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Estas são as 10 melhores canções de Nick Cave, comentadas por fãs notáveis

Com os Bad Seeds, o australiano lançou 16 álbuns de originais recheados de canções imortais. A eleição das mais emblemáticas coube à BLITZ, tendo o repto sido estendido a dois convidados especiais, Adolfo Luxúria Canibal e Bill Callahan. Rita Redshoes, Mazgani, Samuel Úria, Fernando Ribeiro e Cristina Branco comentam

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

No dia em que Nick Cave celebra 60 anos, a BLITZ recupera um artigo originalmente publicado em 2016, com uma lista de algumas das suas melhores canções e um painel de comentadores de luxo.

1 DO YOU LOVE ME?
LET LOVE IN, 1994


No início dos anos 90, Cave mudou-se de Berlim para São Paulo, no Brasil, onde conheceu Viviane Carneiro, de quem viria a ter um filho, Luke, hoje com 27 anos. Nessa temporada, o músico afastou-se do vício em heroína (droga que, nessa altura e segundo a jornalista local Bia Abramo, era rara no Brasil) e começou a escrever canções mais próximas do estilo singer/songwriter, diz Kid Congo Powers, que com ele tocou até The Good Son.

O vídeo da canção que ocupa o lugar cimeiro desta lista foi filmado, precisamente, em São Paulo, num clube pouco glamoroso e com um elenco de personagens locais. «Pegámos em várias pessoas da rua - travestis e prostitutas - e levámo-las para uma espécie de clube de sexo», contava Nick Cave à Hypno Mag, em 1994. «Eram pessoas que não sabiam nada sobre a minha música nem sobre mim. Disfarcei-me com um capachinho e vesti-me como se fosse o cantor de um clube noturno de segunda categoria, e cantei para elas».

«Do You Love Me?» foi lançada como single em março de 1994. Terá sido pouco tempo depois que Adolfo Luxúria Canibal a escutou pela primeira vez, como parte do álbum do qual faz parte, Let Love In.

«Lembro-me de ter apanhado boleia para casa com uma amiga, ao fim da noite», recorda o homem dos Mão Morta. «O disco tinha acabado de sair e estava a tocar no leitor de CD do carro. Toda a boleia foi feita em silêncio, a ouvir o álbum, porque fiquei completamente estarrecido a ouvir o Let Love In, que é fantástico».

Entre as dez canções daquele que era já o oitavo longa duração de Nick Cave com os Bad Seeds, Adolfo Luxúria Canibal lembra-se de reparar em «Do You Love Me?». «Foi um tema que me ficou logo marcado», diz, salientando nesta composição do australiano «a letra, a toada em midtempo, mas repetitiva», assim como «a ambiência soturna mas ao mesmo tempo positiva, todo aquele ar de fim de tempo mas com alguma esperança, com alguma abertura para que haja um ponto de fuga. É uma canção que me parece, em simultâneo, sufocante sem sufocar». Para o minhoto, este é um «equilíbrio muito difícil» de obter, mas que Nick Cave e os Bad Seeds manobram, aqui, sem dificuldade.

Tal como teve dificuldade em escolher apenas cinco canções de Nick Cave (optou por selecionar 15), Adolfo Luxúria Canibal não consegue dizer qual é o seu álbum favorito dos Bad Seeds. Mas, juntamente com From Her To Eternity, Your Funeral. My Trial, Murder Ballads ou The Boatman's Call, Let Love In que no seu seio alberga «Do You Love Me?» é, sem dúvida, um deles.

2 RED RIGHT HAND
LET LOVE IN, 1994


Nascida de uma jam com Mick Harvey e o baterista Thomas Wyndler, a ameaçadora «Red Right Hand» vai buscar o título à epopeia do século XVII, Paraíso Perdido, de John Milton. E é uma das prediletas de David Fonseca, que elogia «a sequência quase cinematográfica e de contenção instrumental, a voz em tom de aviso, qual pregador a alertar-nos para um perigo iminente, a atmosfera escura». Para o português, este é «um dos momentos mais bem conseguidos» dos Bad Seeds. «E tem um dos solos de órgão mais incríveis da música popular», lembra Fonseca, para quem Cave «é daqueles raros artistas que têm um território só seu, um universo sem concessões nas diversas encruzilhadas que a sua música já seguiu».

3 THE MERCY SEAT
TENDER PREY, 1988


Cruza iconografia religiosa (que convoca, logo pelo título, imagens que o Antigo Testamento liga à Arca da Aliança) com a história de um homem que aguarda a morte na cadeira elétrica. Intensa, com a cenografia instrumental nascida de uma série de loops, surgiu num tempo em que Nick Cave trabalhava no seu primeiro romance e vivia, como reconheceu, um quotidiano «de extremos». Andava sempre com um bloco de notas, onde ia lançando ideias. Sem se aperceber disso, a letra desta canção nasceu assim, quase de surpresa. «É bom ter artistas que se encontram concentrados nos assuntos importantes da vida, e um deles é a morte. Sempre gostei desta inclinação pelas últimas horas», considera Fernando Ribeiro, vocalista e letrista dos Moonspell.

