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Opinião

Essex Green

Um disco para 'geeks' melómanos que recusam tratamento

Indie pop à moda dos Belle & Sebastian mas nascida em Brooklyn há 20 anos. Um som quentinho para este outono

Nascidos no bairro de Brooklyn, em Nova Iorque, há duas redondas décadas, os Essex Green são uma das bandas de recorte mais ‘clássico’ do hoje (justamente) deificado coletivo Elephant 6.

Pioneiro do neopsicadelismo, da reabilitação da pop de câmara e de um novo iluminar sobre a folk cósmica, o movimento/editora/comunidade que começou por acomodar Olivia Tremor Control, Apples in Stereo e Neutral Milk Hotel – perfeitas lanças espetadas em território virgem nos anos 90; siga para o seu serviço de streaming já a seguir ao almoço – nunca projetou, contudo, os Essex Green para além de um culto localizado, bem menor do que aquele que seria devotado aos coloridos e ziguezagueantes Of Montreal.

E é uma pena, dado que logo ao álbum de estreia (“Everything Is Green”, de 1999) o trio nova-iorquino de Jeff Baron, Sasha Bell e Chris Ziter mostrou que a ambição em cruzar Left Banke e Fairport Convention (um certo lado B dos anos 60 requintados) não era esforço em vão.

Por facilitismo chamamos-lhe indie pop, mas o que os Essex Green fazem desde então é um remontar das várias tendências da pop orquestrada pós-60, um pouco à medida do que – na verde Escócia – outros pregoeiros do amor mimoso, os Belle & Sebastian, vêm fazendo desde meio dos anos 90. “Hardly Electronic” é, digamos, dificilmente um álbum eletrónico. É um bálsamo de guitarras, teclados vintage, arranjos intemporais e vinhetas telúricas, umas vezes embalados por uma brisa suave, outras por uma eletricidade vivamente azul.

54 minutos em que convivem a impossivelmente orelhuda ‘Sloane Ranger’ (portento desse lado B semissecreto), o coro a céu aberto de ‘Don’t Leave It In Our Hands’, o outono gingão de ‘Catatonic’, e até o arremedo jazzístico à Free Design (eles, os de ‘Kites Are Fun’, de 1967) em ‘Modern Rain’. Um disco para geeks melómanos que recusam tratamento.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 20 de outubro de 2018