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José Mário Branco

Nos 50 anos de carreira de José Mário Branco cabem as nossas vidas

Começou a sua carreira há cinco décadas aliado a duas paixões: a poesia e a música. Foi uma voz de mudança quando a palavra era censurada mas nunca desistiu de travar todas as batalhas. Hoje é inspiração para muitos artistas portugueses, de Camané a JP Simões, dos Mão Morta a Chullage e aos Linda Martini. Fomos ouvi-los

Soraia Pires

Soraia Pires

Jornalista

A paixão pela música apareceu ainda em criança, por influência do pai. Uma das recordações mais antigas que tem é a de ir a um dos almoços de domingo na casa da tia materna e ouvir uma canção na rádio. Os pais, que foram à procura do menino, encontraram-no a chorar agarrado à telefonia – estava a ouvir um quarteto de cordas. «José, o que estás a fazer?», perguntam-lhe. «Eu quero tocar isto», respondeu. O «isto» era violino, o menino era José Mário Branco. O menino cresceu e agora celebra cinco décadas de discos e assinala a data com a reedição de todos os seus álbuns: Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), Margem de Certa Maneira (1973), A Mãe (1978), Ser Solidário (1982), A Noite (1985), Correspondências (1990), Ao Vivo em 1997 (1997) e Resistir É Vencer (2004).

Nestes 50 anos de carreira de José Mário Branco cabem as nossas vidas. Porque não foi um cantor da revolução, mas da revolta – que se prolonga durante anos porque a revolta não acaba, transforma-se. E é isso que toda a obra reflete: uma inquietação contínua com o que se passa no país, com o povo e consigo. Ao longo dos anos viveu muitos sonhos, travou muitas batalhas, mas nunca desistiu. As cantigas dele foram uma arma e ele não sabia.

Para falarmos do início da carreira de José Mário Branco temos de recuar no tempo até 10 de julho de 1963. O jovem José Mário foi chamado para o serviço militar durante a Guerra Colonial e, como se recusou – não queria ir para a linha da frente da guerra lutar contra os seus «irmãos de cor», como canta em «A Ronda do Soldadinho» –, a clandestinidade era a solução. Passou a fronteira com os seus familiares – que não faziam ideia do que estaria para acontecer – e foi para Paris com um pijama e uma muda de roupa na mala. Tornou-se num refratário. Saiu do país mas nunca deixou de ser português e de lutar por aquilo em que acreditava, a liberdade.

Em França, encontrou uma guitarra perdida por casa e, devido à influência de José Afonso, começou a usá-la por instinto. Assim nasce José Mário Branco enquanto cantor de contestação do Estado Novo e da guerra que, com a ajuda de dois grandes amores – a poesia e a música – cantou e protestou. É compositor, produtor desde cedo, fez arranjos em discos de Sérgio Godinho e José Afonso – os passos que ouvimos no início da emblemática «Grândola, Vila Morena» foram gravados em Paris por ele – e é também encenador. Fez parte do GAC (Grupo de Acção Cultural) trabalhou para os Gaiteiros de Lisboa. Em Portugal, é uma influência e inspiração para nomes como Camané, Chullage, Linda Martini e JP Simões. É um cantautor que ultrapassa géneros musicais, que canta a sua dor em «Inquietação», que deixa um aviso em «Alerta!», que arrepia em «FMI» e que questiona. Sempre.

José Mário Branco no arranque dos anos 80

José Mário Branco no arranque dos anos 80

Arquivo Gesco

«Ele transforma o cobre em ouro»

José Mário Branco é conhecido pelo rigor em tudo o que fez e faz. Desde o primeiro disco, em que se estreou com as palavras de Camões em «Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades», em 1971, que lhe perceberam um estilo único. Adolfo Luxúria Canibal, vocalista da banda Mão Morta, aponta para a exclusividade sonora do cantor: «dentro da geração dele, que ficaram ligados à canção de intervenção e pós-25 de Abril, há três nomes incontornáveis: Sérgio Godinho, José Afonso e José Mário Branco. Destes três, o último é o que tem uma interpretação mais inteligente. E tem uma capacidade de arranjo e melodias extraordinárias que o distingue dos outros». Foi essa capacidade que fez com que a banda de Adolfo tivesse vontade de fazer uma canção com o cantor. Os Mão Morta compuseram «Loucura» a meias com José Mário Branco: foram trocando ficheiros através da internet e conseguiram produzi-la à distância. Foram para estúdios em dias diferentes, mas correu «tudo bem». O encontro pessoal só aconteceu em 2012 num espetáculo solidário em Guimarães que contou com a presença de nomes como Carlão, Sérgio Godinho e Fausto. E a empatia foi imediata porque havia muita discordância no trabalho coletivo mas «quando o Zé Mário falava, quase de uma forma patriarcal, a coisa era executada por todos e depois percebíamos outra perspetiva, que acabava por ser sempre a melhor solução. Ele tem um grande conhecimento musical», assinala Adolfo.

