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Três dias na estrada com Gisela João [ARQUIVO]

No verão de 2014, acompanhámos Gisela João nalguns dos seus concertos com orquestra, no Algarve. Recorde esse artigo, a poucos dias dos concertos da cantora de Barcelos no São Luiz (de 10 a 12 de dezembro).

Caminhando por uma pequena rua no centro histórico de Lagos, onde subiria ao palco ao início da noite, Gisela João é abordada por uma voz desconhecida. De dentro de uma pequena loja, o comerciante pergunta: "A menina é que é a artista?". Perante a confirmação, invariavelmente pronta e risonha, o lojista quer saber de onde vem a cantora que animará aquela noite cálida de verão, num concerto com muitos turistas estrangeiros na plateia. "Barcelos!", exclama a minhota, e a reação, sem palavras, indica espanto. Nascida há 30 primaveras na cidade que os fãs de rock se habituaram, nos últimos anos, a associar ao festival Milhões de Festa ou a bandas como os Black Bombaim, Gisela João não é uma fadista tradicional, no sentido mais recatado ou mesmo sofisticado que aprendemos a ligar às grandes divas da canção portuguesa. Pequena e esbelta, costura os seus próprios vestidos e não tem medo de arriscar uma paleta distinta do negro dos xailes convencionais: "Gosto do efeito surpresa de, todas as noites, subir ao palco com uma roupa diferente", explica horas antes de atuar em Faro, também com a Orquestra Clássica do Sul. Sem orçamento para envergar vestidos de estilistas, aproveita a paixão pela moda e a habilidade no trabalho manual para transformar os tecidos que a vão encantando em vestidos personalizados. "Ela arranjou uma maneira simples de fazer isto", brinca Estelle Valente, amiga de Gisela e parte da pequena entourage que a acompanha em digressão. "Faz um quadrado, corta ali uns buracos e já está", ri-se a filha de emigrantes portugueses em Paris, que há quatro anos chegou a Santa Apolónia, cheia de malas e sem quaisquer planos. Amante de fado e fotografia, Estelle, que em Paris chegou a trabalhar na produção de espetáculos e na Rádio Alfa, conheceu a voz de Gisela João num espetáculo de JP Simões no CCB, em 2012. Parte da série Carta Branca, em que os artistas convidam quem bem lhes aprouver para se reinventarem em palco, o concerto teve uma participação brilhante literalmente. "Ela viu a luz!", desata Gisela a rir-se, contando que, nessa noite em que Estelle se deixou encantar pela sua portentosa interpretação, levava um vestido de lantejoulas que, iluminado pelos holofotes do CCB, a transformava num clarão ofuscante. Contactos estabelecidos, Gisela e Estelle firmariam uma amizade sólida que é, também, frutuosa colaboração: apesar de não se considerar fotógrafa profissional, a amiga da cantora acabou por ser autora das fotos de promoção de Gisela João, primeiro disco da nortenha e Álbum do Ano para a BLITZ em 2013. "Eu tinha feito uma sessão mas não me sentia bem com aquelas roupas", recorda. "Depois fui para uma casa em obras, tirámos umas fotos com iPad e pensei: é isto. Isto sou eu". Ao pedir autorização a Estelle para usar as suas fotos, houve lágrimas de comoção e a certeza de que a decisão tinha sido a mais acertada.

Saber vestir a música Num aldeamento turístico perto de Tavira, famílias de férias arriscam saltos para a piscina enquanto Gisela, aparentemente tranquila, dá os últimos retoques no vestido vermelho com que, naquela noite, fará furor em Faro. O tecido, rendado, transforma-se aos poucos num modelo exclusivo que, minutos mais tarde, será alvo de um teste inesperado: "Sou o Super-Homem!", grita a cantora-costureira saltando do pequeno muro do apartamento onde pernoitará. Espontânea e divertida ("Gosto de levar a vida a rir", repete), a artista vê paralelos evidentes entre o controlo que acaba por exercer sobre o seu próprio visual e a integridade musical que pretende manter.

