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Aldina Duarte

Rita Carmo

Aldina Duarte: “Tenho um bom equilíbrio como pessoa. Como artista, não tenho equilíbrio nenhum”. A entrevista BLITZ

Na sexta-feira, 6 de abril, Aldina Duarte atua no CCB, em Lisboa, com Manel Cruz e Pedro Gonçalves como convidados especiais. À BLITZ, a fadista partilhou as suas paixões mais recentes e lembra o dia em que, seis anos depois de começar a cantar, se calou

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Patti Smith e Billie Holiday, Tom Waits e Laurie Anderson. Para Aldina Duarte, que na sexta-feira apresenta o mais recente “Quando Se Ama Loucamente” ao vivo no CCB, em Lisboa, todos estes artíficies da voz têm algo em comum - a intemporalidade. Tão apaixonada por estes artistas como pelos grandes do fado, a lisboeta encontrou há muito o seu lugar, que descreve com tanta intensidade como humildade. “Descobri um caminho, que é o meu, e que - bom ou mau - ninguém pode fazer como eu”, partilha a certa altura de uma entrevista longa e generosa esta figura genuinamente fora do baralho.

Vai atuar no Centro Cultural de Belém na próxima sexta-feira, 6 de abril. O que podemos esperar deste concerto?
O que me está a fascinar mais é que vou ter no mesmo palco o Manel Cruz e o Pedro Gonçalves, a atuarem juntos - para além de atuarem comigo, haverá um momento em que vão atuar juntos, penso que pela primeira vez! Para mim, isso é fascinante, porque admiro o trabalho deles há muitos anos. Tenho a sorte de ter ficado amiga do Pedro [Gonçalves] e da sua família, e de ele ser o meu primeiro e espero que o meu último produtor musical, porque não quero trabalhar com mais ninguém. Se formos honestos connosco mesmos, ou demora muito ou temos de ter uma sorte incrível para encontrarmos alguém com uma afinidade tal que nos permita construir a nossa obra com essa pessoa ao lado.

Aldina Duarte fotografada no Centro Cultural de Belém, em março de 2018

Aldina Duarte fotografada no Centro Cultural de Belém, em março de 2018

Rita Carmo

“Com a dor, eu mexo bem. Mas o sofrimento paralisa-me”

O seu novo disco, “Quando Se Ama Loucamente”, nasceu de uma canção do mesmo nome que lhe enviou o Manel Cruz. Quando a gravou e lha mostrou, qual foi a sua reação?
Até parece mal eu dizer! O Manel é um grande artista e, por isso, tenho pudor em dizer o que ele acha de mim. Mas ficou contente. (gargalhada)

Conheceu-o num dos concertos dos Ornatos Violeta nos coliseus, em 2012, certo?
Sim, eu tinha a obra toda do Manel - a solo, com os Ornatos... E tive a felicidade de um dos meus melhores amigos ser não só amigo dele, como padrinho dos seus filhos. Quando os Ornatos fizeram aqueles coliseus em Lisboa e no Porto, eu fui ver um dos concertos, em Lisboa, e no fim o meu amigo disse: “agora tens de vir conhecer o Manel, porque ele também te quer conhecer!”. Eu achei que ele estava só a ser simpático. Mas queria dizer-lhe que gosto muito dele, e que é das poucas pessoas fora do fado em cujas mãos eu arriscava pôr o meu fado. Disse-lhe: “Admiro mesmo o teu trabalho, acho que tens um talento incrível e que criaste uma coisa que faz falta na música portuguesa”.

O Manel também é uma personalidade artística que pode ajudar a malta mais nova a perceber que não se pode avaliar a coisa só pelos números... às vezes faço um concerto e ninguém pergunta se correu bem - perguntam se estava cheio! Eu cresci a cantar para duas pessoas numa mesa, e fiz grandes concertos onde as salas de 600 lugares às vezes tinham 100 pessoas, ou 50. O Manel é um dos poucos grandes artistas que se está a borrifar para isso: se não ganha dinheiro com a música, ganha com os desenhos... Tínhamos essa identificação, de caras, e falámos muito sobre isso quando nos conhecemos. Só que de repente ele diz-me: “a única pessoa dos fados que tem a minha cena és tu”. Achei que estava a querer ser delicado, porque ele é de uma delicadeza extrema. E ele: “mas eu conheço!”. E eu: “então, se um dia te sair alguma coisa para mim, dá-me. Ou se tiveres alguma já feita que eu possa cantar, vamos lá arriscar”. E ele avisou-me: “mas olha que eu desapareço”. Eu adorei essa expressão, porque eu e as fadas e os elfos temos uma relação muito próxima. E pensei: “olha, cá está um elfo. “Eu desapareço e não me comprometo, não sei quando faço ou se faço”.

