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Mariza - Fado Tradicional [leia aqui a crítica da BLITZ]

Novo disco de Mariza lançado hoje, 26 de novembro. Leia a crítica da BLITZ.

Austeridade é palavra-chave de quinto álbum da super-fadista. Mas, ao contrário da reação ao Orçamento de Estado, aqui a poupança é bem-vinda.



Um dos nomes portugueses mais conhecidos em todo o mundo, Mariza anda há quase dez anos a calcorrear o planeta, fazendo muito pela popularidade do fado, não só a nível internacional mas também dentro de portas. Basta lembrar que Fado em Mim, o seu primeiro disco, foi para as lojas mais por insistência de um empresário holandês do que por vontade da própria artista. Em 1991, recordou a cantora em conversa com a BLITZ, investir em fado não era uma prioridade das editoras nacionais, por não se adivinhar frutuoso retorno. Hoje, é certamente um dos géneros musicais mais rentáveis, escapando até à pirataria que ameaça a indústria discográfica. Mariza, a sua voz, a sua iconografia e a sua presença, têm muito mérito no reposicionamento do fado no mercado, tendo ajudado a torná-lo num som urbano e cosmopolita, sem com isso trair as suas raízes.



Das viagens, pela sua terra e pelas dos outros, Mariza, que pretende evitar a todo o custo a palavra "fusão", trouxe naturais influências que fizeram de Terra, o seu disco de 2008, um trabalho um pouco mais mestiço, com os temperos de África e da América Latina a imiscuírem-se, com graciosidade, no fado e no ritmo da portuguesa. Fado Tradicional é, após essa viagem, o regresso a casa que Mariza ambicionava, e para o qual se diz agora preparada. Voz e guitarra portuguesa são a matéria-prima de Fado Tradicional, um título transparente no que toca ao seu conteúdo: aqui se encontram fados sofridos ("Fado Vianinha" e "Promete, Jura", as duas ótimas faixas de abertura), momentos mais festivos ("As Meninas dos Meus Olhos") e até um poema de Fernando Pessoa, cantado com desembaraço em "Dona Rosa". A unir todas estas facetas, num disco predominantemente introspetivo, está a força estoica de Mariza, quase sempre contida e talvez mais próxima do que nunca das palavras - é impossível ouvi-la cantar, em "Mais Uma Lua", "Vivo muito bem dentro de mim" e não acreditar. Ainda assim, o momento "para o arrepio" é mesmo "Ai, Esta Pena de Mim", em tempos protagonizada por Amália e aqui interpretada quase "a cappella" por uma Mariza invariavelmente rigorosa e imponente.



4/5



Texto de Lia Pereira



Crítica publicada na revista BLITZ de dezembro (capa Arcade Fire), já nas bancas