4 JUBILEE STREET
PUSH THE SKY AWAY, 2013


Intensa peça central de Push the Sky Away, com os seus quase seis minutos e meio, é um «clássico moderno», tendo merecido de imediato atenção por parte de fãs e estudiosos. Canta sobre «a girl named Bee», que vivia em Jubilee Street. Questionado se essa era a mesma Jubilee Street de Brighton, cidade onde vive, Cave desmistificou: «tinha em mente uma rua mais colorida». Uma artéria imaginária também percorria por Rita Redshoes: «Nick Cave na sua infinita devoção às mulheres, num jogo de caça onde quer ser a presa mas nunca consegue. A história parece ser sobre ela que, sem saber, vai a caminho das suas garras num crescendo instrumental como só ele e os seus comparsas sabem fazer. Nós ouvimos de coração na boca».

5 TUPELO
THE FIRSTBORN IS DEAD, 1985


Uma vez mais, uma referência bíblica cruza uma narrativa num plano mundano, evocando uma violenta tempestade que se faz sentir em Tupelo, no Mississippi, no dia do nascimento de Elvis Presley. A letra assenta numa construção que traduz depois uma série de heranças dos blues (de John Lee Hooker a Lead Belly), assimilados segundo a leitura sombria característica dos Bad Seeds de então. A canção marcou Cristina Branco: «se se pode transformar música em imagem, então "Tupelo" é o apocalipse ou o que se pensa que seja. É um delírio bíblico, excessivo sobre a infância e de como se pode ficar preso nela».

6 INTO MY ARMS
THE BOATMAN'S CALL, 1997


O single de avanço para o álbum de 1997 é uma canção de amor guiada pelo piano que Cave assume ser uma das que mais se orgulha de ter escrito. «É muito despojada, crua até, e, no entanto, tão rica, profunda e misteriosa, com tantos níveis de leitura. Descobrimos novas camadas a cada releitura ou audição. É uma canção inesgotável», defende Mazgani, admirador de Cave. «Diria que é uma prece», acrescenta, «há sempre um "but". Ele diz "I don't believe in an interventionist God, but.", "I don't believe in the existence of angels, but", e conclui "but I believe in love". Apesar dos "I don't believe" há sempre essa vontade. Ele próprio não sabe, julgo eu, se acredita ou não».

7 HENRY LEE
MURDER BALLADS, 1996


Marca a relação amorosa, pouco duradoura, que Cave manteve com PJ Harvey. Baseada numa canção folk tradicional, intitulada «Young Hunting», conta a história de uma mulher que mata o seu amado por este não corresponder ao seu amor. «Adoro a forma como o Nick canta com a PJ Harvey», assumiu Alison Mosshart, dos Kills e Dead Weather, à Uncut, em 2010. «É uma história muito normal sobre um amor que acaba muito mal. E sobre um amor que esteve sempre destinado a acabar mal. A letra é fabulosa e não sei se outra pessoa conseguiria cantá-la».

8 DIG, LAZARUS, DIG!!!
DIG, LAZARUS, DIG!!! 2008


Num álbum que saiu beneficiado pelo fervor rock dos Grinderman, Nick Cave atualiza a história bíblica de Lázaro. «Sempre que a ouvia, em criança, ficava traumatizado. O que fiz foi pegar em Lázaro e levá-lo para Nova Iorque. Houdini foi o segundo maior escapologista, tendo Lázaro sido o maior de todos», elucidou.

Para o seu autor, «Dig, Lazarus, Dig!!!» é, acima de tudo, «uma elegia à Nova Iorque dos anos 70». Em 2010, na Uncut, Kid Congo Powers (Gun Club, membro dos Bad Seeds entre 1988 e 1996) exultava: «fez com que me apaixonasse outra vez por Nick Cave and the Bad Seeds. Tem uma boa batida e gosto de dançá-la. Nick ficou melhor com a idade. Acrescentou mais um ingrediente à receita: tornou-se animado!».

9 FROM HER TO ETERNITY
FROM HER TO ETERNITY, 1984


O rock não consegue ser mais negro que isto. Tudo, mas mesmo tudo nesta canção é pecaminoso, transgressor e teatral «This desire to possess her is a wound/and its nagging at me like a shrew/but, Ah know, that to possess her/is, therefore, not to desire her». Pressente-se um coração a pulsar cada vez mais depressa, ao ritmo constante e implacável da bateria, a voz possuída de Cave e a guitarra de Blixa Bargeld a rasgar. Depois do rock raivoso dos Birthday Party, ainda e sempre sob a luz negra, é aqui que começa a genialidade de Cave. «Aqui mistura-se rock'n'roll com a excitação da improvisação», assinala o seu atual «parceiro de armas» Warren Ellis nas páginas da Uncut há seis anos. «Esta canção é genial a todos os níveis: musicais, líricos e sónicos».

10 THE WEEPING SONG
THE GOOD SON, 1990


Depois de uma bem-sucedida reabilitação de drogas, Cave grava um disco esperançoso, repleto de grandes canções. Este é um dos pontos altos, abordando o recorrente tema da culpa e redenção, embora a dicotomia entre Deus e o Diabo raras vezes tenha sido adornada com tão belos arranjos. «Há um dueto masculino acerca de lágrimas que escrevi, mas só porque não me lembrei que o Nick Cave já tinha feito o dueto masculino acerca de lágrimas definitivo; lembrando-me, tinha ficado quietinho. O choro, tal como no Salmo 137, n' Os Irmãos Karamazov ou no Tabu de Miguel Gomes, é o testemunho líquido daquilo que não se pode esquecer. Cave e Blixa remam um rio babilónico de memórias pranteadas e recordam os dois motivos pelos quais choramos: tudo e nada». Quem o diz é Samuel Úria.