Entretanto passaram dois discos, quatro ou cinco anos, e um dia vou ao email e está lá uma mensagem queridíssima, com um tema escrito e composto a pensar em mim, e já no meu tom. Acertou em cheio e eu fiquei: impossível! Mas naquela altura não só não estava nas melhores fases da minha vida, como não me apetecia pensar em discos. Estava a fazer um luto, de um relacionamento que tinha acabado tragicamente, que aliás é a história que depois escrevo para o disco. Chamo-lhe autoficção, porque os cenários foram feitos a partir [de textos da] Maria Gabriela Llansol, para terem algum valor literário e não serem uma coisa puramente autobiográfica. Com a dor, eu mexo bem. Consigo juntá-la com outros sentimentos e criar alguma coisa. Mas o sofrimento paralisa-me. Como li algures: “estrume a mais não dá flor”. Mas quando já estava com a cabeça fora de água, voltei àquele tema e decidi experimentar. “Quando se ama loucamente”, foi o que me aconteceu. Então decidi ser eu a escrever o meu disco, na íntegra, contando uma história que vivi.

Sempre cantei coisas a que sou sensível, mas não são factos. Aqui, são coisas que vivi: sei todos os objetos que estão mencionados naquele fado, sei todos os lugares, sei todas as pessoas - sei tudo o que está ali, aquilo eu vivi. Mas tinha medo! Ia abrir uma cicatriz, mexer numa ferida qualquer...

Como se sente, atualmente, em relação a atuar ao vivo?
Estou muito mais serena em relação aos palcos. Comecei por não gostar nada de dar concertos - gostava mesmo era de estar na casa de fados. E ainda hoje, por melhor que seja o concerto - e já fiz concertos incríveis e marcantes, que até me levaram a melhorar a minha interpretação... Nunca houve um concerto de que gostasse tanto como de uma boa noite no Senhor Vinho. Tive a sorte de encontrar um encenador, o Jorge Silva Melo, que nos primeiros dois grandes concertos que fiz, criou a encenação necessária para não corromper o fado que eu canto. O fado que eu canto pertence ao espólio do fado tradicional, que são 140 melodias nas quais podes cantar inúmeras letras diferentes e que, conforme a sonoridade das palavras, o registo emocional, a história que cantas, a tonalidade em que cantas... podes ouvir dois fados iguais seguidos sem te aperceberes de que é o mesmo. Por aí dá para perceber o encanto desta matéria - do ponto de vista criativo, é inesgotável. Antes da profissionalização das casas de fados, o fado era, nas comunidades e nos bairros muito pobres, uma forma de contar acontecimentos, porque as pessoas não sabiam ler. Era uma forma de se comunicar e celebrar acontecimentos. Se fizeres uma cronologia de fados desde os anos 30 até hoje - eu já o fiz -, consegues definir sociologica e historicamente o contexto político, de mentalidades e costumes do nosso povo. Não é à toa que é uma arte que volta e meia desaparece e depois volta a aparecer, provocando tanta animosidade e tanta adoração... É porque tem uma história muito antiga e uma matriz identitária que mais nenhuma música tem, muito menos produzindo há 150 anos registos palpáveis.

