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Zé Leonel: a história de um dos primeiros punks portugueses

Peça central dos primeiros anos dos Xutos & Pontapés e líder dos Ex-Votos, Zé Leonel faleceu hoje, 21 de abril, vítima de cancro. Recorde o seu percurso.

Zé Leonel, músico que integrou a primeira formação dos Xutos & Pontapés, ainda enquanto Delirius Tremens, morreu esta quinta-feira (21 de abril), vítima de cancro do fígado. A BLITZ recorda alguns dos momentos mais importantes do percurso do músico que viria, também, a liderar os Ex-Votos, criando ainda os projetos Amor de Perdição e Zé Leonel + IVA. "O punk, para mim, não me trouxe nada de novo", dizia Zé Leonel em 2008, em entrevista ao site Nova Guarda. "A família, a igreja, a polícia e o estado são um quadrado - isto era o lema punk, mas antes do punk já era o meu. Nunca vivi com pai e mãe, não era batizado pela Igreja e por isso excomungado por ela, estava sempre a comer porrada da polícia e o estado nunca me defendeu. Por isso, para mim não só era fácil ser punk, como dava cartas nessa área", explicava. "Nos Faíscas era apenas isso, uma espécie de megafone entre o público a realçar as palavras de ordem (a minha função nos Faíscas era ser o 'animador cultural')". Uma das primeiras bandas do punk português, os Faíscas deram o último concerto a 13 de janeiro de 1979, data em que se assinala o nascimento dos Xutos & Pontapés. Foi nessa mesma noite, e na mesma sala - os Alunos de Apolo, em Lisboa - que o grupo de Zé Pedro deu o primeiro concerto: uns suados 10 minutos que ficaram para a história. "Foi algo que aconteceu, em 13 de Janeiro de 1979, a uma velocidade superior ao que a mente consegue processar", descreveu Zé Leonel ao Nova Guarda. "Sei que tocámos temas como: 'A Tua Namorada', 'Não Me Chames Herói (Chama-me Nº 1)', 'Sexo', 'O Freak e a Freak', 'Sacaninha'...mas pouco me lembro mais. Por outro lado não me esqueço que consegui ir a umas escadas próximas dar uma queca na Cristina e que um repórter se zangou comigo por eu, em cima do palco, ter dito que comia a namorada dele". Zé Leonel foi vocalista dos Xutos & Pontapés entre 1978 e 1981, abandonando o grupo antes do primeiro longa-duração da banda. Foi ele que ajudou a escrever "Sémen", inspirada pelo nascimento da primeira filha.

