Super Bock Super Rock: 2º dia, 15 de julho [texto e fotos]
Arcade Fire em intensa comunhão com público português, num concerto com som irregular. A prata da casa, com B Fachada, Tigerman e Noiserv, brilha e recomenda-se. Portishead espalham a sua magia negra no Meco.
Depois de, ontem, demorarmos 2h40 de Lisboa até ao Meco, hoje a nossa equipa de reportagem conseguiu registar um tempo bem mais simpático: cerca de 40 minutos, saindo da capital pelas 15h00. Prevê-se que as filas comecem a tornar-se maiores e mais lentas com o final da tarde.
De momento (16h50) o calor é a estrela da tarde, registando-se no recinto uma temperatura mais elevada do que ontem. Fique atento ao nosso site e saiba como correm os concertos - e veja as fotos.
Ouça aqui Richard Reed Parry, o faz-tudo dos Arcade Fire, antecipando o concerto desta noite:
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"Eu adoro este gajo! É o David Santos", ouvimos alguém exclamar quando
Noiserv
sobre ao palco principal do Super Bock Super Rock à hora marcada. É o primeiro concerto deste segundo dia e uma escolha caricata para um recinto desta dimensão e um festival cujo público mostrou, ontem, tanta hormona e adrenalina mal direcionada. Ontem, a plateia que recebeu os Walkmen, por exemplo, teria comido Noiserv vivo. Mas hoje, apesar de a lotação estar esgotada, os ânimos parecem mais calmos, em virtude, porventura, de a idade média dos espetadores ser mais elevada.
Sozinho em palco, no que toca à música, David Santos vai comandando um pequeno exército de instrumentos: guitarra acústica, melódica, vibrafone e outras delicadezas, que sampla e desdobra em suaves camadas, recinto fora. Surpreendentemente ou talvez não, a coisa resulta e este som triste, mas doce, cai bem num final de tarde quente, mas bem mais pacato que ontem. Ao lado de David Santos, Diana Mascarenhas faz desenhos naïf, a preto e branco, que acabam reproduzidos nos dois ecrãs ao fundo do palco. Tudo aqui é bonito, delicado e precioso, mas não a ponto de se quebrar ou partir na multidão, repetimos, hoje muito mais serenada.
"Melody Pops", sobre "aqueles chupas pequeninos com uma flauta em baixo", e "Consolation Prize" foram algumas das músicas com direito a introdução, num concerto em que as histórias importam. Por um lado, no seu gosto pelos "brinquedinhos" e pelo som que eles fazem - como a máquina fotográfica que encostou ao microfone - David Santos lembra-nos ocasionalmente o projeto Foge Foge Bandido, mas no apego pela canção envolvente estará mais próximo da escola americana do indie (e na voz, dolente e encorpada, chega a roçar o timbre de Mark Kozelek). Para nós, foi um concerto capaz de fazer cócegas na areia do Meco, mas claro que cada cabeça sua sentença - atrás de nós, uma senhora diz ao telefone: "Estou a ouvir aquele que vimos no Jardim da Estrela! O deprimido!".
20h54
Os espanhóis
L.A.
abriram o palco secundário num momento em que procurar uma sombra ainda era um imperativo. O quinteto de Palma de Mallorca atirou-se ao seu rock simpático com a força de quem sabe que está a jogar (quase) em casa. Quando o vocalista pergunta se há espanhóis entre o público a resposta é quase tão ruidosa como aquela que se ouve depois de o músico fazer a mesma pergunta mas relativamente a portugueses.
A voz encorpada do vocalista vai soando bem em temas como "Hands", mas perde alguns pontos e faz-nos virar costas para rumar ao palco principal (Rodrigo Leão espera por nós) quando se aproxima demasiado do registo de Eddie Vedder.
O sol está a desaparecer, o recinto cada vez mais cheio e
Rodrigo Leão
pega onde Noiserv deixou para continuar a embalar o público. Os ambientes etéreos são perfeitos para manter os ânimos calmos, reservando toda a energia para a atuação dos Arcade Fire. Entre sopros de acordeão e arrojos de violoncelo, Leão vai levando o barco a bom porto com a ajuda da voz lindíssima de Ana Vieira. Enamorada em "Vida Tão Estranha" e o dramatismo de "A Corda", a cantora não consegue apagar o facto de não termos visto Beth Gibbons em palco com Leão.
O músico apresentou também, pela primeira vez ao vivo, "A Dor Mente", tema gravado a pedido da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, e deixou para a reta final da atuação o muito aplaudido "Pasión". A música segue já a seguir com os
The Gift
.