“Ao fim de seis anos, deixei de cantar. Já nem prazer tinha”

Tradição essa na qual se insere...
Tens de ter uma grande humildade e honestidade. É muito estúpido chegar [sem humildade] a uma arte com este nível artístico e social, que tem inúmeros representantes incríveis, com uma grande modernidade... ainda hoje ouço a Beatriz da Conceição e o Carlos Ramos e eles são mais modernos que muitas pessoas que cantam agora. Percebes que aquilo é para sempre. A mim, a excelência comove-me. Às vezes não gosto do estilo de uma coisa, mas se é muito bem feita, comove-me. Agora imagina quando percebes essa excelência e gostas. Ficas a viver ali. Ou então tens uma vida antes e uma vida depois. A mim aconteceu-me isso com os fados. Tive, também, a sorte de ter chegado tarde aos fados, para o que é costume, e de ser uma bastarda, sem qualquer elo. Mas tive sorte: fui adotada por uma família dos melhores, aprendi o que era essencial. Mas não cresci ali, não sou como o Camané, que aos sete anos já tinha gravado um disco de fados tradicionais com letras escritas para ele. Eu fui adotada já adulta e com um gosto formado noutras áreas. A partir do momento em que comecei a exercer a minha profissão, tive de cantar com a bagagem que trazia, e que era outra. Ao fim de seis anos a cantar, deixei de cantar, porque não conseguia encontrar a mínima utilidade no que estava a fazer, e já nem prazer tinha. Achava que estava aquém de tudo o que valorizava. E que já não ia a tempo. Parei de cantar e fui ser secretária para a Cinemateca. E lá fiquei quatro anos, embora sem cantar só tenha ficado seis meses, porque a Maria da Fé, mãe adotiva, e o Camané não deixaram que eu parasse. Foi a minha sorte. Não seria tão feliz, de certeza.

Aldina Duarte apresenta o disco mais recente, “Quando Se Ama Loucamente”, no CCB a 6 de abril

Aldina Duarte apresenta o disco mais recente, “Quando Se Ama Loucamente”, no CCB a 6 de abril

Rita Carmo

“Tenho dificuldade em achar que tenho talento. Tenho é um nervo para a coisa, que é inexplicável”

A Clarice Lispector dizia haver uma diferença clara entre vocação, ou seja, o chamamento, e o talento...
Era o que eu achava: que não tinha talento. Sabia que tinha de estar ligada ao fado, porque aquilo mudou a minha vida em cinco anos. Já tinha uma fonoteca de fados, as minhas noites já eram nos fados, já tinha amigos [no meio], já me tinha casado com um fadista. Não podia ter mudado mais nada, e tanto. Mas talento achava genuinamente que não tinha e vou ser franca, porque já tive de aprender a lidar com isso: tenho as minhas inseguranças, tenho muitas dúvidas, mas tenho um bom equilíbrio, como pessoa. Como artista, não tenho equilíbrio nenhum. Tenho uma insegurança absoluta. Ainda hoje tenho muita dificuldade em achar que tenho talento. Tenho é um nervo para a coisa, que esse sim, é inexplicável e intocável. [O fado] é algo que transforma a minha vida e a que me entrego completamente. Hoje em dia, já não me interessa se tenho talento: nunca o sinto, nunca acho que tenha feito uma coisa muito válida, mas também não engano ninguém, e há uma coisa que sei: isto torna-me uma pessoa melhor, portanto tem de servir para alguma coisa, nem que seja só para isso.

Nascida em Lisboa há 50 anos, Aldina Duarte acredita que chegou tarde - mas a tempo - ao fado

Nascida em Lisboa há 50 anos, Aldina Duarte acredita que chegou tarde - mas a tempo - ao fado

Rita Carmo

“Passei a ser vigilante com os meus níveis de egocentrismo e de egoísmo, porque passei a lidar diariamente com pessoas muito egoístas e egocêntricas”

Diz que tem uma preocupação constante em ser boa pessoa, ou em não ser uma pessoa horrível. Como é que vai fazendo essa avaliação?
Quando estou num jantar, com pessoas amigas, e não falamos de um espetáculo meu. Não falamos de nenhuma entrevista minha. Não falamos sequer de mim, se for o caso. Isso é ser uma melhor pessoa, especialmente com a minha profissão. A maior parte dos artistas diz que não, mas alimenta esse lugar na mesa, que é ser o centro da atenção. Eu percebi que esta profissão me empurrava para o egocentrismo, e do egocentrismo ao egoísmo é um passinho. E passei a ser vigilante com os meus níveis de egocentrismo e de egoísmo, porque passei a lidar diariamente com pessoas muito egoístas e egocêntricas. E em vez de as criticar, pensei: é isto que te rodeia, e o mal pega-se! (risos)

