi uma cena velhaca, ridícula até, porque as pessoas não conhecem aquilo que é a propriedade intelectual.

Há uma era dourada na história dos UHF?
Os UHF teriam sido diferentes se eu tivesse ficado na Valentim de Carvalho? Naturalmente. Agora, eu seria o tipo que sou hoje? Não sei. E porquê? Porque eu tive que vencer as minhas dificuldades. Saíres da Valentim de Carvalho é saíres de um império – na altura era um império – que dominava a comunicação social toda. E quando eu perco isso tudo, quando os outros que me davam o dobro [Rádio Triunfo, onde os UHF editam “Persona Non Grata”, em 1982, “Ares e Bares de Fronteira”, em 1983] se percebe que são um lugar de fruta que também vende discos, o que é que acontece? Ou acabas ou te afundas na droga ou no álcool. Ou descobres que és músico a sério porque queres ser. Que és compositor, que és letrista e que até percebes um bocadinho disto. E então o que é que acontece? Começas a fazer a tua carreira. Ao longo destes 40 anos, houve alturas em que as coisas correram muito mal. Houve alturas em que eu pensei acabar com isto. Olha, quando a droga dura entrou nos UHF. Há uma altura em que eu não consigo controlar a situação. Mas o que é isto? Vais para um espetáculo e não sabes como é que dois músicos te vão aparecer naquela manhã. Se estão capazes de tocar. Exceto o princípio, que foi o despertar, não há melhor fase nos UHF para mim, como compositor, do que esta fase.

Quanto aos discos, quais são os que elege como os seus melhores trabalhos?
O “À Flor da Pele” é um disco bíblico, digamos assim. “Noites Negras de Azul” [1988] também. Gosto muito de um disco, pessoalmente para mim, como compositor, arranjador e produtor, que é o “La Pop End Rock” [2003]. Gosto muito porque é uma ópera e, digamos que em termos criativos, fui por caminhos nunca dantes navegados e fiz o que me apeteceu. Foi feito peça a peça, parte a parte, com muito tempo, muita calma. Gosto muito, mas mesmo muito, do disco Porquê [2010] e do “A Minha Geração” [2013]. É do melhor que eu fiz na minha vida. Mas há discos de rock'n'roll fantásticos como o “Persona Non Grata” [1982] e o “Há Rock No Cais” [2005], que é a força das duas guitarras, baixo bateria e voz. Se calhar o próximo vai ser assim. E se calhar vou outra vez vestir a pele do rock’n’roll americano. É um sonho que eu tenho: fazer um disco americano.

António Manuel Ribeiro, 2018
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Rita Carmo

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Rita Carmo

A VIDA DESTE ROCKER

Um efeito da passagem do tempo, da construção de uma história de quatro décadas, é obviamente o envelhecimento. António Manuel Ribeiro fala do palco como o seu elixir de juventude, mas também não esconde a mágoa que o desaparecimento de alguns dos seus pares lhe deixou.

“A guitarra Fender cor de vinho estava ali sentada no tripé e aquilo ficou-me: 'eu estou a tocar no amplificador do Zé Pedro e está aqui a guitarra dele'”

Como é que um rocker de coração e de alma lida com o passar do tempo? Como é que se encaixa um espírito de rock'n'roll num corpo de 63 anos?
Não sei. Vou para o palco e aquilo acontece [risos]. Não faço ideia. Tive aí umas mazelas, curei as mazelas e, portanto, basicamente é isso. Cheguei a tocar o ano passado com problemas físicos, controlado pelos médicos... também a minha mãe estava no final de vida, muito doente. E se a minha mãe soubesse, morria mais depressa. Aguentei tudo. Fiz espetáculos... pouca gente sabe como é que eu estava. Mas fi-los sempre com uma entrega… Já não tenho nervos como tinha antigamente. Eu dantes vivia aterrorizado no camarim, só ficava calmo quando entrava em cima do palco. O camarim para mim era uma câmara de horrores medievais com a Inquisição atrás de mim [risos]. E hoje não. Hoje entro em palco e aquilo depois tem que começar a acontecer. Quando isto deixar de acontecer eu saio.

