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Spiritualized

Milagres fazem-se

Novo ‘labour of love’ ao oitavo álbum dos Spiritualized: um quebra-cabeças para J. Spaceman, o seu obsessivo criador; um prazer para quem o quiser provar

Temos duas hipóteses: ou engatamos o mais ácido esgar de desdém, saturados pelos clichés das coisas fofinhas, ou deixamos as glândulas lacrimais lubrificar os cinismos e siga a rusga para ‘o mundo é belo e tu ainda mais’. Vamos por aqui, que se faz tarde. O objeto em apreço é “And Nothing Hurt”, oitavo álbum dos Spiritualized, e a aventura começa com ‘A Perfect Miracle’, pequena fantasia prenhe de candura. Doze segundos volvidos e a quebradiça voz de J. Spaceman (Jason Pierce) não faz disto segredo: “I’d like to sit around and dream you up a perfect miracle/ I’d part the clouds and have the sun proudly shining on you/ I’d take the stars as well and line them up to spell ‘Darling, I love you’/ And little by little watch it all come true/ I’d like to sit around and dream you up a perfect miracle/ I’d catch the wind and have it blow all my kisses to you/ I’ll take the birds and teach them all the words of every love song I know/ And I’d have them fly around and sing them all to you”. Violinos, pompa, coração nas mãos, pássaros a voar e floreados que tais, ‘vem cá que eu não sei viver sem ti’. Caramba, Jason, jogo sujo!

Avancemos. Exhibit 2. ‘I’m Your Man’, sopros à soul da Stax numa balada épica com aquela centelha da viragem dos sessentas para os setentas, soalheira e cândida nos versos, fecunda num chorus que desculpa a sacanice: “But if you want wasted, loaded, permanently folded/ Doing the best that he can/ I’m your man, I’m your man”. É a canção mais bonita de Spiritualized desde as sinfonias nada portáteis de “Let It Come Down”, há 17 anos.

‘Here It Comes (The Road) Let’s Go’, novamente em toada redentora, com aquele manto gospel e a espiritualidade americana que já vem de trás (este homem tem um álbum chamado “Amazing Grace” em 2003), não deixa tempo para balanços provisórios – Pierce atiça-nos com o seu lado mais dengoso; em ‘Let’s Dance’, quarto momento, parece consumar uma carta de intenções: a sedução declarada do outro, um apaziguamento de meia idade, a cruel constatação de que o tempo não é para deitar fora (e aqui podemos suspeitar de um subtexto autobiográfico, já que as maleitas de Pierce fazem dele um caso vitorioso da medicina, vide “Songs in A&E” em 2008).

Daí para a frente, senhoras e senhores, flutuamos no espaço (‘Damaged’ planante, sinfónica; ‘The Prize’ abrindo a caixinha de música), mas também firmamos os pés (o rock escaldante de ‘On the Sunshine’ e ‘The Morning After’, metais em fúria) e ficamos com a certeza de que Pierce não se entregou inteiramente ao quentinho das mantas; ainda cultiva um lado arisco.

Como é que se faz um disco assim, luxurioso e imponente, com uma fração ínfima do orçamento de “Let It Come Down” (o álbum a seguir ao premiado “Ladies and Gentleman, We’re Floating In Space”, de 1997), um disco mastodôntico, mais de uma centena de músicos, orquestra e coro gospel? Num computador, em casa, com paciência de santo. O processo de ‘corta e cola’ de samples de orquestras de clássica, fragmentos gravados em estúdio (nomeadamente os instrumentos grandes, como os tímpanos) foi descrito pelo seu artesão como “exasperante” e “a maior loucura em que já me meti”, mas estas nove canções nunca, em momento algum, parecem diminuir o que Spiritualized já foi. Pelo contrário, chegam ao mesmo cume altíssimo depois de inaugurar uma nova rota. Só pode ser amor.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 27 de outubro de 2018