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Amber Arcades

Getty Images

Não és tu, sou eu

As políticas do coração são ‘fotografadas’ no segundo álbum de Amber Arcades. Canções doces de indie rock para enganar tempos amargos

“Espero que ainda possamos ser amigos”. Um de nós engole em seco, o outro coloca os lábios em posição de ‘eu não queria, mas’. Mais cedo do que tarde, há uma mão que consola um ombro pequenino. A frase, assassina, é o arquétipo da sentença de morte de um contínuo amoroso. É o botão da bomba atómica, mas também uma sensação de déja vu institucional, a parte do filme em que o guião até aí imprevisível e ‘ó, tão nosso’, tão ‘só nos dois é que sabemos’, segue os burocráticos trâmites tristes. Três, dois, um segundo até à estocada final: “o problema não és tu, sou eu”. (George Costanza, a mais virulenta – e adorável – personagem dos anos 90 televisivos, vide “Seinfeld”, transformou-a em cultura popular há 25 anos).

Annelotte De Graaf, a holandesa que conhecemos há um par de anos como Amber Arcades, trouxe para o seu segundo álbum a rotina “it’s not you, it’s me” – mas do outro lado não se ouve um único suspiro. De Graaf, que também é jurista na ONU especializada em crimes de guerra, despede-se da Europa numa canção que concretiza o ‘despedaçado coração europeu’ que o título do disco encerra. ‘Goodnight Europe’, que vagueia entre uma laziness resignada na voz, um riff de guitarra ‘beatlesco’ e cordas pungentes, é escrita do ponto de vista de um pós-Brexit: “Europe, it’s not you/ I’m starting to think/ it could be me/ My left ideals and university degree/ Europe, I’m lonely/ Everyone got bored and moved along/ Now I’m left here, wondering if I still belong”. “All alone in the eurozone”, remata, clamando no vazio.

“Para mim, a rutura amorosa simboliza a falência dos conceitos e narrativas que inventamos para nós próprios, como viver uma vida romântica, o sentido de identidade, de nacionalidade, um sistema económico”, elabora no texto de apresentação do álbum. De forma simplificada, “European Heartbreak” trata de assuntos pessoais e negócios estrangeiros e fá-lo com uma claridade musical que não era óbvia em “Fading Lines”, de 2016. Ao segundo tomo, De Graaf procura a contundência, arrumar cada canção dentro do seu próprio recipiente, e isso é evidente logo em ‘Simple Song’, canção em que cordas e suaves sopros à High Llamas convivem com guitarras acústicas e uma voz tão sonolenta como sedutora.

Se os anos 70 californianos assomam no refrão de ‘Hardly New’ (uma parte do disco foi gravada em Los Angeles, a outra nos estúdios Spacebomb, de Matthew E. White, na Virginia), tão rapidamente derivamos para a folk de câmara dos Belle & Sebastian em ‘Oh My Love (What Have We Done)’ como encontramos o piano redentor dos Arcade Fire antes das purpurinas em ‘I’ve Done My Best’. O ecletismo, dentro de um ambiente ‘controlado’, é notório: ‘Self-Portrait in a Car at Night’ – secção de cordas no fundo da sala – poderia ser elevada a outro patamar por alguém como Angel Olsen, mas sem o mesmo serpentear vocal consegue soar à mais sincera declaração; ‘Where Did You Go’ investe numa power pop arenosa que ficaria bem em Courtney Barnett. Só coisas boas.

37 minutos depois, acreditamos em Annelotte De Graaf, mesmo que a imaginemos a vislumbrar o mundo a partir da janela de um loft. Não haverá maneira mais europeia de assistir à ruína de um ideal.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 10 de novembro de 2018