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Paul McCartney

É tão bom ter Paul McCartney entre nós

Aos 76 anos, e com a autoridade de seis décadas de música popular nos calcanhares, Paul McCartney ‘pica o ponto’ e faz um disco à Paul McCartney. Pedir-lhe outra coisa será sempre má ideia

Se há rigorosos 61 anos, quando o adolescente James Paul McCartney conheceu John Winston Lennon numa festa de igreja nos subúrbios de Liverpool, uma voz divina tivesse segredado ao ouvido do primeiro algo como “meu rapaz, em 2018 vais lançar um disco, e esse disco vai ser o teu quinquagésimo ou perto disso”, o imberbe liverpudlian teria respondido com uma gargalhada. Desconhecendo a relação que McCartney mantém com o paranormal, é quase certo que esta premonição não ocorreu, tanto que a cumplicidade entre miúdos se converteria nos Quarrymen, não na Banda dos Acólitos da Igreja das Vozes do Futuro.

O efeito-borboleta desse 6 de julho de 1957 seria, sabemo-lo, tremendo. Três anos depois, os Quarrymen faziam-se Beatles, e se Lennon, falecido precocemente em 1980, sofreria ao longo da sua relativamente breve carreira a solo com o ‘fantasma’ da obra dos fabulosos, McCartney levou com o sermão durante muito mais tempo – felizmente vivo, e com uma crença quase cega na magia deste puzzle de estrofes e refrões. Omnipresente nos anos 80 ‘adultos’, só no final da década de 90 (com “Flaming Pie”) o mito reencontra uma ‘honestidade’ que teimava em não lhe ser imputada. Até aí, John, morto à traição, pairava como o ‘Beatle bom’, o Beatle que faz falta, enquanto Paul, respirando, tinha o irritante hábito de fazer cantigas. Justo e injusto: McCartney, o generoso mas sem crivo, é homem para fazer uma canção frívola a seguir à mais sumptuosa ode; McCartney, o génio da pop, também consegue urdir um álbum como “Ram” (1971), obra de mestre ainda por celebrar. Não seria, mp entanto, antes de “Chaos and Creation in the Backyard”, coleção de canções sem pompa e aparato, que a ‘sociedade de apreciação’ esfregou as mãos: por onde andaste tu, velho ‘Macca’, que só agora conseguiste matar os mortos?

O sexagenário desse belo disco de 2005 é, em termos de apuro estético, o mesmo septuagenário que agora lança “Egypt Station”. Mas enquanto há treze anos McCartney tinha um produtor com marca autoral (Nigel Godrich, ligado aos Radiohead), em 2018 o experiente sir não encontrou alguém que o tivesse convidado a colocar de parte uma ou outra canção. É o caso da escusada ‘modernice’ tentada em ‘Fuh Yuh’ (disparate dividido com Ryan Tedder, dos OneRepublic), demonstração de que nem todas as canções feitas com uma perna às costas por um puro sangue merecem lugar no Olimpo; é o caso do rock sulista de ‘Who Cares’ ou da sopa mal fervida ‘Caesar Rock’. Greg Kurstin, superprodutor ligado a Adele e a fenómenos pop contemporâneos, diz que sim a tudo.

Em 57 minutos há, porém, razões suficientes para tranquilizar quem sempre encontrou motivos de conforto melodista mesmo nos discos falhados: a voz quebrada em ‘I Don’t Know’ fica-lhe muito bem; a folk apaziguadora de ‘Happy With You’ é adorável na simplicidade quase infantil (“I sat around all day/ I used to get stoned/ I liked to get wasted/ But these days I don’t/ 'Cause I’m happy with you/ I got lots of good things to do”); ‘Back in Brazil’, tensa e cinemática, vinga como bossa nova geneticamente modificada; ‘Do It Now’, ruminação devedora do segundo lado de “Abbey Road”, termina em coda orquestral. 61 anos após o ‘clique’, este é um disco à Paul McCartney. Pedir-lhe outra coisa talvez seja, afinal, má ideia.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 15 de setembro de 2018