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Hookworms

Quando o psicadelismo faz tiquetaque

Do infortúnio nasce a luz ao terceiro álbum dos ingleses Hookworms

De cada vez que um druida como Julian Cope estica o braço em direção à luz há uma entrada na Wikipédia que é atualizada. Não há dualismo cartesiano que resista a uma sentença como esta: “sub-Zabriskie Point ambient road-movie heat haze-on-the-road sonic wipeout of the post-Loop variety” (mantém-se o inglês nativo para não desviar a ventania). Proferiu-a em 2011 acerca do EP de estreia dos ingleses Hookworms (Leeds, 2010), um “épico de 26 minutos” do mesmo furacão cósmico psych/kraut que, na idade das cavernas, o velho galês fixou em pedra (“Krautrocksampler”, 140 páginas levadas à estampa em 1995).

Após dois álbuns inscritos no mesmo psicadelismo dormente dos norte-americanos Wooden Shijps e Moon Duo (guitarras ora espaciais, ora empertigadas; caldeirão rítmico em fervura lenta; sintetizadores magmáticos), o quinteto mitiga a distorção pretérita e delineia um exercício de secura que o aproxima do electro frio dos anos 80 revisto pela DFA (‘Negative Space’), do kraut sónico – caos, refluxo – que procura o êxtase (‘Static Resistance’), da fantasia espectral dos Spiritualized (‘The Soft Season’) e da saudável tentação pop (a motorik de ‘Opener’, urdida com a claridade dos Kraftwerk e o pulso dos Neu!).

A luminosidade instrumental é a resposta catártica a uma sequência de infortúnios que fizeram estremecer uma banda que, liricamente, se debate com vários desaparecimentos súbitos: do estúdio do seu vocalista e letrista Matthew Johnson (devastado por cheias em Leeds, reabilitado lentamente graças ao crowdfunding), de relações sentimentais que pareciam duradouras, do amigo e engenheiro de som Archie (a quem o álbum é dedicado).

“Microshift” opera uma purga, adicionando paulatinamente os ingredientes no preparado (por vezes em despreocupação free, como em ‘Boxing Day’) e almejando uma densidade portátil e tangível. Como um relógio judicioso que administrou a si próprio mais 46 minutos de corda.

Originalmente publicado na revista E, do Expresso, de 4 de agosto de 2018