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Rita Carmo

Dead Combo fazem check-in no “Odeon Hotel”. Uma conversa sobre a gentrificação de Lisboa, Fernando Pessoa e uma “viagem” ao Brasil

A capa do novo álbum dos Dead Combo, não engana: Pedro Gonçalves e Tó Trips estão cada vez menos sozinhos. Da colaboração com Mark Lanegan à homenagem a Zé Pedro, conheça os recantos de “Odeon Hotel”

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Poucos recantos de Lisboa guardarão ainda segredos para os Dead Combo, mas a dupla insiste em percorrer os becos mais escondidos de uma cidade em constante reconfiguração. Quatro anos depois de os termos ouvido pela última vez em “A Bunch of Meninos”, Pedro Gonçalves e Tó Trips fizeram reserva no “Odeon Hotel”, espaço que outrora foi um cinema e agora vive, interrompido, entre a glória do passado e um futuro diferente, para lá juntarem uma pequena multidão de amigos. “Um hotel é um sítio de inclusão”, disse ao Expresso o contrabaixista… Serve, portanto, de espelho à música cosmopolita que os Dead Combo criam e de metáfora certeira para um disco que dá um saltinho até ao Brasil, recebe um postal do americano Mark Lanegan com um poema de Fernando Pessoa e encerra um abraço de despedida ao amigo Zé Pedro.

A capa de “Odeon Hotel” é a mais povoada da discografia dos Dead Combo. O que nos diz a imagem, à partida, sobre este novo álbum?
Pedro Gonçalves
– A ideia da capa e do título tem a ver com o conceito de hotel… No sentido de ser um sítio de inclusão de pessoas de origens muito diferentes, de sítios diferentes, de estratos sociais diferentes também. A fotografia reflete isso porque achamos que a nossa música também é inclusiva e consegue abarcar essas coisas todas.

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Tó Trips e Pedro Gonçalves, abril de 2018
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Tó Trips e Pedro Gonçalves, abril de 2018

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A questão das indumentárias de outros tempos e de terem pessoas mais velhas e mais novas em vosso redor é, também, um honrar do passado e olhar para o futuro?
PG
– No fundo, era essa coisa de teres pessoas de origens diferentes e de tempos diferentes, também. Não estares focado num período temporal qualquer, mas teres um tempo um bocado distendido.
Tó Trips – A nossa música também tem um pé no passado e outro no futuro… No futuro, ou seja, nos dias de hoje. E isto também tem a ver com os dias de hoje, as cenas do turismo, da gentrificação, da globalização. Dizemos sempre que somos de Lisboa… e a cidade mudou. Então, a fotografia é feita num sítio do passado que vai ser agora outro sítio. Ou seja, nunca mais vamos ter o espaço onde aquilo foi fotografado, vai ser outro… Vai pertencer à memória.

Aquele edifício, no fundo, simboliza aquilo que há de bom e de mau na gentrificação. Está naquele estado ruinoso, mas vai ser recuperado…
TT
– Vai ser recuperado para ser outra coisa. Já não vai ser um cinema… Mas isso passa-se em todo o mundo.
PG – A grande vantagem neste processo todo é que, de alguma maneira, a cidade está a renascer. Ou seja, tens edifícios que estavam abandonados há 20 e tal anos ou mais, este é um belo exemplo, que estão a ser recuperados. Se calhar o objetivo não é o mais sensato, mas pelo menos vamos ficar com uma cidade nova.
TT – A única coisa diferença são as pessoas, não é? Recuperam-se os edifícios, mas a cidade é feita de pessoas.
PG – Estavam a contar-me, há bocadinho, que por ano, se não estou em erro, saem do centro de Lisboa cerca de mil pessoas porque não conseguem ter casa.

A bateria de ‘Deus Me Dê Grana’ dá a entender logo no início que há aqui mudanças. Sentem uma necessidade constante de agitar a sonoridade dos Dead Combo ou neste disco houve algo de diferente?
PG – Foi um bocadinho diferente. Nos outros discos tentávamos sempre encontrar algo que nos levasse por outros caminhos e nos obrigasse a fazer as coisas de maneira diferente. Desta vez, e pela primeira vez, tivemos um produtor externo – quem produzia os nossos discos éramos nós – e demos-lhe liberdade total. Curiosamente, a primeira coisa que montou, quando chegou ao estúdio, foi a bateria. Para nós, seria sempre ao contrário. Montávamos as nossas coisas, gravávamos primeiro e só depois púnhamos a bateria.
TT – Sim, a bateria era sempre o final.
PG – Ou seja, só esse processo que foi iniciado por ele mudou logo tudo.
TT – Gravámos sempre as bases das músicas com bateria. Normalmente gravávamos nós e depois é que metíamos bateria, ou não.
PG – E os próprios arranjos das músicas foram feitos pelo Alexandre Frazão em conjunto connosco.

Tiveram algum receio que este produtor, o Alain Johannes, que já gravou com a PJ Harvey e os Queens of the Stone Age, vos afastasse demasiado do som dos Dead Combo?
PG – Não…
TT – Ainda houve umas dúvidas. Eu, pelo menos, tive um bocado de dúvidas se ele não ia americanizar o disco. Mas não. Aliás, até foi engraçado porque ele não conhecia Carlos Paredes, por exemplo, e ficou apaixonado pela música dele… É uma maneira diferente de tocar, pronto. Nós mostrámos-lhe muita música portuguesa, desde antiga até agora.