Contava Zé Leonel ao jornal BLITZ, em 1992: "Eu na altura que fiz essa música engravidei uma moça e ela teve uma criancinha, a minha filha. O 'Sémen' e o 'Papá Deixa Lá' são-me queridas porque assinalam a história do meu rebento".
O temperamento de Zé Leonel é ilustrado da seguinte forma por Zé Pedro, outro dos fundadores dos Xutos & Pontapés, na biografia Conta-me Histórias, de Ana Cristina Ferrão: "O Zé Leonel era da Encarnação, era um gajo louco, excitado por si próprio, mesmo antes do punk já era destravado, já tinha uma filha com três anos e nem era de mamar muitos copos". Além das músicas que ajudou a escrever, Zé Leonel era conhecido pelo seu caráter empreendedor e pela grande capacidade de improviso, ao leme dos Xutos & Pontapés. Em Conta-me Histórias, escreve-se que, em 1979, os Xutos tocaram numa feira de artesanato próxima do Casino Estoril. Como tiveram a ideia? "Ninguém sabe. Falaram com o Zé Leonel e ele entrou logo numa de comerciante: 'Bem, para quatro concertos, são 600 contos'. O homem respondia encabulado: 'Não sabia que era tão caro!?'. 'Então quanto é que estava a pensar pagar?' - perguntava o Zé Leonel sem se desmanchar, mantendo o perfil de 'executivo'. 'Olhe que esta banda vale milhões!'. 'Aí uns 50 contos'. 'Serve, serve!'". Na mesma obra, Tim reforça o papel central de Zé Leonel nos primeiros anos dos Xutos. "Era o Zé Leonel que arranjava os concertos, que fazia os cartazes à fotocópia, era ele que arranjava as letras, era ele que ia chatear o outro gajo não-sei-lá-onde, era ele que discutia o quem-toca-primeiro-quem-toca-depois, era ele que tratava dos dinheiros. Ele era assim, tinha muito jeito. Podia faltar a um ensaio, ou não fazer nada um dia, mas no próximo já havia duas letras prontas". Tim, então apenas no baixo, viria a substituir Zé Leonel na voz, aquando da saída deste. "Ele vivia ali ao pé do Camões, em casa da tia (...). Como ele não aparecia [nos ensaios], estava a ficar desligado da evolução da banda", recorda Tim em Conta-me Histórias. "Depois da cena inicial, o grupo teve quatro meses em que o nosso gozo de ser banda era ensaiar", acrescenta Zé Pedro "Foi na altura em que fizemos o 'Avé-Maria', as músicas mais complexas. O Zé Leonel por loucura e por coisas, sou-artista-já-estive-em-palco, começou-se a baldar, a perder a dedicação. Era vocalista dos Xutos mas estava sempre fora, não aparecia nos ensaios, andava naquela onda com amigos atrás...".
"A saída do Zé Leonel foi o resultado de um afastamento natural", recorda Tim. Em março de 1981, Zé Leonel deixava de ser vocalista dos Xutos, cujo primeiro álbum, 78/82, sai em 1982. 11 anos depois de sair dos Xutos três anos após criar os Ex-Votos, Zé Leonel comentava o "equilíbrio de forças" na antiga banda, em entrevista ao BLITZ. "O Kalu não era punk, era um tipo que tinha amigos punks, imagens... O Zé Pedro era punk, o Tim provavelmente era a pessoa que menos tinha a ver com isso tudo e mais com a música. Eu era um gajo filho de pais separados, criado na rua, dava-me com ciganos e tinha problemas religiosos. A minha família era da religião do Foda-se. Tudo isto se refletia na minha performance dos concertos", considerava. "Eu fazia um papel que ainda hoje recordo, que era o de bater nas pessoas todas. E eram muitas - mas ninguém se mexia, era uma atitude punk e eu estava ali era ajavardar". Nesta altura, os Ex-Votos davam muitos concertos apesar de não terem qualquer álbum lançado, notava o BLITZ. A situação mudaria com Cantigas do Bloqueio, um disco produzido pelo antigo colega Tim, e no qual se incluía o êxito "Subtilezas Porno-Populares", popularmente conhecido como "Pimba!".
Ao jornal BLITZ, em 1995, já em promoção do segundo disco, Benditos Sejam, também produzido por Tim, Zé Leonel refletia sobre o sucesso de "Subtilezas Porno-Populares". "Trouxe-nos uma sensação estranha. Teve as vertentes todas. Penso, de vez em quando, que o 'Pimba!' nos empurrou para o lado que nós não queríamos. E não fomos, só que nos tentaram catalogar. Eu estou a aprender isto, sabes? Com esta cara e com estes anos todos ainda estou a aprender como é que este meio funciona. Começo a achar que um gajo vender mais do que 500 discos é um problema". "No caso das 'Subtilezas Porno-Populares' - que é assim que se chama -, comecei a sentir isso. Comecei a sentir que as pessoas que gostavam do tema, da maqueta e enchiam os locais dos concertos, começaram a reagir de forma diferente depois do sucesso do disco. Isso foi estranho mas, por outro lado, permitiu-nos dar mais concertos do que contávamos e chegar a mais pessoas", explicava a Pedro Gonçalves. Em Benditos Sejam, os Ex-Votos buscavam um som mais português, nomeadamente através da introdução do acordeão. "É um instrumento muito nosso, muito português. É incrível como há mais gente que sabe tocar acordeão do que baixo". Da discografia dos Ex-Votos constam ainda Cantigas do Faz de Conta (lançado, em 1997, pela BMG) e Cantigas da Vida, de 2001.
Na entrevista ao Nova Guarda, Zé Leonel confessava sentir "orgulho de ter fundado a chispalhada", referindo-se aos Xutos. "Mas também sinto [orgulho] por ter estado na génese dos Heróis do Mar e dos Peste & Sida e de ter feito os Amor de Perdição e os Ex-Votos, para além de dar as duas mãozinhas aos miúdos que começam agora. O rock, para mim, não é um negócio; é uma opção de vida - o amor!". Em 1995, já à frente dos Ex-Votos, garantia ao jornal BLITZ não se arrepender de ter saído dos Xutos: "Todas as pessoas precisam de comer, de ter um amanhã. Eu, na altura, não tinha hipótese de sobreviver se não procurasse ganhar dinheiro para o meu sustento. Eu morava numa tenda. Por outro lado, se tivesse ficado, talvez hoje não nos pudéssemos aturar uns aos outros". Zé Leonel esteve ainda ligado ao teatro e ao cinema e, aos 40 anos, entrou no curso de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa. Em 2010, lançou Estórias (Daquelas que eu Vi), uma biografia. Nela, escreveu: "Este livro é dedicado a todos os músicos que trabalham onde não querem, poupando para adquirirem o seu equipamento, que gastam o seu tempo ensaiando, que criam e executam às vezes com um esforço desumano e depois são obrigados a pagar para mostrar o seu trabalho. A esses, peço-lhes que nunca desistam, porque com a nossa luta a música, a arte em Portugal acabará por conquistar o espaço que é seu por direito".

Lia Pereira