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À volta do lixo

Enquanto Duran Duran ou Soft Cell dominavam topes, o subsolo inglês dos anos 80 vivia um ‘pesadelo’ de rock ácido denominado ‘trash’. Thee Milkshakes, Cannibals, Psylons, Sting-Rays... Uma história por celebrar

“Já se sentiram deslocados, incompreendidos e sozinhos? Indesejados por se encontrarem tão desalinhados com o que está na moda? Bem, era assim que eu e a minha banda nos sentíamos em 1981”, escreve Mike Spenser, pioneiro do rock poeirento britânico da década de 80, num dos textos incluídos no livrete de “Just a Bad Dream”, compilação de 60 mimos de garage rock no Reino Unido depois do punk. Spenser apresenta a “vista de Londres”, mas o sentimento de desadequação é extensível à “vista de Medway”, assinada por Vic Templar, escritor e crítico na revista “Shindig!”, que recorda uma festa de Natal no liceu com os Thee Milkshakes (do multifacetado Billy Childish, nome transversal a uma mão cheia de bandas deste período) na mesma semana em que as tabelas de vendas eram povoadas por Human League, Duran Duran ou Soft Cell, numa altura em que o “NME” e o guru da rádio John Peel entronizavam Gang of Four, The Fall ou Scritti Politti. Igual convicção é comungada por Lenny Helsing (a “vista de Edimburgo”) que, no final de 1980, formara os Green Telescope com uma dieta de influências inusitada à época: Pink Floyd da fase Syd Barrett, Pretty Things, Electric Prunes, 13th Floor Elevators...

De volta a Londres, Spenser – americano, de Nova Iorque – reclama o batismo da ‘cena’. “Se eu fosse britânico, talvez tivéssemos apelidado [o que fazíamos] de garbage, mas vindo de Brooklyn, foi trash”. Assim surge The Cannibals, uma banda que praticamente nasce no The Frontline Theatre, “buraco” com a “vibração perfeita” no bairro londrino de Brixton, “tão grotesco que a perspectiva de ali passar uma noite inteira quase dava vontade de vomitar”. De Medway (Kent, sudeste inglês) brotam os já mencionados Thee Milkshakes, “e de uma banda passámos a duas”, até à chegada de “uns gajos com penteados à unicórnio chamados The Sting-Rays”. E vão três.

Num repente, dezenas de bandas ressuscitavam o espírito garage de meados dos anos 60, estendendo a manta ao psicadelismo, ao mod e ao rockabilly. O auge – aponta John Reed, diretor de catálogo da Cherry Red – é o ano de 1984, em que bandas como os Sting-Rays (da irresistível ‘June Rhyme’), os Prisoners (claramente seguidores dos sixties mais ‘lisérgicos’, vide ‘What I Want’), os inevitáveis Thee Milkshakes (de ‘Brand New Cadillac’, original de 1959 de Vince Taylor que os Clash versaram em “London Calling”) e os Tall Boys (o fervor de ‘Ride This Torpedo’) conheceram breves minutos de fama.

Impulsionado pelo psychobilly dos norte-americanos Cramps, o trash fez-se de declinações do rock and roll de uns Beatles presos em Hamburgo, mas também de simulacros fieis do ‘baile’ dos anos 50 (rara aparição feminina com as Delmonas), ácido garage hiperbolizado pelo imaginário dos clássicos filmes de terror de série B (os infernais Meteors, de ‘Swamp Thing’), fidelidade à surf music (os Escalators, de ‘Munsters Theme’) e a recuperação do proto-punk dos Stooges e até do punk de 77 (a estupenda ‘Waiting Nation’, dos Psylons). O estudo das coletâneas “Pebbles”, repositórios do “punk rock original dos anos 60 psicadélicos”, é essencial para um movimento que – aponta Reed – cativou “juventude tatuada, raparigas com poupas e vestidos dos anos 50, mods nas suas fatiotas, velhos punks em ganga e cabedal negro, estudantes e indie kids” – a presença dos Jesus and Mary Chain com uma releitura apropriadíssima de ‘Vegetable Man’, de Syd Barrett, é tudo menos alienígena. Não há luxo neste lixo; apenas bonitos sonhos sujos.

"Just a Bad Dream - Sixty British Garage & Trash Nuggets 1981-89", uma edição da Cherry Red

"Just a Bad Dream - Sixty British Garage & Trash Nuggets 1981-89", uma edição da Cherry Red

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 8 de dezembro de 2018