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Há alguns anos assisti a um filme (Pleasantville) cuja história se centrava em dois adolescentes, cujo universo vivencial era a década de 90, mas num dado momento da narrativa são remetidos para um existência vintage, mais concretamente nos anos 50. Cito aqui esta memória cinematográfica relativa ao filme de Gary Ross, a propósito do concerto da detentora do título de Rainha do Rockabilly (ou Primeira Dama se preferirem uma comparação menos monárquica), Miss Wanda Jackson, que ontem assisti no Teatro Sá da Bandeira, no Porto.
Atente-se, que Wanda Jackson foi recentemente recuperada de algum esquecimento a que tinha sido votada, com a intervenção sónica de Mr. Jack (White Stripes) White. Em 2011, este acérrimo defensor das velhas vozes da música americana (já tinha feito em mesmo em 2004 com outro nome maior da country Loretta Lynn) decidiu produzir o disco "The Party Ain't Over" e assim fazer novamente cintilar uma estrela que parecia estar a atingir o seu ocaso profissional.
A sala portuense, que desde os meus tempos idos de adolescente não visitava (serviu outrora para assistir a outras vocalizações) estava perfeitamente enquadrada no espírito da música cantada por Miss Jackson. No entanto a primeira desilusão acontece com a visão de uma sala deserta com uma assistência a rondar as três centenas de pessoas. A explicação mais ouvida por alguns seguidores da carreira desta lenda viva do country/rockabillly, apontava quer para falta de divulgação deste evento na cidade quer com a proximidade de dois espectáculos dados pela cantora em Espanha, um em Bilbao e outro há dois dias em Santiago de Compostela.
Apesar da pouca assistência na sala houve em alguns dos presentes a energia suficiente para criar uma certa atmosfera muito Rock & Roll. Contudo, chegou atingir-se certos limites de desrespeito para com a cantora, que a forçaram a ter que intervir no sentido de fazer sentir na plateia o seu incómodo.
A voz de Wanda mantém ainda os traços característicos e peculiares com que interpretou as inúmeras canções que se encontram materializadas nas dezenas de discos que gravou ao longo destes últimos 50 anos.
Entre o desfiar de belíssimas canções foi contando a sua história de vida, começando por referir que o concerto seria uma forma de traduzir esta já longa viagem no mundo das canções numa forma aproximada de um "best of" dos momentos mais significativos da sua carreira. Foi ainda partilhado com a assistência algumas confidências, sobretudo sob a forma como Miss Jackson privou com o Rei Elvis deixando latente a ideia de uma envolvência em palcos onde predominavam sobretudo lençóis e almofadas. Pelo sorriso maroto que por vezes transbordava da cara nomeadamente quando aludia a esse longínquo passado, estou em crer que a mulher devia ser danada para a brincadeira.
Outros apontamentos que foram sendo partilhados com o público, referem que a superestrela Adele é uma devota confessa da sua música, que "Fujiyama Mama" foi o seu grande "hit" no país do sol nascente e que a espiritualidade tem actualmente forte influência na sua vida (sentimento bem expresso na introdução da música "I Saw The Light").
Ao longo de uma hora e trinta de concerto, vi um espectáculo digno por alguém que tem milhares de quilómetros de estrada. Mesmo que em certos momentos tivesse existido algumas situações de menos acerto entre a cantora e os músicos (principalmente com a guitarra solo e em particular na versão de "You Know I´m No Good" de Amy Winehouse) podem ter como atenuante a falta de monitorização do som na sala. O som, quer dos instrumentos musicais quer da voz, foi debitado para a sala directamente a partir dos amplificadores.
Para quem não acredita que não é possível realizar viagens no tempo, experimente assistir a um concerto de Wanda Jackson e certamente irá dar consigo num qualquer baile de finalistas de liceu com a sua namorada e cujo clímax se atingirá já noite a dentro num qualquer Buick ou Dodge com os amortecedores a desempenharem vivamente o seu papel.
Set List: Riot in Cell Block #9; Rock Your Baby; Hard Headed Woman; I Gotta Know; Funnel of Love; I Betcha My Heart; Good Rockin' Tonight; Heartbreak Hotel; Shakin' All Over; You Know I'm No Good; Rip It Up; Like a Baby; Nervous Breakdown; Fujiyama Mama; Right or Wrong; Mean, Mean, Mean; I Saw the Light; Let's Have a Party; Encore: Whole Lotta Shakin'; Let's Have a Party.
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Ainda bem que foi bom. É excelente ouvir uma Mulher de 74 anos no Rock.
http://youtu.be/jtkryJlwU...
Uma das últimas da noite no Sá da Bandeira.