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Iceage

E se o álbum rock do ano vier da Dinamarca?

O punk na catedral, o rock em combustão: uma massagem cardíaca providencial ao quarto álbum de uma banda dinamarquesa

A introdução de saxofone funesto ao fundo da sala poderia enviar-nos para um cais de embarque em filme noir de início dos anos 80 – ou, em versão ‘loja dos 300’, para o indicativo soporífero do decano radiofónico ‘Oceano Pacífico’ –, mas o empertigado aparato elétrico que se esgueira faz prever feitos maiores. ‘Hurrah’ avança como um rolo compressor – baixo ‘pinguepongueante’ e guitarra abrasiva, ‘garageira’, em compita – e arremessa sax, trombone, trompete e violino pela ribanceira abaixo. É a primeira canção de “Beyondless”, quarto álbum dos dinamarqueses Iceage, e é tanto um tiro de partida como um ponto de chegada no seu caos de cave – e caos de Cave, nome próprio Nick. Leiamos nas entrelinhas: “ei, estes somos nós e agora somos assim”. E isto é o que eles querem dizer: “Heading for the last roundup/ Hardware at hand/ I was told to protect and serve/ But I'm here to supply a demand/ Like roaring free jazz fireworks/ Follow its beat/ Dancing to the sound of the enemy's guns/ Boogie as we drop one by one”.

Os Iceage, formados em 2008 por quatro adolescentes de Copenhaga, passaram uma década a refinar a sua ideia de punk rock, acrescentando-lhe progressivamente espessura dramática, sistema nervoso e um leque alargado de possibilidades de escapatória ao dogma. Chegam ao quarto álbum com tanto de Bad Seeds (o gótico instigador de ‘Under the Sun’) como de Stooges (‘The Day the Music Dies’) e armados de um espectro sónico feroz capaz de atear fogo a qualquer tentação bailante – o que não impede que ‘Pain Killer’, dueto com a voz narcótica e deambulante de Sky Ferreira, nos faça lembrar uns Primal Scream de alta competição.

Percorrendo o mesmo estrado de Nick Cave – dos Boys Next Door aos Birthday Party, e daí aos Bad Seeds e Grinderman –, os Iceage poderiam, à semelhança dos ingleses Horrors, desembocar num simulacro de pop ensopada, mas preferem não baixar a guarda (entenda-se: as guitarras). Em ‘Beyondless’ há riffs dormentes à Woven Hand (‘Catch It’, a terminar num vórtice hipnotizante), fraseados caleidoscópicos (‘Take It All’, espécie de marcha shoegaze com apetites sinfónicos), e inusitadas escaladas noise de cabaré (o tema-título). Um banquete.

Como um falcão em voo rasante, a voz de Elias Bender Rønnenfelt é ingrediente vital: detached, meio embriagada, encosta-se às palavras com a ‘cagança’ de Iggy Pop ou com a coolness alheada de crooner de Ian McCulloch. É um libertino ‘rimbaudiano’ ao serviço de uma comissão instaladora que quer levar o punk à catedral, de farpela amassada e cinza a escorregar do cigarro. Sumptuoso e sujo, “Beyondless” irá ressoar.

Os Iceage atuam a 26 de outubro no Hard Club, no Porto, e no dia 27 do mesmo mês no Musicbox, em Lisboa

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 28 de julho de 2017