21h50
"Homens a chamar por
B Fachada
!", exclama o próprio, com surpresa brincalhona, no Palco EDP. "Coitados...", acaba por concluir segundos depois. Mas não há que ter pena: homens e mulheres, todos terão tido deste concerto ao lusco-fusco o que esperavam. Entre músicas do disco de verão do ano passado, ainda válido em 2011, às canções do álbum "infantil",
B Fachada é Pra Meninos
, passando pela incontornável "Estar à Espera ou Procurar" ou mesmo "Zé", já num encore que deverá ter feito as delícias dos moços que passaram o concerto a berrar por esse tema, o que Bernardo Fachada deu esta noite, com o seu pequeno mas belo ensemble, foi um grande espetáculo.
Acompanhado por Mariana na bateria, Martim no baixo e contrabaixo e Francisca "Minta" Cortesão "em tudo o resto", B Fachada foi recebido - ainda com a luz do dia a recortar os pinheiros que ladeiam o palco - com uma grande ovação. O talento e o carisma justificam a excitação, o repertório extenso, diz o próprio, ajuda a construir um espetáculo com corpo. A rendição a esta música tão contemporânea como tradicional, essa, acontece logo aos primeiros minutos. De facto houve homens a chamar por Fachada, mas ele apressou-se a esclarecer que, "tal como os velhos amigos da Flor Caveira", pratica a monogamia. Com o humor acutilante sempre na lapela do fato branco ("parece um brasileiro", diria a nossa avó), o músico ("um verdadeiro artista", chamava-lhe alguém ao nosso lado) não precisou de explicar ou interligar as várias personagens que foram brotando das suas canções: do "hipster" que quer ser "o Puto Abrantes e o Panda Bear" à criança semi-angustiada com o regresso às aulas, passando pelo verdadeiro showman que protagoniza uma das grandes sequências deste festival até agora: "Estar à Espera ou Procurar" e "Os Discos de Sérgio Godinho", hoje rebatizada de "Os Discos de Sérgio Godinho", cantadas e dançadas com muitas ganas por uma plateia bem numerosa, cheia de admiradores. Numa noite em que o fio condutor do cartaz parece ser um certo romantismo meridional, Fachada brilhou. Citando Godinho, citado por ele, "a liberdade está a passar por aqui". Ou segundo o rapaz que não se cansou de pedir a música "Zé", "ganda boss".
22h30
Paulo Furtado, na sua encarnação mais felina e mais solitária, proclama que a rádio e a televisão em Portugal, tal como noutros países, são "uma merda". É o mote para "Rádio & TV Blues", claro, celebrado pelo muito público que se concentra frente ao Palco EDP durante o concerto de
Legendary Tigerman
. A reação, quer-nos parecer, é mais à energia impressionante que Furtado, sozinho, continua a ser capaz de produzir, e não tanto à mensagem. O que importa, convenhamos, é que haja uma reação: e esta noite correu bem a Paulo Furtado que, no fim da atuação, confessou ser "uma grande felicidade estar com uma guitarra, um bombo e uma tarola a tocar rock and roll para vocês e a fazer-vos dançar". Prazeres simples da vida, que nesta noite amena se traduziram ainda numa versão de "Ghost Rider", dos Suicide ("Se não conhecem, quando chegarem a casa vão procurar no Youtube", recomendou), ou por "The Saddest Thing To Say", a canção que, em
Femina
, é cantada por Lisa Kekaula (esta noite apenas presente em modo pré-gravado).
Para Tigerman, também o trabalho é um prazer. Antes de "arremessar" "I Got My Night Off", do álbum
Masquerade
, explicou que o seu trabalho é mesmo "dar-vos prazer". No fundo, uma progressão lógica do discurso de B Fachada, que o antecedera neste mesmo palco, dizendo: "Vocês têm que fazer a festa, nós só fazemos a música". Em ambos os casos, o repto foi aceite e a festa instalou-se no Palco EDP, com ou sem mascarilhas para o pó (como Furtado sugeriu), com ou sem garotas empoleiradas em árvores (vimos pelo menos uma, no final do concerto de Tigerman). "Se estiverem com falta de ar, venham cá para a frente. Ou então digam assim: Paulo, estou com falta de ar", instruiu Furtado, para galhofa generalizada. "Big Black Boat" serviu então de ponto de exclamação final e sinal de partida para uma dança popular tresloucada que marcou a despedida do Homem-Tigre. "Vocês fizeram-me um homem feliz", jurou. Mais uma vez.