A outra [forma de avaliar se sou boa pessoa]: nunca tive animais. Não era muito sensível a eles. Sou sensível racionalmente: [considero] os direitos dos animais inquestionáveis, a tourada uma barbaridade... Mas ter animais, ter de planear a minha vida em função deles? Não me ocorria. E um dia vi uma gatita, no meio de uma ninhada, num caixote à porta de uma loja de animais, e eu - que tenho uma vida confortável, sem grandes despesas porque também não tenho grandes necessidades - perguntei à senhora da loja o que lhe iria acontecer. Ela disse que a ninhada morrera toda com uma infeção e que aquela gata não devia resistir. E de repente, num ápice, veio-me tudo à cabeça: tenho uma amiga veterinária que vai a casa, tenho dinheiro para pagar a consulta, porque é que esta desgraçada vai morrer aqui? Tenho tempo, porque é que não hei de gerir a minha vida para salvar um animal, que não fez mal a ninguém e que me vai ensinar alguma coisa? Porque lidar com outra forma de inteligência só pode fazer bem... E para ela não ficar sozinha, levei uma outra gata, zarolha, que lá estava. (risos) Disse: “dê-me as que estão pior! Nunca tive animais mas sou uma pessoa responsável e naquilo que não sou prometo que vou aprender, porque são duas vidas que estão aqui”. Levei aquelas que estavam pior e a verdade é que há um ano que tenho duas gatas maravilhosas. E isto parece [conversa] de “ai os gatinhos”, mas não: o que eu aprendi e ganhei em sair de mim nem que seja para limpar a casinha todos os dias, e ir a casa porque não posso deixar os animais sem comida. É muito bom passar a integrar este tipo de responsabilidade e atenção na nossa vida. Tudo o que nos tira de nós para o bem de alguém, e sem nos prejudicar, é o que nos torna melhores.

Tal como as canções deste disco a ajudaram, sente que a sua música também ajuda quem a ouve? Recebe feedback nesse sentido?
Recebo muito. Não sei lidar muito bem com isso, no sentido em que não tenho amizades virtuais. Não tenho qualquer problema em falar de intimidade - o amor, a dor, são coisas íntimas. Mas da privacidade nunca ninguém me ouviu falar. Eu trabalho há 20 anos com pessoas que não sabem nada da minha privacidade. E são pessoas de quem gosto e que fazem parte do meu caminho. Para poder partilhar a minha privacidade, tenho de ter proximidade. E os tempos hoje não são esses. Nas redes sociais, não falo de nada sério - para mim, não é espaço para isso. Mas isto para dizer que não respondo a emails, não respondo a pessoas que não conheço. Do tempo do meu primeiro disco, tenho uma caixa de cartas! Mandavam-me cartas para a editora, a contar o que é que as fazia ouvir o disco. E eu tive de tomar uma decisão: que relação quero criar com essa massa chamada pública, que para mim é anónima? Decidi: tenho de me dar, e não posso nunca faltar ao meu público, com a honestidade que lhes devo no trabalho que faço, que é cantar. Mas não tenho de dar mais nada da minha vida. Isto é uma escolha. Nunca fiz questão de estar fora do baralho, mas sempre estive.

Por exemplo, eu não vou ver um concerto porque vai ser muito publicitado e isso será bom para a minha carreira. Não vou tirar uma fotografia com um artista que não conheço de lado nenhum... nunca fui assim, e não quero ser. Para mim, o Manel [Cruz] e o Pedro [Gonçalves] são dois artistas tão ou mais importantes que alguns artistas mais famosos mundialmente. Falam a minha língua, tocam música com uma marca que é daqui... Por mais que eu venere o Tom Waits, prefiro mil vezes cantar num disco do Manel do que num do Tom Waits. E olhem que eu gosto do Tom Waits ao ponto de grunhir, se ele quisesse, num disco dele. Mas se vamos falar de arte, claro que é muito mais importante para mim trabalhar com o Manel num disco meu, ou com o Pedro, do que com o Tom Waits. O entendimento nunca ia ser o mesmo.

