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Steve Shelley, dos Buzzcocks

Getty Images

Obrigado, Pete Shelley, por não teres sido mais um duro igual aos outros

Se Buzzcocks é punk, eu serei punk

Nasci no simbólico ano de 1977 mas não nasci ensinado. O punk rock aparece-me aos 15 anos e, distante dos centros urbanos, sem uma loja de discos nas proximidades e a imaginar como soariam as coisas (mais do que a descobrir como soariam as coisas), safei-me como pude.

Chego lá não por uma sede absurda de me amotinar (onde?), ou por ensinamentos de irmãos mais velhos (não tenho), tios informados (quem quer Genesis e prog rock aos 15 anos?) e amigos de vanguarda (havia 2 ou 3 e eram góticos).

Chego lá porque o punk fazia parte do programa das aulas de inglês do secundário (“boredom”, que bonita palavra nova) e comprava o jornal BLITZ todas as terças.

Chego lá porque, a dada altura, chamei a mim o “Generation Terrorists”, dos Manic Street Preachers (que eram punk, glam, hard rock e sensíveis de uma penada só), e emprestaram-me o “The Spaghetti Incident?”, dos Guns N’ Roses (sim, esses), um disco que me cai nas mãos porque o seu dono dele se fartou muito rapidamente. Obrigado, João.

Nesse improvável repositório de versões editado em 1993 descobri New York Dolls, The Damned, UK Subs, Stooges, Dead Boys e outros que tais – obrigado, Duff McKagan, nunca tive oportunidade de te agradecer (mas comprei-te a autobiografia, estamos quites). 46 minutos depois, o punk não significa só Sex Pistols num quarto pouco iluminado do número 16 do Largo da República.

No início do ano seguinte, os Buzzcocks viriam a Cascais aquecer para os Nirvana. Mas eu ainda não tinha chegado lá. Foi preciso virar a página e descobrir o punk californiano herdeiro dos Ramones, o punk dos anos 90, o punk com melodias dentro, para que Buzzcocks entrassem quarto adentro.

Julgo que terei comprado o “Singles Going Steady” logo a seguir ao “Mania” dos Ramones (uma compilação de 1988). A sucessão magnética de canções ansiosas e vitaminadas, açucaradas por melodias irresistíveis, foi um marco no meu até aí imberbe e pouco metódico processo de descoberta musical: se Buzzcocks é punk, eu sou punk. Sem crista, sem needles & pins, sem botas pesadas. Dos orgasmos, dos amores incertos, das harmonias na mente. Dos pontapés, mas também das carícias. Obrigado, Pete Shelley, por não teres sido um duro. Criaste um bom bocado do meu dia seguinte.