22h46
Quem esperava ver um concerto dos
Gift
de sempre poderá ter ficado desiludido. A banda de Sónia Tavares e Nuno Gonçalves vestiu orgulhosamente a camisola de
Explode
e resolveu apresentar ao público do Super Bock Super Rock a nova fase (colorida) da sua carreira.
O início da atuação foi feito ao som de "Let It Be By Me" (precisamente o tema que abre o novo álbum) e as canções novas sucederam-se a partir daí, com apenas "Driving You Slow" (intersectado por "Enjoy the Silence", dos Depeche Mode) e "645" a marcar o regresso ao passado (não houve "Fácil de Entender", como alguém exclamava ao nosso lado no final, e nem sequer houve "OK, Do You Want Something Simple?").
Com Mário Barreiros na bateria, a banda foi apresentando a pop açucarada de "RGB", o momento em português de "Primavera", "Made for You", o intimismo de "Always Better if You Wait for the Sunrise" e o longo "The Singles", que leva a atuação a bom porto, entre chuva de confettis coloridos. Enquanto a vocalista agradece ao público, alguém que passa por nós naquele momento atira: "Ninguém está aqui a ver os Gift, está tudo a marcar lugar para Arcade Fire".
01h06
Pela terceira vez na vida vemos um concerto dos
Portishead
. E pela segunda vez na vida parece que fomos subitamente raptados por alguém que nos colocou numa máquina do tempo, direitinhos à noite de 9 de agosto de 1998, quando a banda de Beth Gibbons subiu ao palco do Festival Sudoeste para nos deixar de queixo caído. 13 anos volvidos, a vocalista parece estar na mesma (salvo as inevitáveis rugas de expressão), com uma voz que é capaz de facilmente nos levar do sorriso às lágrimas.
O concerto desta noite do projeto britânico passou por todos os momentos altos de uma carreira de apenas três (maravilhosos) álbuns. Do mais recente
Third
saíram o ritmo cavalgante de "Silence", a abrir, a lindíssima "The Rip", ainda na sequência inicial, os ritmos sarcásticos de "Magic Doors" e a acidez de "Machine Gun", que continua a atacar-nos o estômago como se de um murro se tratasse.
Ao passado, a banda foi buscar "Mysterons", tema de abertura de
Dummy
, "Glory Box" e "Sour Times", recebidos obviamente com um coro de vozes maduras, uma mais lenta "Wandering Star" e, quase no final (confessamos que ficamos com medo que tal momento não acontecesse), um monumento de canção intitulado "Roads" (aqui sim, o coro massificou-se). Mas se tivéssemos de escolher um ponto alto do espetáculo, seria mesmo "Over", single do álbum homónimo de 1997, com a sua guitarra dramática a contagiar a multidão.
A ritmada "Nylon Smile" trouxe-nos de volta ao passado mais recente e "We Carry On" encerrou o concerto com Beth Gibbons a atirar-se ao fosso para cumprimentar os fãs. "Obrigado. Foram fantásticos", agradeceu a cantora antes de saírem de palco. Dizer que foi bom recordar é dizer muito pouco. Os Portishead são tão apaixonantes hoje como eram quando os conhecemos.
00h30
Atravessar o recinto do festival minutos antes de os
Arcade Fire
começarem a tocar é uma experiência que imaginamos similar a alguns exercícios de treino militar. Esbarramos, por muito delicados que tentemos ser, com massas e massas de corpos, bocas mais ou menos desordeiras, um rapaz que nos estende o chapéu, pedindo que nele depositemos "pelo menos um cêntimo", e a nossa estirpe favorita de encontros imediatos: os festivaleiros que esperam pelo concerto sentados no chão, numa pose quase zen, não se desviando por nada nem por ninguém e convivendo na perfeição com a sujeira e o caos.
A verdade é que conseguimos instalar-nos, do lado esquerdo do palco, mais ou menos a meio do recinto, esperando pela epifania adiada no ano passado, com o cancelamento do concerto no Pavilhão Atlântico (e aqui perto há uma rotunda da NATO, como que a lembrar a razão dessa desfeita). No palco, uma portada de cinema à antiga anuncia o filme prestes a estrear: a fita dos Arcade Fire, pois então. E foi com imagens do filme de Spike Jonze sobre a banda, sempre numa estética algo retro, que o espetáculo arrancou. Os primeiros gritos, vindos das fiéis filas da frente, denunciam a chegada dos próprios músicos, dos homens e mulheres por detrás da simbologia. "Agora é que é!", berra alguém atrás de nós, e os primeiros acordes de "Ready To Start" e uma cotovelada que levamos no ombro confirmam: a nave dos Arcade Fire aterrou no Meco.