Espalhando charme por Loulé Há numerosos artistas com quem gostaria de colaborar muitos dos quais pertencentes à brigada, nova e menos nova, do Brasil mas a coerência está em primeiro lugar. "Há coisas que encaixam comigo, com o meu gosto. É a mesma coisa com a roupa: posso dizer-te que aquele vestido é muito lindo para tu vestires, mas se tu não te sentires bem, não vale a pena. Eu gostava de fazer parcerias, mas sempre com alguém cuja música me diga alguma coisa. Até podia ser uma Beyoncé", ilustra, "ou o artista do mundo com mais público. Alguém que me daria a ganhar muito, se eu colaborasse com ele. Se eu sentisse que o género não encaixava, preferia estar quieta", garante, acrescentando: "Por isso é que também não gosto muito de duetos. Muitas vezes acontecem porque o público quer ver dois artistas juntos! Mas, para mim, não pode ser só isso, tem de haver conteúdo, e o conteúdo num dueto, a meu ver, tem de ser muito bem trabalhado mais do que se for [uma atuação] individual", sublinha, mencionando a "linha muito fininha" que separa uma colaboração bem-sucedida de uma autêntica "piroseira. Acho que na vida é tudo assim: tem de haver alguma coisa, não é juntar por juntar". Irmã mais velha de uma família numerosa, Gisela cedo se habituou a tomar conta dos seis irmãos, e esta foi uma escola que lhe deu lições insubstituíveis. "O facto de ter tido responsabilidade de adulta, quando era mais nova, fez-me perceber cedo que não vale a pena estar a perder tempo a comportar-me como os outros esperam que me comporte. Temos de nos comportar consoante aquilo que sentimos. Não é toa que ouvimos as nossas avós a dizer: faz as tuas coisinhas como tu queres, não te preocupes com os outros. Isso não quer dizer que não nos preocupemos com os outros, mas sim que não devemos fazer para os outros verem. Quer dizer: segue aquilo que queres fazer", argumenta. A sua postura jovial já lhe valeu, contudo, alguma desconfiança e crítica. "Preocupo-me é quando me confrontam com o meu comportamento. Aí penso: porra, por eu ser mais despreocupada e descontraída não quer dizer que não seja responsável! Ou que não pense muito sobre as coisas. Aliás", esclarece, "eu até tenho outra visão sobre isso: acho que, a partir do momento em que consegues brincar com uma situação, é sinal de que já a aceitaste e respeitas muito, por isso é que consegues brincar com ela", elabora, rematando: "Eu não vou deixar de ter esta postura, porque chateia-me essa [ideia] de teres de empinar o nariz e de te comportares como uma diva para seres respeitada".

Quase famosa Quando vai à receção do aldeamento pedir um ferro de engomar, Gisela João não é reconhecida. À exceção das crianças que a abordam para pedir autógrafos (em Loulé, conta, foi rodeada por garotos de 8 ou 10 anos, alguns dos quais queriam ser o seu namorado), a sua passagem pelo comércio e restauração algarvios decorrem com a tranquilidade de uma quasi-anónima. O facto de a sua popularidade estar em alta ("Eu sei que o meu nome está na moda", diz, mostrando moderada preocupação com o fenómeno) contrasta com a possibilidade de passear na rua sem ser identificada como a figura pública que já vai sendo. Certa vez, conta divertida, apanhou um táxi a bordo do qual aproveitou para tratar de vários assuntos ao telemóvel. "A menina agora vai falar mais baixo", interrompe-a então o taxista, "que isto não é um escritório, e eu gosto muito de ouvir esta menina a cantar". Na sintonia da Rádio Amália, que o condutor então coloca no volume máximo, passava "(A Casa da) Mariquinhas", a versão que Gisela João gravou, com letra de Capicua, para o seu primeiro álbum. O episódio, que já ganhou estatuto de clássico, é recordado com gargalhadas de toda a equipa: além dos técnicos de som e de luz, da tour manager e de Frederico Pereira, produtor do disco e autor dos arranjos para orquestra de todas as canções interpretadas, viajam pelo sul do país os três músicos de Gisela João.

