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Melody's Echo Chamber

A vida trocou as voltas a Melody Prochet. E ela respondeu com uma grande viagem

Pouco depois de anunciar o segundo álbum de Melody's Echo Chamber, a artista francesa Melody Prochet sofreu um aneurisma e quase morreu. Mas a história, felizmente, não acaba aqui

“O que tornou os últimos seis anos tão difíceis?”, pergunta-se-lhe no arauto da escrita musical indie ‘Pitchfork’. “A vida”, responde Melody Prochet. Há pouco mais de um ano, a artista francesa que em 2012 nos ofereceu uma surpreendente merenda de space rock psicadélico, dream pop arenoso e eletrónica analógica anunciou o regresso: um álbum chamado “Bon Voyage”, um single mais esquizoide que o labor anterior e uma digressão compunham a ordem de trabalhos.

“Melody’s Echo Chamber”, o disco debutante, deixara marcas: produzido pelo então namorado Kevin Parker, ideólogo dos psicadélicos e exploratórios Tame Impala, fundia o vaporoso ar dos Deerhunter com a cadência borbulhante dos Stereolab, como se nesse ruminar do espírito dos tempos desejasse engendrar um lugar teórico atemporal – onde tanto caberiam vestígios da chanson e de exotica como do rock quimicamente induzido. Cumpria dar o passo seguinte, mas “a vida” intrometeu-se. Pouco depois dos grandes anúncios, Prochet sofreu um aneurisma e quase morreu.

“Bon Voyage”, agora editado, precede na sua confeção o acidente quase fatal (do qual a artista se encontra quase plenamente restabelecida), tendo sido gravado na Suécia em busca de magia ‘florestal’. Materializa-se numa viagem folk prog superpovoada por inflexões, fintas e remoinhos (‘Cross My Heart’, a candura Stereolab sussurrada a desaguar num céu de flautas e perlimpimpins tropicais), shoegaze brincalhão (‘Breathe In, Breathe Out’) e, ainda na primeira metade do disco, um puzzle de cacos chamado ‘Desert Horse’ (pormenores arabescos, música de soundtrack à Blonde Redhead ou Broadcast), vista sobre “o meu deserto pessoal de angústias, sede, miragens, areias movediças, desilusão e a forma como me tornei uma mulher adulta num mundo louco” (in ‘Pitchfork’).

Prochet assume ter ‘consultado’ o compositor turco Özdemir Erdoğan, mas também o brasileiro Milton Nascimento e o bissexto norte-americano Shuggie Otis. Não mencionado, mas subentendido, está Serge Gainsbourg, que vê os acordes dramáticos de piano de ‘Initials B.B.’ serem transformados em sujos riffs de guitarra em ‘Visions of Someone Special, On a Wall of Reflections’. À partida parece demasiada informação, mas “Bon Voyage” é mais uma trip intrigante do que uma aterragem forçada.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 30 de junho de 2018