Como chegaram até ele?
PG – Foram uma série de coincidências. Primeiro gravámos umas seis músicas sem produtor. Fomos para estúdio e gravámo-las. E estivemos quase um ano com elas gravadas, mas sem fazer nada. Depois, decidimos que era fixe termos um produtor… Aliás, antes disso, convidámos o Mark Lanegan para cantar uma música e quem gravou em Los Angeles, curiosamente, foi o Alain Johannes. Quando decidimos ter um produtor, lançámos uma data de nomes e o dele foi o que se destacou mais. Entrámos em contacto com o manager dele, se não estou em erro, e foi tudo super fácil. Musicalmente, não foi muito interventivo, foi mais em termos sonoros, de texturas. Quando gravávamos uma guitarra, ele ia lá sempre afinar o nosso som e os efeitos… E sugeria montes de coisas às quais nunca chegaríamos, porque não são óbvias para nós. Nisso, ele mudou muito o som dos Combo.

A ideia de terem o Mark Lanegan a cantar ‘I Know, I Alone’, um poema de Fernando Pessoa… Ele já conhecia a obra dele?
PG – Sim, já. Sugerimos-lhe uns três poemas que não eram tão cantáveis quanto aquele. Enviámos-lhos junto com a música e ele disse “vamos lá fazer isto”. Depois, esteve para aí dois meses a dizer-nos “agora estou na estrada, mas vou ver o que consigo fazer com isto”. Um dia, enviou-nos um mail a dizer “epá, olhem, descobri um poema que é mesmo fixe para cantar. Se calhar vocês queriam era que eu falasse…”. Respondi: “não, tu fazes o que quiseres!”.
TT – Aliás, ele veio cá e oferecemos-lhe o “Livro do Desassossego”, que ele já tinha.

Têm uma canção precisamente chamada ‘Desassossego’ aqui. É um poeta que une os vossos gostos?
PG – Sim, sim… Aliás, já o segundo disco se chamava “Quando a Alma Não É Pequena”. É sempre uma figura presente, de alguma maneira.
TT – Há poucas imagens dele. É quase uma figura iconográfica, sempre uma coisa meio pictográfica, o Fernando Pessoa. Há umas fotografias, há pinturas, mas é uma figura quase imaginária.

A forma como compõem é algo que tem vindo a evoluir ao longo dos anos?
PG – Com o passar do tempo, fomos conseguindo perceber cada vez melhor o nosso universo, que é bastante vasto, e, com muita clareza, o que cabe ou não dentro desse universo dos Dead Combo.
TT – Quando queremos mudar também temos ali uns muros. “Epá, isto não é Dead Combo”. É assim um bocado um paradoxo… Às vezes, queremos sair ou fazer diferente, mas temos essas balizas. Não estou a ver o pessoal a pôr cenas eletrónicas, não sei.

Como nasceu ‘The Egyptian Magician’, tema que dedicam ao Zé Pedro?
TT – A música nasceu antes [da morte do Zé Pedro]… O Zé era uma pessoa supergenerosa e muitas vezes oferecia umas coletâneas à malta amiga que ele próprio gravava e começavam sempre com…
PG – Um trecho de uma coisa que era dos Jerky Boys, “hey love, this is the egyptian magician”…
TT – Eram as coletâneas do “egyptian magician”. Começavam sempre com essa gravação e depois tinham uma seleção que ele fazia e oferecia aos amigos.
PG – O Zé sempre foi uma pessoa importante para nós. Tocou no primeiro disco connosco, apoiou-nos desde o início, esteve sempre ao nosso lado. Queríamos de alguma maneira prestar-lhe… Não é bem uma homenagem, é um “obrigado” mais declarado, mas sem aquelas coisas de arranjar um título meio estúpido. Foi a melhor maneira que arranjámos de o fazer.
TT – É, se calhar, a música mais rock.
PG – Sim… Seria uma boa música para ele… Acho que ia gostar.

E ‘Dear Carmen Miranda’… como viajaram os Dead Combo até ao Brasil?
PG – Isso é aqui responsabilidade deste meu colega, o mais brasileiro de todos, sempre a dizer mal do Brasil mas sempre a aproximar-se dele (risos).
TT – Eu sou muito preconceituoso com música brasileira. Fartei-me de levar com ela nos anos 80, não estava nem aí… Embora haja coisas muito boas. Foram sempre umas paragens onde nunca fomos com a nossa música. Mesmo o ‘Deus Me Dê Grana’, no início, era brasileirada… É uma maneira de um gajo passar ao largo, tentar…
PG – Eu acho que ele, com a idade, ficou mais mole, então cedeu à coisa, “pronto, está bem… ‘bora lá fazer uma coisa brasileira”.

Passados estes anos, ainda sentem ecos da projeção que tiveram no estrangeiro quando o Anthony Bourdain vos convidou para o “No Reservations”?
PG – Teve um impacto gigante mesmo… Na altura, nem soubemos aproveitar bem, gerir a coisa, porque nos apanhou a todos de surpresa. Mas ainda hoje se nota. Acontece com alguma regularidade recebermos mensagens de gajos da Indonésia ou do raio que o parta a dizer “descobri agora a vossa música através do programa do Bourdain”.
TT – Sim, o pessoal vende vinis para a Austrália, para muito sítio.

E com as plataformas de streaming têm noção de que países ouvem mais a vossa música?
PG – Há um sítio onde temos imensa malta a ouvir-nos que é em Istambul. É um daqueles sítios onde nunca diria que havia muita gente a ouvir os Dead Combo. Mas há… Nos topes aparece Lisboa, Porto e depois Istambul.
TT – E já fomos tocar à Turquia duas vezes ou três.

Os Dead Combo apresentam “Odeon Hotel” frente aos Armazéns do Chiado, em Lisboa, este sábado, dia 21 de abril, às 18h.

Entrevista publicada originalmente no Expresso de 14 de abril.