Desde pequeno que a música faz parte da vida de José Mário Branco. Quando quis aprender a tocar violino, teve aulas no Conservatório que duraram poucos meses porque ensinavam-no a pegar no instrumento de cordas e no arco, mas era proibido de produzir som, como contou em entrevista a Soraia Simões, Investigadora integrada do Instituto de História Contemporânea (IHC), na Universidade Nova de Lisboa. Aí perdeu a paixão pelo violino, tal como perdeu mais tarde pelo piano. O entusiasmo pela música só regressou na adolescência, na Escola Parnaso, no Porto, uma fase da vida que o marca para sempre. Conheceu poetas e Luís Monteiro, que lhe abriu as portas para a Etnomusicologia. Aqui, entra em contacto com as músicas contemporânea, dodecafónica, concreta e eletrónica.

«Não foi por acaso que José Afonso e Sérgio Godinho o colocaram como arranjador em muitos dos seus trabalhos. Ele consegue transformar o cobre em ouro e criou um legado no sentido em que, com o seu trabalho único, deixou um espaço que não pode ser ocupado por ninguém», conta-nos a voz dos bracarenses Mão Morta.

O cantor e compositor JP Simões, que fez uma versão de «Inquietação» e que é, reconhecidamente, admirador da obra de José Mário Branco, aponta como essencial nesta a influência da chanson française e o trabalho de Michel Giacometti em torno da música tradicional portuguesa. «Um dos objetivos do antigo regime era homogeneizar o que era tipicamente português, e o Giacometti abre essas portas para um Portugal muito rico em música. José Mário e José Afonso entram nisto, que é novo, e é como se voltassem a dar continuidade à história de Portugal na música. O Zé Mário é um inovador».

«Ele estava muito à frente»

É com um sorriso no rosto que Camané fala sobre José Mário Branco. O fadista admite que o seu percurso não seria o mesmo se, a caminho, não encontrasse José Mário Branco. Nem a música portuguesa: «aquilo que o Zé fez é de uma importância extrema. Quando o ouvimos, descobrimos aquele bom gosto, a melodia, os arranjos… E tudo o que lá está é de uma evolução muito grande porque ele era muito mais do que baladeiro, não era só viola. Ele abriu um caminho para tudo o que vem a seguir».

Para José Mário Branco, é enormemente importante a forma como, na música, se passa a mensagem. Daí ser tão exigente no que faz: porque tem de existir uma melodia e uma qualidade sonora em conjunto com a letra. Por isso é que, já no pós-25 de Abril, decide comprar uma carrinha com uma aparelhagem, porque «como já aconteceu, recusava-se a cantar para dentro de um copo de plástico ou em cima de tratores», como disse num documentário da RTP (A Cantiga Era Uma Arma). Camané aponta no mesmo sentido: «todo o trabalho dele é incrível, porque não foi só a mensagem que ele passou, foi a forma como a passou, o que ele fez para criar música. O rigor, o bom gosto, a estética. Foi muito mais do que “pegar na viola e fazer qualquer coisinha”».

Camané conheceu José Mario Branco numa noite de fados, em Lisboa, nos anos 90. Foi Carlos do Carmo quem os apresentou. O fadista conhecia a obra do cantautor e sempre se impressionou pela forma como este coloca emoção nas palavras que canta. Anos depois, e por sugestão de Amália Rodrigues, Camané foi contratado para fazer um disco. Numa das noites de fados em que se encontra com José Mário Branco, o fadista convida-o para produzir o álbum. A resposta foi imediata, e ainda hoje é José Mário Branco o seu produtor, duas décadas depois. «Não foi fácil trabalhar com ele, mas foi muito bom porque desde o início que ele me passou ensinamentos incríveis, como encontrar o registo emocional certo para a minha forma de cantar fado. Foi um crescimento fundamental para eu fazer tudo o que fiz e para fazer apenas aquilo em que eu acreditava», recorda o fadista.