Frederico Pereira, produtor (à direita) Todos são especialmente jovens nenhum chegou sequer aos 30 anos e juntaram-se para acompanhar a cantora. Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, Nelson Aleixo na viola e Francisco Gaspar no baixo são a primeira escolha da fadista e impressionam pela juventude e destreza. "Uma vez a Maria de Nazaré viu-nos a tocar e disse: são tenrinhos mas tocam bem!", partilham risonhos. Gisela não se imagina sem eles. "Gostava muito de [passar uma temporada no estrangeiro], porque acho que fazia falta", confessa à mesa de uma esplanada em São Brás de Alportel. "Eu só ando a procrastinar isso porque não faço nada sozinha, faço com os músicos. Quando sais de Portugal, há sempre alguém que toca guitarra portuguesa, que toca fados, que toca viola, mas aí entra o nível. Eu detesto fazer as coisas por baixo, detesto", afiança. "Às vezes penso: gostava de passar uma temporada em Nova Iorque, no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Mas depois lembro-me [dos meus músicos]. Podia tentar cantar outros géneros, mas o desenrasque para mim não me faz muito sentido. Eu desenrasco qualquer coisa para comer, qualquer canto para dormir não me chateia nada. Mas o desenrasque na música não me agrada. Eu desespero quando não tenho os meus músicos, mas desespero mesmo. Porque é um casamento", compara, informando que tem "uma segunda equipa que toca muito bem, mas é diferente, porque não temos a mesma rodagem".

Os músicos de Gisela João Mais do que simples companheiros de palco, Ricardo, Nelson e Francisco são peças insubstituíveis de um caminho que Gisela começou a trilhar com a gravação do primeiro disco. "Quando estávamos a gravar o Fado Alvito, que é o "Primavera Triste", eu não estava a gostar muito de me ouvir. Não tinha muita confiança no que estava a fazer", lembra. "Estava com os fones, com o Frederico, noutra sala, quando ouço o Ricardo a dizer: ela que se cale. Vai gravar isto sim senhora, que está a cantar como o caralho. Então eu cantei outra vez e realmente reconheci-me. Eu gosto que toda a gente se sinta envolvida no que estamos a fazer: não é só meu, é deles também".

Além do fado Depois do concerto em Faro, que decorreu no largo da Sé local, perante uma plateia sentada de público pagante, a equipa de Gisela João reúne-se num restaurante para um jantar tardio. O espetáculo fora um sucesso, com os arranjos orquestrais pensados por Frederico Pereira a sublinhar com graciosidade, e sem pompa excessiva, a beleza de canções magníficas como "Madrugada Sem Sono" (repetida de forma explosiva no encore), "Voltaste" ou "Sou Tua". A assistir estiveram algumas personagens ilustres da história recente, mas emocionante, de Gisela: a mãe do seu manager Helder Moutinho (e de Pedro Moutinho e Camané) foi ver o concerto, dando-lhe os parabéns no final. O seu marido, falecido há dois anos, foi um dos primeiros a incentivar esta mulher do norte. "Ele dizia-me: tu não ligues se te disserem que és do Porto, tu tens é de cantar!", recorda, emocionada, Gisela, que quis incluir no seu primeiro álbum um corridinho que Manuel Paiva se entusiasmava a ouvi-la cantar. "Foi uma homenagem, porque infelizmente ele morreu antes de o disco sair. O Camané tem muito dos jeitos dele a cantar", comenta, com a familiaridade de quem já trata por tu um dos seus grandes heróis. Também em Faro esteve, naquela noite de agosto, Francisco Vasconcelos, presidente da Valentim de Carvalho que, aquando do lançamento de Gisela João, escreveu ter esperado 30 anos para editar aquele disco. Quando alguém comenta que, na presença de todos os músicos da orquestra, Gisela ficou com o palco curto para as habituais movimentações haverá poucos fadistas com uma entrega tão física, quase perigosa o homem que editou Com que Voz, de Amália, riposta de imediato: "Ela tinha pouco espaço mas a voz dela passa por cima de tudo". Entusiasmado com as novidades não ensaiadas da prestação daquela noite "Viram aquele grave que ela deu no "Madrugada Sem Sono"? E nem se apercebeu!" Helder Moutinho, que filmou todo o espetáculo, responde satisfeito aos comentários de quem se diz ter emocionado: "Ela é só emoção!". A emoção de Gisela dá, contudo, muito trabalho. Assistir a um concerto seu é ficar arrepiado com o equilíbrio entre concentração e rigor extremos e os arremedos físicos e espontâneos de uma interpretação sem igual. Ainda que diga não ser boa a verbalizar, ela faz-se entender: "Eu estou concentrada nas letras, nos tempos, nas respirações, nos silêncios tudo isso é muito importante. Mas essa concentração serve para tu te poderes libertar e viveres a coisa. Porque quanto mais nós, que estamos a fazer a música, estivermos dentro da coisa, mais quem está à nossa frente a vai sentir". A imersão a 100% explica assim, de forma paradoxal, a abstração: "Eu às vezes faço coisas com a garganta que nem sei como. Estou a sentir a voz a ir e não sabia que era capaz de fazer aquilo", explica. Sobre o tal grave que impressionou Helder Moutinho, ela ri-se: "Eu nem tenho noção onde é que foi, mas a energia [em Faro] era tanto que eu ouvia-os todos dentro de mim. Sentia que me saía música pelas orelhas, pelo nariz, pela boca, pelas pontas do cabelo, por todo o lado. Eu ouvia-os e aquilo puxava por mim é quase como se fosse uma carruagem a puxar e a última é quase levada pelas outras. Eu sou a última". De volta ao restaurante, e enquanto Gisela é abordada por uma menina chamada Júlia (começando de imediato a cantar "Oh Júlia, trocas a vida pelo fado."), Frederico Pereira diz achar normal que a cantora que descobriu numa audição para a banda Atlantihda, procurando no Myspace por "fadistas do Porto", chegue a um público transversal, conquistando inclusivamente aqueles que dizem não gostar daquele género de música. "Isso é porque essas pessoas já estão ver além. Estão a ver o que vai ser o futuro", afirma. "Ela é uma artista. Quando começámos a trabalhar, pensámos nela como uma Ella Fitzgerald. A Gisela é uma voz independente, independente de referências, por isso pode ser o que quiser, vestir o que quiser".

