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War on Drugs em Paredes de Coura: recorde a entrevista à BLITZ

No verão de 2014, altura em que a banda atuou no Nos Alive, Adam Granduciel falou com a BLITZ sobre o fenómeno à volta do álbum Lost in the Dream. Recorde aqui a entrevista.

São quase nove minutos que nos dão as boas-vindas ao terceiro álbum dos War on Drugs com pompa e circunstância. Se ficar viciado nestas guitarras de vistas largas e drones a pedir para prolongar o prazer, o resto de Lost in the Dream, lançado em março deste ano, será um pitéu para si. Se o aborrecerem as delongas de Adam Granduciel, criador e "patrão" da banda de Filadélfia, é melhor pegar noutro disco, porque ao longo dos restantes nove temas não encontrará grandes ocasiões para descansar. Ainda que deliciosamente orelhudas, e muitas vezes reminiscentes daquele rock heroico de Springsteen e da sua E Street Band, canções como "Red Eyes", que se segue aos nove minutos da abertura "Under The Pressure", ou a atmosférica "An Ocean Between The Waves" precisam da sua atenção - diríamos mesmo, da sua fé - para verem ampliado o seu encanto. No momento em que já antecipa com prazer os gritinhos eufóricos de Granduciel, o feitiço terá surtido pleno efeito. Lançado em março deste ano [2014], Lost in the Dream é, ao contrário de muitos discos gravados nesta era do MP3 e do soundbyte, um álbum digno desse nome. É nessa coesão e integridade que reside muito do seu charme, reconhece Adam Granduciel, que encontrámos, cansado, nos bastidores do Nos Alive'14, no passado mês de julho. "Hoje em dia há muita gente que faz álbuns e demora muito tempo a construí-los, e penso que as pessoas [que ouvem música] respeitam isso. É divertido! Na verdade, eu só sei fazer as coisas assim, mas é fixe conceber isto tudo". "Isto tudo", ou seja, dez das canções mais aclamadas de 2014, viajam com sentido pelos nossos ouvidos e pela nossa imaginação num alinhamento que, agora, parece fazer todo o sentido, mormente pela força das primeiras duas canções, todo um manifesto de intenções. "A primeira canção que escrevi para este disco foi ou a "Lost in the Dream" ou a "In Reverse"", recorda o compositor. "E escolher a sequência das músicas foi muito difícil! Agora parece perfeito", admite, entre risos. "Até dou por mim a pensar: oh meu Deus, como é que eu não era capaz de ver que isto só podia ser assim? Mas, como em tudo na vida, tens de esgotar todas as possibilidades. Todas as ideias devem ser exploradas antes de podermos dizer que sim, o disco está terminado".

The War On Drugs
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NOS Alive 2014
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NOS Alive 2014

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NOS Alive 2014

Amplamente comentado tem sido o facto de o sucessor de Ambient Slave ter nascido de um período de depressão e isolamento de Adam Granduciel, e o contraste entre tal estado de espírito e a energia de canções que dão mais vontade de ouvir bem alto, num carro em andamento e com as janelas abertas, do que num quarto triste e solitário. Depois do primeiro encontro com a fama possível, proporcionado pelo impacto do segundo álbum, o músico de Massachusetts, agora radicado em Filadélfia, chegou a casa, terminou uma relação amorosa e ficou sozinho. Demasiado sozinho. Foi essa solidão, depois de meses na estrada a conviver diariamente com multidões de estranhos, que desencadeou uma série de pensamentos menos positivos, considera. Mas o ânimo transmitido por muitos dos temas de Lost in the Dream tem outra explicação, conta-nos, de cabelo desalinhado pelo vento do Passeio Marítimo de Algés. "A parte engraçada é que muitas canções e os seus títulos foram concebidos antes de eu cair naquele precipício estranho. Foi em meados de 2012 que comecei a escrever algumas destas ideias e algumas das canções começaram a acontecer. Na altura estava, não diria feliz, mas a passar pela vida sem pensar muito no assunto. No final de 2013 é que alguma coisa se passou e, de repente, estava obcecado com tudo. Mas a "Suffering", por exemplo, já tinha sido escrita, tal como a "Under The Pressure". As canções não eram autobiográficas, já estavam lá, mas entretanto muitas coisas diferentes começaram a acontecer. Eu estava completamente sozinho", confessa. "E sempre que alguém passa muito tempo sozinho, as coisas começam a mudar. Começas a pensar muito".

