Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Bauhaus

Vampiros, sombras e rock’n’roll

As memórias assombradas do rock gótico. Uma história com Bauhaus, Cure, Sisters of Mercy, Siouxsie & the Banshees, Clan of Xymox, entre outros

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Ao fim de seis semanas de vida uma nova banda recentemente formada em Northampton (nas chamadas Midlands, em Inglaterra) marcou três horas num estúdio para gravar uma primeira maquete. Entre os temas que levavam na bagagem estava um que ia para além do formato habitual da canção pop/rock, traduzindo, por um lado, uma curiosidade pelas possibilidades cenográficas levantadas pelo dub e, por outro, um interesse em temáticas que passavam pelo universo dos vampiros e um fascínio pelo oculto. Entre ensaios, a banda falava sobre as qualidades eróticas dos filmes de vampiros, tendo por esses dias chegado mesmo a debater as conotações nos domínios da sexualidade que habitavam as personagens e situações do universo da figura de Drácula... Bela Lugosi, que em 1931 vestira a pele da figura criada ainda no século XIX pela escrita de Bram Stoker, numa histórica adaptação ao cinema assinada por Todd Browning, era assim, inevitavelmente, uma memória que passava por estas conversas. A ideia, que partira de David J, o baixista, era a de criar uma canção sobre a morte de Bela Lugosi, sugerindo a dada altura que, tal como os vampiros, não estaria afinal morto.

Quatro anos depois, esta mesma canção surgia nos momentos iniciais de Fome de Viver (The Hunger, no original), um filme de vampiros realizado por Tony Scott e protagonizado por David Bowie, Catherine Deneuve e Susan Sarandon. As qualidades performativas da banda, focadas aqui nos gestos e rosto do seu vocalista, Peter Murphy, serviam que nem uma luva a cena que os mostrava, dentro de uma jaula, em plena atuação, num clube, sob o atento olhar de dois rostos que congeminam algo de sinistro que se sente a ganhar forma... Ninguém melhor do que os Bauhaus poderia traduzir o tom assombrado que aquela sequência exigia. Ninguém como eles poderia também ter lançado as pistas para um mundo de visões sombrias, por vezes mórbidas que, entretanto, ganhara demais seguidores entre outros descendentes das mesmas heranças encontradas entre ecos do glam rock (sobretudo na inspiradora figura de David Bowie) e de mais recentes tendências em marcha em terreno pós-punk. Chamaram-lhe rock gótico... Não foi mal pensado, não senhor.

Peter Murphy, dos Bauhaus, na cena inicial do filme "Fome de Viver"

Peter Murphy, dos Bauhaus, na cena inicial do filme "Fome de Viver"

Os herdeiros de Bela Lugosi

David J, o seu irmão Kevin Haskins (baterista) e o guitarrista Daniel Ash tinham já partilhado em conjunto a breve vida dos Craze... Numa nova aventura, Daniel tentou trazer a bordo a presença do amigo e colega de escola Peter Murphy, que lhe parecia ter look certo para ser o rosto por detrás do microfone. Entre finais de 1978 e os primeiros meses de 1979 lançaram as primeiras ideias que definiriam o rumo futuro da música da banda, assim como os conduziriam a uma versão mais simples (e eficaz) do seu nome. Tinham começado por se apresentar como Bauhaus 1919, a data sublinhando o momento do nascimento da célebre escola artística alemã, mas que acabou depois por ficar omitida... Bauhaus seria, assim, o nome pelo qual, algumas semanas após a gravação da maquete, a banda apresentaria como single de estreia precisamente o invulgar «Bela Lugosi's Dead», tema de nove minutos que valorizava o trabalho de criação de uma atmosfera gerado pelo baixo e a bateria e que tinha na voz de Peter Murphy a materialização de uma certa teatralidade claramente herdada de uma admiração por David Bowie.

A procura de imagens para a capa levou-os a clássicos de terror dos tempos do cinema mudo, de The Sorrows of Satan (1926), de D.W. Griffith, ao mítico Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, filme cujas imagens conheceram, através dos Bauhaus, novos sentidos para uma nova geração de espetadores. A imagem da sombra de um morcego projetada na parede ou do estranho Cesare, do filme de Wienne, foram usadas na capa e outros materiais gráficos. O imaginário gótico aliava ali um som a uma identidade visual, herdando ecos de uma literatura nascida no período romântico. O rock gótico ganhava forma sob uma entusiasmante paleta de referências.