Atualmente, as pessoas confundem amizade com o facto de trabalharmos com alguém. Há pessoas extraordinárias com quem já trabalhei e fiz coisas muito boas, mas não somos amigos. Entre 1980 e 1990, entre os meus 16 e 26 anos, não houve uma noite, exceto quando fechava, em que eu não fosse ao Frágil. E todos os dias dizia: olá, Manuel [Reis], como está? E ele dizia: olá, Aldina. Mas era meu amigo? Não. Que o Frágil é determinante na minha formação, que alguns dos meus maiores amigos os conheci ali, é outra coisa. Eu não quero entrar nesta papa, porque corrompe-me naquilo que tenho de mais bem construído e de melhor em mim, que é valorizar a amizade.

Portanto, as pessoas que me mandam emails ou cartas, porque a minha arte as ajudou numa situação difícil, fazem-me dizer: “foi como eu, quando ouvi o Jacques Brel!”. E o Jacques Brel já estava mais que morto. Não precisei de o conhecer. Esta é a relação que tenho com o público. Para mim, o culminar da obra de arte é quando ela é salvífica do ponto de vista humano. Sagrada, como a vida. Como a sanidade mental, como a sanidade física.

“Durante 17 anos, tive uma fobia de conduzir”

Diz que se apaixona a todo o momento, não necessariamente ou exclususivamente por pessoas...
Tenho uma vibração muito adolescente. (risos)

Isso é bom!
Eu preferia que fosse infantil. Sempre era mais leve!

Quais são as suas últimas paixões?
Uma é a Maria Gabriela Llansol, a escritora que descobri mais recentemente e que deu nisto tudo. Conseguir lê-la nas alturas em que não conseguia ler - e, para mim, não conseguir ler é muito grave, porque ler faz parte da minha vida... Um dia abro um livro dela, “Amigo e Amiga”, escrito durante o luto que fez do seu companheiro de toda a vida, e de repente consegui ler. Quando verifiquei que não conseguia ler mais nada, mas conseguia ler aquele livro, comecei a arribar. Ao ponto de escrever o disco usando frases dela para construir o cenário - queria que houvesse qualquer coisa que fosse sempre luminosa. Porque, mesmo na maior das escuridões, a Llansol tem sempre uns pontos de luz, e isso para mim é bom, porque nem sempre tenho essa luz. E depois ela tem aquela subtileza da linguagem, do discurso...

A outra paixão é a descoberta da relação com as minhas gatas. Ter outro quotidiano, com outras vidas ali pela casa. A casa parece que está viva, tem uma pulsação! Esta forma de vida deste último ano, com aqueles animais, é apaixonante.

Outra ainda é uma paixão pela amizade. Um dos meus melhores amigos e um amigo mais recente sabiam que eu tive, durante 17 anos, uma fobia de conduzir. Tirei a carta, toda a gente achava que eu guiava muito bem, mas comecei a ter uns suores e uns choros convulsivos quando estava ao volante... não podia guiar! Ainda fiz uma terapia de hipnose... Mas esse meu grande amigo, que me conhece muito bem, disse-me: “o António tem um carro automático, pequenino, para ti - é agora!”. Levaram-me o carro e deixaram-mo à porta. E disseram: “se daqui a três meses continuares a não querer entrar no carro, levamo-lo e vendemo-lo. Mas eu venho cá uma vez por semana para guiar, e tu vens ao meu lado”. Agora, estou a guiar e já tenho prazer! No primeiro mês era só medo, só fazia os caminhos que conhecia. Agora já guio à noite, já guio com chuva, quando não sei o caminho ponho o GPS, só me falta ir para a autoestrada!

Estou apaixonada pela condução e pela amizade, porque continuo a achar que é uma das formas indescritíveis do amor. Como é que o meu amigo percebeu que era agora que eu ia conseguir ultrapassar uma fobia de 17 anos? Não quero perceber, mas só pode ser uma coisa muito bonita.

Ao longo da minha vida, as minhas paixões passam sempre pela companhia e pela grande liberdade. Agora materializou-se assim, de forma muito concreta: duas gatas todo o dia ali, a fazer companhia - pura companhia! E conduzir, que é uma pura de uma liberdade.

Aldina Duarte atua no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, na sexta-feira, 6 de abril. Os bilhetes custam entre 5 euros (galerias em pé) e 20 euros (primeira plateia). Também há entradas a 8,50 euros (segundo balcão), 14 euros (primeiro balcão) e 17 euros (segunda plateia).