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Freddie Mercury

Getty Images

Freddie Mercury no cinema: ainda não vi e já embirro com ele

Sim, é cinema. Sim, é ilusão. Mas nem sempre houve um bigode...

Chamem-me picuinhas, mas não consigo evitá-lo. Se uma festa que celebra os anos 90 tem um cubo de Rubik no décor, torço o nariz: o cubo de Rubik, inventado nos anos 70, é um 'símbolo' dos anos 80 - não andou na escola com o Pega Monstro. Podia dar mais 30 exemplos de anacronismos passíveis de me provocar alergia, mas não vos quero maçar. Enfim, sou esquisito com o que me impingem.

E esquisito fiquei quando vi o trailer de "Bohemian Rhapsody", a biopic de Freddie Mercury que chega aos cinemas portugueses na semana que vem. Apesar dos moves impressionantes de Freddie (perdão, Rami Malek), de um Brian May de tom e dicção perfeita (Gwilym Lee) e de um apuro musical intocável - pormenores que levarão certamente os fãs acérrimos da banda à sala de cinema mais próxima -, detive-me num erro histórico; foi mais forte do que eu.

Sim, o cinema é ilusão - e não deixemos que a realidade estrague uma boa história, como se usa dizer. Contudo, "Bohemian Rhapsody" não será, por tudo o que já conhecemos, uma adaptação livre da caminhada do incrível Freddie. É até, parece-me, uma empreitada demasiadamente controlada pelos cuidadores do legado da banda, Brian May e Roger Taylor. Pretende-se afirmar como filme biográfico e não como exercício de liberdade poética: todas as declarações dos envolvidos (dos atores aos membros dos Queen) têm valorizado a verosimilhança num 'script' onde, como vimos, não entra qualquer coboiada. E que se refugia num suposto rigor histórico (autorizado e nutrido por quem viveu a 'vida' dos Queen por dentro) para sustentar a verdade que quer vender. Nada contra.

Ao contrário de Alex Petridis, que no Guardian desmonta de forma credível "Bohemian Rhapsody", não vi ainda o 'produto final' - o visionamento para jornalistas em Portugal ainda não aconteceu. Mas admito que vou de pé atrás quando tanto o trailer como um dos teasers já publicitados mostram um Freddie de cabelo curto e bigode respeitável no momento da gestação de 'We Will Rock You' (bater os pés duas vezes, bater palmas, repetir o efeito; sabem como é), canção que em 1977 fez parelha em single com 'We Are the Champions'.

Não é preciso ser geek dos Queen para dividir o 'reinado' da banda em duas fatias: a dos setentas glamorosos, com um Freddie andrógino a 'enganar' (ou, porque não?, a seduzir) um público de rock pesado, e a dos oitentas 'macho', com um Freddie musculado a 'enganar' (ou, porque não?, a seduzir) um público de pop/rock mainstream (até à despedida dos palcos, em 1986). A dividi-las está um bigode. Um bigode que Freddie Mercury não tinha em 1977, não tinha em 1978, não tinha em 1979. Um bigode que inaugura a década de 80.

É um pormenor que não interessa, à luz da big picture (no pun intended), num filme em que boa parte da plateia vai sair do cinema a cantar? Talvez. Mas o efeito de um Freddie do futuro a visitar os seus companheiros em estúdio nos anos 70 é ficção científica. E isso é outro filme.