O Brasil e o resto do mundo

Frederico, diz-nos Gisela, é uma das pessoas que mais se preocupam com ela. No seu talento deposita toda a fé e confiança, mas quando a confrontamos com a declaração do produtor sobre o seu potencial para ir além do fado, fica com vergonha. "Não sei muito bem responder a essas perguntas que são diretamente sobre mim. Gosto muito de outros géneros de música: acho que ninguém consegue gostar só de um, porque tu também não vives de comer só ervilhas ou arroz!", exclama. "Ainda por cima a música é uma coisa de emoção: é sensitivo, é visceral, tu sentes cá dentro e tens muitos estados de espírito num dia, até durante uma hora! Quando eu ouço os músicos, eu deliro!", partilha, e podemos confirmar a sua expressão de deleite ao escutar a orquestra que a acompanhou no Algarve e à qual fez questão de agradecer dizendo o nome de todos os músicos, uma atitude rara, segundo o maestro Cesário Costa. "Eu gosto de cantar. Canto fado, maioritariamente, mas gosto muito de cantar outras coisas, e na minha maneira de brincar às vezes até digo: mas isto também é um fado, este gajo é um fadista! Todos os que põem o coração naquilo que fazem, para mim está tudo dito".

Com o maestro Cesário Costa Passar algumas horas com Gisela é confirmar que a vencedora do Prémio Amália Revelação é, acima de tudo, uma amante de música. Enquanto costura o seu vestido vermelho com capa de superheroína, não para de cantarolar a letra de "Lamento Sertanejo", de Gilberto Gil: "Eu quase não saio/Eu quase não tenho amigos/Eu quase que não consigo/Ficar na cidade sem viver contrariado". Estas palavras falam ao coração de quem, como a barcelense, trocou a Invicta, a que já chamava casa, por uma Lisboa que demorou a abraçá-la. Vestido pronto e Gisela vai buscar os dados do Paypal para, por 90 cêntimos, comprar o MP3 da canção que continua a tentar acompanhar. "Há partes em que ele canta mais grave que eu", observa. Perguntamos-lhe se alguma vez teve complexos por ser menina de voz romba. "Quando era criança não conseguia dar aqueles berros como as outras miúdas", ri-se. "Quando comecei a cantar nas casas de fado, tinha alguma pena de não ter os mesmos agudos que outras fadistas. Mas toda a gente tem limitações. A Amália também tinha", considera, permeando a conversa com uma nostalgia benigna por divas de outros tempos, como Ella Fitzgerald e Billie Holiday. Fresca e entusiasta com tudo o que a rodeia, a si e à sua profissão, Gisela tem noção de que vive numa era peculiar: conhece, entre os veteranos, quem tenha pago uma casa com as idas à televisão, onde hoje ninguém é pago para tocar; deixa-se enamorar pelo romantismo e glamour vintage de épocas dificilmente repetíveis, num mundo de partilhas instantâneas e redes sociais. Fica feliz, contudo, por ter dado um pequeno contributo ao "dress code" do meio em que se move: "Eu sinto que ajudei a mudar um pouco a maneira como as minhas colegas se apresentam", confessa, reparando nas fadistas que já "arriscam" calçar sapatilhas ou sair dos tons do negro e cinza. A sua informalidade, tanto no visual como na comunicação nas redes sociais, onde todos os dias recebe mensagens de fãs e colegas, fez a diferença, e Gisela tem justificado orgulho na pequena revolução que ajudou a operar. "Acho que falta coragem para fazer diferente, para pôr a cabeça no cepo", admite, lembrando como génios da estirpe de Dalí ou Picasso desrespeitaram regras, criando a sua bíblia pessoal.