Outra das inevitabilidades da passagem do tempo é o desaparecimento de amigos. E ainda recentemente isso aconteceu com Zé Pedro, dos Xutos…
Eu afastei-me um bocado... aliás, eu estava a trabalhar e eu nem sequer pude ir ao funeral. Estava a trabalhar, dei muitas entrevistas, algumas delas um bocadinho bacocas. Parece que há uma espécie de ritual... o funeral exige alguns rituais e as pessoas querem exagerar. Recolhi-me e andei a pensar. Andei a pensar que há um tempo nosso que parte com os nossos. Com o nosso pelotão. Naturalmente, toda a gente conhecia o Zé Pedro, toda a gente gostava do Zé Pedro. Nós conhecemo-nos em 79. Foi muito tempo e... eu não quero pensar nisso, mas é um bocado da nossa vida que parte. Não quero pensar nisso no sentido dramático, no sentido de me acabrunhar. Mas aí alguma coisa mudou. Alguma coisa mudou porque deixas de ter um dos teus ao teu lado.

Nem agarrados a uma guitarra e ligados à corrente somos imortais?
Eu tive uma experiência – não vou dizer traumática porque resolvo os meus problemas meditando. Na altura eu andava a ensaiar com o Tim aquele projeto dele, À Sombra do Cristo Rei. Nós tínhamos um programa de televisão em direto e ao vivo e fomos ensaiar lá para a sala dos Xutos naquela fase em que ele [Zé Pedro] já estava muito mal. Isto foi para aí duas semanas antes de o Zé partir – eu não gosto de falar em morrer, parte para outra dimensão, a obra fica cá. Quando fui lá para o estúdio dos Xutos emprestaram-me o amplificador dele. Nós sabíamos internamente como é que ele estava e, portanto, ninguém falava, havia uma espécie de gelo informativo. A guitarra Fender cor de vinho estava ali sentada no tripé e aquilo ficou-me: “eu estou a tocar no amplificador do Zé Pedro e está aqui a guitarra dele”. Ia a caminho de Glória de Ribatejo na noite em que aconteceu e, quando a imprensa começou a telefonar-me, lembrei-me disso. Lembrei-me do homem, da guitarra, do tripé e do amplificador, mas calei-me.

A história, os jornalistas que a ajudam a escrever, os seus pares fizeram justiça aos UHF?
Essa dose de justiça de que às vezes se fala é sempre um tributo que nos é prestado em cada espetáculo. E sabe porquê? Porque estão milhares de pessoas à nossa frente a vibrar. Nós fomos tocar este ano no 24 de abril a Setúbal. Não foi nada fácil. E porquê? Porque é um espetáculo com um guião. Tu tens um tempo para falar, depois há o discurso político e a seguir há uma queima de fogo. É a tradição. Está assimilado. Há três anos aqui em Almada aconteceu o mesmo, o ano passado estivemos em Sines aconteceu o mesmo. Os espetáculos do 25 de Abril têm, digamos assim, uma mise en scéne. E nós trabalhámos muito. Trabalhámos muito para ter dois convidados, porque íamos tocar as sete canções do José Afonso, tivemos o Samuel Úria e tivemos o Armando Teixeira. O José Jorge Letria não pôde porque estava completamente impossibilitado por questões físicas, de saúde. Tínhamos um trabalho de multimédia por trás de nós, a primeira vez que usámos um trabalho de multimédia. Aquilo estava cheio e veio gente de todo o lado. Este é o tributo que nós temos. Por vezes achamos que alguma imprensa poderia ter feito outras coisas e que não fez. E fez aquilo que se chama a censura do esquecimento. Mas isso só nos tem dado força. O espetáculo de Setúbal foi brilhante, mas obriguei os músicos dos UHF, e até os convidados, a começarem a ensaiar às 11 da manhã. Não perco um espetáculo destes sem obrigar as pessoas a trabalharem em cima. Porquê? Porque o Cristiano Ronaldo para fazer aqueles golos também todos os dias chuta à baliza. É assim que eu vejo a música. O tributo é este. Agora se podia ter sido diferente? Podia, mas olhe, acha que valeria a pena? Acha que os UHF precisam disso? 40 anos é a melhor prova daquilo que nós fizemos. Sem subsídios, sem ajudas, sem uma multinacional. Basicamente, o que nós fazemos é aquilo que queremos e que gostamos. E acho que essa sinceridade, essa razoabilidade entre o prazer da tua consciência e o que salta cá para fora revela-se naquilo que são estes 40 anos. Eu não cheguei aqui nem de cadeira de rodas nem de bengala.