Camané não tem dúvidas: José Mário Branco é «um compositor extraordinário e a música que ele fez vai muito além da intervenção. Ele sempre esteve muito à frente do que se fazia naquele tempo».

José Mário Branco (direita), com Rui Veloso (centro) e Carlos do Carmo (esquerda) em 1985

José Mário Branco (direita), com Rui Veloso (centro) e Carlos do Carmo (esquerda) em 1985

Arquivo A Capital

«É como se transpirasse indignação»

Da obra de José Mário Branco, o fadista lembra-se imediatamente de «Ser Solidário» como uma canção «de outro mundo», destaca «Inquietação» – da qual fez uma versão – como um tema eterno, porque «podemos contextualizar cada pedaço da letra em qualquer fase da nossa vida» e respira fundo com «FMI», porque é uma canção mítica, em que soltou «palavras muito bem escritas» num concerto ao vivo arrepiante, «em que transpira hip-hop por todo o lado». Uma canção tão sentida que José Mário Branco deixou de cantá-la em concertos.

É essa carga emocional que JP Simões destaca no trabalho do cantor. «O que mais me toca na música dele é a sua transparência em relação aos sentimentos. É muito épico-dramática, como se transpirasse indignação, tristeza. Para mim, um bom artista é aquele que se revela com sinceridade. O Zé Mário é assim». E lembra-se logo, claro, do fundamental «FMI».

«Mãe, eu quero ficar sozinho / Mãe, eu não quero pensar mais / Mãe, eu quero morrer, mãe / Eu quero desnascer e ir-me embora / Sem sequer ter de me ir embora / Mãe, por favor». Os Linda Martini ficaram tão impressionados com «FMI» que quiseram utilizar um sample da canção em «Partir para Ficar», do álbum de estreia, Olhos de Mongol (2006). «Ainda hoje me arrepio. É muito visceral. Ficámos muito lisonjeados por ele nos ter deixado usar a obra», lembra André Henriques, vocalista da banda de rock lisboeta, que compara o entrelaçar da palavra de José Mário Branco ao que se faz no hip-hop. «Neste estilo, fala-se muito no Sérgio Godinho, mas o José Mário também tem um uso da palavra com uma mestria que só ele tem, usa-a como elemento rítmico, como fazem os rappers».

Nuno Santos, rapper português conhecido por Chullage, lembra-se de pensar que o hip-hop era a música de intervenção por excelência em Portugal. Depois apareceu José Mário Branco na sua vida. Quando começou a ouvi-lo, percebeu que estava a dar continuidade a algo que já existia.

Enquanto cantor de intervenção em tempos de ditadura, as canções de José Mário Branco representam uma postura de resistência. Falou sobre as questões que o atormentavam, e ao povo também: a guerra, o exílio, os soldados, o pão, a saúde, a habitação. Fez ajustes de contas com as canções que escrevia e compunha. Mas José Mário Branco não é só um cantor de intervenção, defende Chullage: «Ele é muito profundo e abrangente. Fez canções para o teatro, para os gaiteiros, produz os discos do Camané. É um artista fenomenal». E é isso que faz dele uma influência para o rapper. «As letras dele influenciam-me imenso e ouço-o muitas vezes porque o seu trabalho com as palavras é tão forte como é a perspetiva política das letras. É um artista que pôe a sua inspiração ao serviço de algo maior que ele próprio. Que canalizou».

José Mário Branco no seu "local de trabalho", fotografado para a BLITZ em 2011

José Mário Branco no seu "local de trabalho", fotografado para a BLITZ em 2011

Rita Carmo

Também a atitude do cantautor é uma influência para quem o admira. Camané aprecia a frontalidade e o facto de não querer ser um cantor de massas, porque só faz aquilo em que acredita. O vocalista dos Linda Martini acredita que a forma como ele pensa as coisas sem nunca fazer cedências faz dele um «artista único. Ele tem uma visão só dele e é isso que interessa».

Chullage destaca a forma como José Mário Branco «renuncia a indústria cultural de distração» e como mantém o foco nas ideias de mudança. «Os discos dele vão continuar a ser sempre atuais e cada vez que o ouço, decifro coisas novas para o meu trabalho. Muitas vezes pergunto-me: “Como faria o José Mário Branco?”».