Dançando de saltos altos

Em Lagos, Gisela voltou a partilhar palco com a Orquestra Clássica do Sul mas, frente a uma plateia em pé, de entrada grátis para espanto do turista alemão que durante o concerto nos fez intermináveis perguntas sobre a jovem cantante a energia foi ainda maior.

Ao vivo no verão de 2014, no Algarve Palmas, pedidos de encore e um público ao rubro, desde as crianças que assistiram aos ensaios aos octogenários que não arredaram pé até depois da meia-noite, marcaram um concerto onde os temas mais extrovertidos, como "Bailarico Saloio" ou o "Malhões e Viras", respiraram de outra maneira. Conjunto inatacável de canções, Gisela João é a base do concerto, mas nem todos as noites têm o mesmo alinhamento: "O Fado Cravo, o "Maldição", que está no meu disco, é sempre um berbicacho", desabafa a intérprete. "A intensidade de que preciso é tanta que, se não acordo para aquilo, não consigo e tiro-o do concerto. Sinto-me uma porca quando estou a cantá-lo e não estou a sentir o que sei que tenho de sentir para cantar aquela música. Sinto que o trato com alguma leviandade quando não estou em dia sim". Dizer que Gisela João já pensa no segundo disco é um eufemismo: ela até já se prepara para a eventualidade (no seu sentir, bastante forte) de as críticas não serem tão amáveis como as da estreia. Importante será, sublinha, continuar a seguir o seu gosto e as suas convicções de consciência tranquila, assegura, será mais fácil enfrentar qualquer ataque. Quanto ao repertório, poderá vir a gravar fados que ficaram de fora do primeiro disco, e adoraria gravar poemas novos. "Mas não sei até que ponto é que vou encontrar poemas que me vão dizer alguma coisa. Porque não é fazer por fazer hoje em dia há uma procura muito sôfrega de se fazer diferente que me assusta muito. Essa procura confunde muito as pessoas, porque não é por estares a fazer novo que vai ser diferente ou melhor; corres é o risco de seres [só] mais uma novidade. Se eu não encontrar poemas novos para encher o meu disco novo, não estou preocupada. Há poemas antigos tão lindos! E eu também gosto muito dessa parte da minha profissão, que é poder ir buscar coisas antigas que estavam meio esquecidas, talvez não para o meio do fado mas para o grande público, e mostrar que houve alguém que escreveu aquele poema lindo, que fez aquela melodia linda. Acho lindo ter esse poder de lembrar os antigos. Aquela pessoa já morreu, mas a memória dela e do que ela fez continua. Não acho isso menor". Confiante e não raras vezes eufórica, Gisela João revela-se uma observadora atenta, capaz de uma autoanálise e uma introversão certeiras. "Muitas vezes dá-me a sensação que algumas pessoas trabalham com música porque é cool. Eu acho que aí são mais os egos [em jogo]. Na minha forma de ver a música, eu não existo enquanto Gisela João", dispara. "Sou eu a cantar, a sentir, aquilo é o mais puro de mim. Mas digo que não existo eu, enquanto ego de estarem a olhar para mim. Eu sinto-me um veículo para servir a música, não me posso preocupar se o meu vestido se sujou a meio do concerto". No braço esquerdo, Gisela tem tatuada a frase "don't forget to play", no direito lê-se "viva a felicidade", e as palavras com que remata esta reflexão fazem todo o sentido naquela tarde de muito calor, a poucas horas de mais um concerto triunfal ao ar livre. "A música está acima de nós. Nós morremos e aquilo fica cá. Às vezes, a falar com as pessoas, não consegues passar nada, e com a música consegues chegar ao seu mais íntimo". Lembrando o "respeito" que tem de manifestar, "porque vais tocar lá dentro", remata esta fabulosa miúda-mulher: "Então, eu não existo. Não há espaço para egos".

 

Texto: Lia Pereira Fotos: Estelle Valente