Apesar de o som não ser o mais potente do mundo, nem sequer do festival, não há dúvida de que, logo à primeira música, a aldeia do Meco se transforma em cenário de culto, com o público a libertar toda a energia e toda a emoção acumuladas ao longo dos últimos meses (anos?) de espera, numa comunhão impressionante de cânticos, palmas, letras decoradas e gritos de comoção. O concerto dos Arcade Fire no Meco teve absolutamente tudo o que é necessário para incendiar uma plateia, e Win Butler, o vocalista e líder da trupe, até chegou a dizer, já no encore, que Portugal devia dar cursos de como ser um bom público a outros povos. Mas faltou - e perdoem-nos se do local onde assistiram ao concerto a acústica era diferente - um rastilho vital para que o fogo se propagasse: um som decente, que permitisse ouvir os instrumentos e as vozes com distinção, e não como que dispersos em ondas de volume variável.
Não sendo abertamente religiosa, a música dos Arcade Fire parece despertar nos seus seguidores uma certa espiritualidade, convidando à sensação de pertencer a uma tribo e apostando numa espécie de ascensão contínua e emocionante, de catarse. Ora, para que o diálogo ecuménico, digamos assim, acontecesse com sucesso, convinha ouvirmos mais do que a voz dos acólitos. Win Butler, Régine Chassagne e Richard Reed Parry, só para mencionarmos os principais "pregadores" dos canadianos, deixam o escalpe em palco e pouco ou nada lhes poderá ser apontado em termos de esforço ou empenho. Acontece que "Keep The Car Running", "Crown of Love", "Intervention", "We Used To Wait", "Month of May" ("Podia ter sido o momento do festival", lamentava um fã) e todas as "Neighbourhoods" do saudoso
Funeral
se sucederam sem que alguém conseguisse (tentasse?) acertar o som de palco. Comparado com a potência sonora dos Portishead, que tocaram imediatamente antes, os Arcade Fire saíram ainda mais a perder. É difícil compreender como é que uma banda desta dimensão, que ainda por cima se encontra num momento bem ambicioso a nível visual e de arranjos, não entenda que o som não está à altura da sua música empolgante e pomposa (recentemente, o grupo tocou em Hyde Park, Londres, e os fãs queixaram-se de problemas semelhantes).
Admitimos que, noutros pontos do recinto, o concerto se ouvisse melhor. E reconhecemos que, em grandes hinos como "Rebellion (Lies)" ou "Wake Up" (cujo coro se fez ouvir de forma espontânea, minutos mais tarde, como o de "Viva la Vida" no Optimus Alive'11), há um certo charme em ouvir apenas um coro emocionado de milhares de portugueses (e espanhóis, e ingleses, e italianos) em diálogo direto com Win Butler. Mas, em muitos outros momentos, entristeceu-nos não ouvir os dois violinos em palco, perder boa parte dos pormenores e sentir que, ao invés de uma enorme celebração, a noite de 15 de julho foi, de certa forma, uma oportunidade perdida para "ajustar as contas" com os Arcade Fire.
Voltamos a dizer: nada a apontar ao grupo, cujo entusiasmo roça tanto o culto pagão como aquela noção de família em palco promovida pela E Street Band. Nada contra o romantismo e o otimismo engarrafados em canções buriladas, entre a indie pop e a folk de câmara. Mas este público, esta lua e esta banda mereciam um som melhor, muito melhor.
A despedida dos Arcade Fire do Meco fez-se ao som de "Sprawls II (Mountains Beyond Mountains"), conduzida pela graciosa Régine Chassagne e suas fitas coloridas. Mas foi "Wake Up" e o coro guardado nas gargantas tanto tempo, solto por fim, rumo ao céu sem estrelas do Meco, que nos ficou como imagem de eleição de um bom concerto, prejudicado pelo som pouco rigoroso que lançou uma sombra importante numa noite bonita.
No regresso à tenda de imprensa, ouvimos gritos de "Galiza! Galiza!" por parte dos donos da bandeira verde com um touro que temos visto hasteada nos concertos, e os avisos de alguém que berrava: "Abram caminho! Eu vou mijar!". São cenas de um festival, com certeza.
Textos de Lia Pereira e Mário Rui Vieira
Fotos de Rita Carmo/Espanta Espíritos