Os UHF na segunda década do século XXI. À esquerda, o guitarrista António Côrte-Real, filho de António Manuel Ribeiro

Os UHF na segunda década do século XXI. À esquerda, o guitarrista António Côrte-Real, filho de António Manuel Ribeiro

Rita Carmo

Os grandes festivais esqueceram-se dos UHF?
Os grandes festivais têm um bocado de música portuguesa para meter tampão. “Olha temos aqui um buraco, mete uma rolha”. Só O Sol da Caparica é que é dedicado à música portuguesa. E, reparem, não estou a dizer que não é importante trazerem estrangeiros. Obviamente que sim. E até se calhar é importante trazer um estrangeiro por noite a O Sol da Caparica. Não é isso que está em causa. É um conceito, respeito. Conseguiu logo guindar-se a uma posição de festival de referência. É que O Sol da Caparica, utilizando música portuguesa, reflete os concertos cheios que nós todos temos. Os Xutos têm os concertos cheios, os UHF têm os concertos cheios, os Resistência têm os concertos cheios. O Carlão tem os concertos cheios. Ali reflete-se aquilo que acontece em todo o país. Em relação aos festivais estrangeiros, aquilo está vocacionado para as grandes estrelas e a música portuguesa é o resto.

Nunca tocaram no Rock In Rio...
Não, nunca. Não vou lá bater à porta a pedir. A produção sabe ou não sabe o que é a música portuguesa, sabe ou não sabe o que acontece em Portugal.

“O livro [“És Meu, Disse Ela”] é o meu último ato de exorcismo. Mas o stalking tem stress pós-traumático. De vez em quando há flashes que surgem do nada”

Toda esta paixão pela música teve também equivalência na paixão pelas mulheres?
Escrevi muitas canções. Nomeadamente canções depois [risos]. Canções depois da relação. Às vezes eu oiço: “epá, esta canção é fantástica”. E eu digo: “se soubesses o que eu sofri para a escrever”. Não, sempre fui um bocado dado a ressacas de amor ou de desamor que resultaram em grandes canções. É verdade, é verdade. “Noites Negras de Azul”, então, é um álbum cheio disso.

Voltamos ao início da conversa: não é segredo o caso de stalking de que foi vítima e que poderá agora inspirar um filme. Está resolvido?
Está resolvido, ultrapassado a 100% não sei. Mais tarde tive que estudar coisas e aprender o que era o stalking, que era uma coisa que ninguém por cá conhecia e eu só descubro a expressão e o conceito em 2009. Fiz a investigação que o Ministério Público não fez. Depois tive que estudar um pouco de Psiquiatria profunda. E porquê? Porque me dediquei a fazer um livro. Eu acho que o livro é o meu último ato de exorcismo. Mas o stalking tem stress pós-traumático que digamos que na sua grande percentagem está resolvido, mas haverá coisas que não estão. De vez em quando há flashes, dejá vus, que surgem... Do nada, um acontecimento qualquer que me parece algo por que já passei.

Se não tivesse sido o rock, o que teria sido a sua vida? A política? O dirigismo desportivo?
[risos] Se tivesse continuado os meus estudos, é muito provável que me tivesse tornado político. Se bem que na altura em que fui estudar Direito, queria era ser diplomata, não queria estar em nenhum partido. Gostava muito do jornalismo. Durante quatro anos estive no “Record”, gostava de escrever. Mas acho que isso era, no fundo, a ponta que eu estava a tomar para chegar à poesia e para chegar, hoje em dia, à literatura. Vou continuar.