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Stephen Malkmus

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O herói indie que nunca parou de brilhar

Homem inevitavelmente ligado aos Pavement, Stephen Malkmus faz desde o homónimo álbum de 2001 uma música sem data que só arrumamos no gavetão indie por conveniência. É muito mais do que isso

Homem inevitavelmente ligado aos Pavement, banda-emblema do rock alternativo norte-americano nado e criado nos anos 90, Stephen Malkmus nunca foi estrela em confronto com o seu próprio impacto geracional (como Frank Black), guru da guitarra e ‘arquiteto’ de um som (Thurston Moore) ou geek encerrado no seu habitat (J Mascis). Há um elogio tão óbvio como merecido que é devido a um percurso discográfico de quase 20 anos a solo: ao contrário dos Pavement, cuja tecelagem remeterá sempre para o desalinhado indie rock americano dos anos 90 – um quinhão de candura e outro de noise –, Stephen Malkmus faz desde o homónimo álbum de 2001 uma música sem data que só arrumamos no gavetão indie por conveniência. É muito mais do que isso.

Nos seus desdobramentos pop, prog, mais açucarados ou mais arenosos, o que o californiano de 52 anos nos oferece é uma visão vasta e abrangente das várias possibilidades da arte elétrica, um repositório de inspiração em que o ponto de chegada não está à vista, em que as distrações fazem parte do bolo – é um óbvio inesperado. Ao sétimo álbum, isso tanto pode resultar num andamento kosmische de ‘Kite’, que termina em demonstração de guitar hero panorâmico e espectral, como nas pinceladas brilhantes de ‘Future Suite’ ou na nostalgia reconfortante de ‘Middle America’, aquela country desconstruída que, concede-se, já vem dos Pavement. Ou ainda, com uma ruralidade ainda mais pronunciada, ‘Refute’, uma canção que remete para ‘Range Life’ (1994) e que recebe Kim Gordon para se tornar maior.

À semelhança do que sucedeu nos anteriores “Mirror Traffic” (2011) e “Wig Out at Jagbags” (2014), Malkmus sobe ao pódio com um esplêndido momento que deve tanto à pop de câmara como à soul de Filadélfia. Onde antes estavam ‘No One Is (As I Are Be)’ e ‘J Smoov’, respetivamente, agora insinua-se ‘Solid Silk’, discreto ‘monumento’ em que um quarteto de cordas à Left Banke sobrevoa um teclado vintage e, a dada altura, uma guitarra crepuscular. Sobra todo um capital de bonomia para decifrar estrofes como esta: “Scratched out a doggerel verse or two/ To set you back on your way, back to you/ In a minute/ Cynical pinnacles, we swung too high/ Flaccid as a wedding cake, but tight makes right/ With a kiss goodnight”.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 21 de julho de 2018