Quatro homens, um líder

Ainda que Lost in the Dream tenha sido gravado por quarto músicos, e no Nos Alive tenhamos visto um sexteto em palco, os War on Drugs são a banda de Adam Granduciel. É ele quem compõe todas as canções e as entrega, mais tarde e impondo certas condições de "manuseamento", aos artistas com quem vai esculpindo a cara do disco. Sem Kurt Vile desde 2008, ainda que em Algés ainda houvesse quem perguntasse pelo autor de "Jesus Fever", entretanto bem lançado numa feliz carreira a solo, Granduciel é, sem vergonhas, o homem que tudo decide e controla na banda de "Eyes To The Wind". E isso inclui criar um som cheio, de banda para aquele que é quase um projeto a solo. "Faz parte da magia de estúdio: fazermos o que fazemos, de uma maneira que me permite estar a trabalhar sozinho, criando a ilusão de que está ali uma banda a tocar numa sala. É muito divertido de fazer!", garante, num tom de voz perpetuamente exclamativo. "Não é fácil, mas eu gosto de pegar numa ideia pequena e ir construindo outras peças, de forma meticulosa - mas, ao mesmo tempo, sem pensar demasiado nisso. É deixar as pessoas tocarem. Mas não quero toda a gente a tocar ao mesmo tempo na mesma sala!", alerta. "Porque se está toda a gente a fazer alguma coisa, não consigo perceber o que é que a bateria ou o piano estão a fazer. Não consigo concentrar-me em nada". Na capa de Lost in The Dream, um Adam Granduciel olha, contemplativo, para o chão, junto à janela da sua casa de Filadélfia. "Na altura tinha um estúdio em casa", conta-nos, "e passava lá muito tempo. Quem tirou a foto foi um tipo chamado Dusdin [Condren]. É um fotógrafo de Nova Iorque e já fez algumas capas de discos - eu vi a foto que ele tirou para o álbum Tramp, da Sharon Van Etten... No booklet há uma foto dela com o Aaron Dessner [guitarrista dos The National, que produziu o disco] e eu sempre adorei essa imagem. Perguntei-lhe: Sharon, quem tirou esta foto? E ela: foi o Dusdin, que também fez a capa! Mandei-lhe um mail e ele veio ter comigo, tirar umas fotos", recorda. Movidos pela curiosidade, visitámos o site do fotógrafo e descobrimos sessões com outros músicos, como Mirah, Califone ou Phosphorescent (é o autor da capa de aplaudido Muchacho), todas atravessadas pelo mesmo intimismo da imagem-mor de Lost in the Dream. Constantemente comparado a Bruce Springsteen, Bob Dylan e Neil Young, referências que não rejeita, Adam Granduciel acrescenta mais alguns nomes que orientaram a sua adolescência, período formativo por excelência. "Ouvia R.E.M., Jimi Hendrix, Soundgarden, Nirvana, Tom Petty, Neil Young, Beatles, [os primeiros discos dos] Sonic Youth, um pouco mais tarde Spacemen 3...". Foi, de resto, ao escutar um disco da banda de Jason Pierce, numa loja de discos, que o norte-americano teve uma espécie de epifania. "Vivia em Massachusetts e não via muitas bandas, mas ia a festivais. Vi os Smashing Pumpkins duas vezes, por exemplo. Tinha o hábito de poupar dinheiro para ir a concertos. Spacemen 3 foi uma daquelas coisas que ouvi numa loja de CDs, não sabia o que era e tive de descobrir mais! Nessa altura já tocava e escrevia canções. Já estava agarrado à guitarra, que tocava há uns três anos". Questionado sobre heróis desconhecidos na sua filiação musical, reflete: "Bem, gosto dos Waterboys, mas suponho que seja fácil de perceber. Tenho muitas influências de coisas que ouvia naquela altura, mas nada de muito desconhecido". Atualmente encantado pelos últimos discos de Steve Gunn (que tocou com Kurt Vile nos Violators), Sharon Van Etten, Chris Smither e Cass McCombs, que tocou antes dos War on Drugs em Algés, Adam Granduciel tem noção de que, ao terceiro álbum, conquistou mais fãs. Se em 2012 tocou num Musibox - pequena sala no Cais do Sodré, em Lisboa - bem composto, este verão a tenda do palco Heineken foi pequena para acomodar tantos fãs e curiosos. A mudança de estatuto parece não incomodar muito o homem que, recentemente, brilhou num dos palcos mais cobiçados da televisão norte-americana: o programa de David Letterman. "Eles não te dão muito tempo: ensaias de manhã e depois correm contigo", revela. "Mas é divertido, porque as pessoas veem o programa, que eu costumava ver quando era miúdo e ainda é muito influente. Algumas pessoas não ligam, mas para mim é um marco e sinto-me honrado por ter ido lá duas vezes. E sem dúvida que nos dá uma maior exposição", diz. "Mas quando fiz o disco, só pensava que estava feliz com o resultado. Ficarei sempre surpreendido por a música ter essa capacidade de chegar a tantas pessoas. Fico sempre profundamente surpreendido e também honrado. E sinto-me feliz por ter chegado a tanta gente, porque este foi um álbum importante para mim. Quis crescer como songwriter e tentar escrever canções melhores, quis também melhorar o meu trabalho de estúdio e muitos outros aspetos. E sinto que as pessoas se estão a afeiçoar ao disco por causa disso tudo".

 

Para Adam Granduciel, andar em digressão é compensador, mas também exigente: "Para mim, começa a ser emocionalmente esgotante", deixa escapar, antes de explicar que chegara de Filadélfia na véspera e não conseguira pregar olho em Lisboa. "Eu adoro é tocar, a melhor parte de andar na estrada é mesmo essa. Por mim toco todos os dias, detesto dias de folga!", ri. "Temos dois dias de folga em Lisboa e toda a gente me diz: vai passear, vai à praia, e eu: pois, mas preferia tocar!". Da primeira passagem por Lisboa, em maio de 2012, o músico recorda sobretudo a participação de Elliott Levin, o saxofonista de jazz, também de Filadélfia, que estava em Portugal nessa semana e, depois de atuar na loja Trem Azul, deu um saltinho ao Musicbox para improvisar com os War on Drugs. Na estrada, garante-nos o nosso interlocutor, é difícil alinhar ideias, mas o próximo disco pode estar ao virar da esquina. Vontade, pelo menos, não falta a este autor cheio de bichinhos carpinteiros. "Tenho umas ideiazitas, nada de especial. Estou muito cansado para escrever! Mas adorava conseguir escrever canções novas". Entrevista de Lia Pereira Publicada originalmente em 2014