O single causou um impacte tremendo, cativando ora a atenção de figuras-chave dos media (como o radialista John Peel, da BBC) ou de editores, tendo a 4AD acabado por contratá-los, editando em 1980 o álbum de estreia In The Flat Field, que levaria ainda mais adiante a construção de uma identidade sombria, introspetiva, mas vibrante, intrigante. Juntavam-se, no álbum, sinais de uma formação individual que passara pelos heróis do glam rock (mais adiante fariam, de resto, versões de Bowie, Brian Eno e T-Rex). Ao mesmo tempo, a música exibia um gosto por desafios mais próximos dos planos do rock experimental. O tempo assistiria a uma evolução da música no sentido de, sem perder o minimalismo que sempre definiu o som dos Bauhaus, suavizar arestas e juntar outros elementos rítmicos e melódicos que definiriam uma obra que se manteve em grande forma até à sua separação anunciada em 1983 após a edição de Burning From The Inside.

Siouxsie Sioux

Siouxsie Sioux

Os contemporâneos...

Nascidos do caldeirão em ebulição da revolução punk, os Siouxsie and the Banshees assinalaram a viragem dos setentas para os anos 80 com um terceiro álbum ao qual juntavam um trabalho mais elaborado no plano dos arranjos e cenografia das canções. Programações, sintetizadores e sugestões de exotismo apontadas a outras geografias culturais acrescentam uma dimensão com uma outra teatralidade, que a imagem da banda - sobretudo a da sua vocalista Siouxsie Sioux - revelava então num plano então já bem distante do visual mais canónico do punk (com que a vimos, por exemplo, em imagens do filme Jubilee, de Derek Jarman). Entre Kaleidoscope (1980) e, sobretudo, Juju (1981), a banda acrescenta elementos que, pouco depois, permitiriam criar a noção de que havia várias movimentações em torno de um espaço estético novo em afirmação.

Teatralidade vocal, uma presença notória do trabalho do baixo, tons (e temas) sombrios, uma busca de climas invulgares ou de abordagens mais imponentes nas cenografias (contando, sem temor, com a presença de sintetizadores), juntam-se para desenhar um patamar de entendimento que então se cruza também com o trabalho que estava a ser desenvolvido pelos The Cure, havendo quem aponte ainda como o tom assombrado que exalava de Closer (1980), dos Joy Division, ajudou a juntar todas estas pistas.

Nascidos em 1979, mas com estreia discográfica em 1980 com o single «I'm Falling», os Dead or Alive são outro nome a ter em conta entre os pioneiros deste movimento. Oriundos de Liverpool, tinham em Pete Burns um protagonista exuberante e uma voz em sintonia com as premissas. Até à sua reinvenção sob matrizes funk e pop, os primeiros singles dos Dead or Alive são tesouros quase esquecidos da génese do rock gótico. Formados em 1980, em Leeds (Escócia), os Sisters of Mercy tornar-se-iam em poucos anos num nome de proa do movimento. Com o nome inspirado numa canção de Leonard Cohen, estreiam-se logo nesse ano com o single «The Damage Done», cativando maiores atenções mais tarde com o célebre «Temple of Love» (1983) e, depois, o álbum First Last and Always (1985). Elemento da banda durante algum tempo, o guitarrista Wayne Hussey acabaria por se afastar, formando primeiro os Sisterhood (pelos quais gravou canções originalmente destinadas aos Sisters of Mercy) e, depois, os The Mission, outro dos pilares do rock gótico.

The Cure em 1980

The Cure em 1980

... e os sucessores

É dos descendentes tanto dos Bauhaus como destes restantes pioneiros de um novo sentido de teatro sombrio nascido do pós-punk que, na primeira metade da década de 80, nascerá o conjunto de bandas que hoje reconhecemos como paradigmas do rock gótico. Um dos primeiros nomes a entrar em cena numa geografia exterior à inglesa foi o dos Clan of Xymox. Foi em Amesterdão (Holanda) que em 1981 se juntou o núcleo de três músicos que, depois de serem convidados para fazer primeiras partes numa digressão dos Dead Can Dance, deram por si no catálogo da 4AD, pela qual lançaram dois álbuns, um deles – Medusa (1986) – sendo um dos títulos de referência deste espaço estético. O mesmo ano assistiu, de volta a terreno britânico, a uma outra estreia. Vindos de Bradford (no Yorkshire), os Southern Dead Cult – com Ian Astbury como vocalista – começam por mostrar sinais de afinidade com a emergente cena gótica quando em 1982 editam o single «Moya/Fatman». A separação da banda em 1983 e as futuras experiências nos Dead Cult e, depois, The Cult, acabam por afastar Astbury destes caminhos.

O impacte de muitas destas bandas era visível em meados dos anos 80, sucedendo-se novas gerações que juntaram novos desafios aos ecos da mesma caverna primordial. De uns Fields of The Nephilim, Gene Loves Jezebel ou All About Eve a experiências mais recentes como Zola Jesus ou os The Horrors, as sombras nunca nos abandonaram...

Originalmente publicado na revista BLITZ - História do Rock número 2, de outubro de 2017, dedicada ao ano de 1980