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Smashing Pumpkins: Mellon Collie and the Infinite Sadness faz 20 anos, mas Billy Corgan ainda tem um sonho

O terceiro álbum dos Smashing Pumpkins fez recentemente vinte anos. A BLITZ assinala a efeméride com um artigo de Lia Pereira escrito aquando da reedição de Mellon Collie, em 2012.

Em 2005, Billy Corgan confessou, em entrevista ao Daily Telegraph, que o facto de, até então, não ter conseguido constituir família o desgostava profundamente. "Adorava ter filhos, mas parece que está escrito que todas as mulheres com quem me envolvo vão acabar comigo, ou eu com elas". Perante as palavras de conforto do jornalista, o norte-americano, então a promover o primeiro e até agora único disco a solo, dispensou a misericórdia alheia: "Considero [a ausência de filhos] um dos meus maiores fracassos". Figura parodiada com alguma frequência, sobretudo desde que os Smashing Pumpkins perderam o poderio alcançado durante a era de Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995), Billy Corgan continua a ser, agora que já completou 45 anos, um homem solteiro e sem descendência, mas pode orgulhar-se de um corpo de trabalho extenso e eclético, ainda que nem sempre bem recebido pela crítica e pelos próprios fãs. A ressaca de Mellon Collie..., agora reeditado com quase 70 (!) canções inéditas como extras, terá sido particularmente dura para Billy Corgan, James Iha e D'arcy Wreztky, três quartos de uma banda que chegou a dominar o panorama do rock dito alternativo, nos idos de 90. Para trás ficara Jimmy Chamberlin, baterista com quem Corgan tinha uma relação quase telepática e que o guitarrista James Iha não hesitava em considerar "o melhor músico de todos nós". Em 1996, Chamberlin sofreu uma sobredose de heroína, num quarto de hotel em Nova Iorque. Consigo estava Jonathan Melvoin, teclista que acompanhava os Smashing Pumpkins em digressão e que acabou por morrer. A decisão de Corgan, Iha e D'arcy não se fez esperar: cinco depois da morte do colega e da sobredose de heroína do grande amigo, a banda despediu Jimmy Chamberlin, chocando alguns companheiros no meio musical. Mais tarde, os Pumpkins explicariam que não tinham tido, à época, outra alternativa: aquela não era a primeira vez que Jimmy Chamberlin e Jonathan Melvoin tinham sobredoses de heroína; só na digressão de Mellon Collie., a dupla sucumbira a doses excessivas por duas vezes, uma na Tailândia e outra em Portugal, onde tiveram de ser socorridos em plena via pública, à porta do hotel onde a banda estava hospedada aquando do famoso concerto na Praça de Touros de Cascais. "Todos nós, os três, estendemos-lhe a mão e ele mijava sempre nela. Não vamos deixar que a maçã podre nos estrague a nós", ilustrou na altura Billy Corgan, à Q. "Ele sabe que, se quisesse ficar limpo, nós cancelávamos a digressão por ele. Dissemos-lhe: fazemos tudo por ti. E provámos que isso era verdade, porque quando o pai dele morreu [em março de 1996], estávamos na Austrália e ele quis continuar a tocar. E nós dissemos-lhe: não, tu tens de ir para casa. E cancelámos os concertos". O afastamento de Jimmy Chamberlin, mais tarde readmitido nos Smashing Pumpkins, não era o único fantasma da banda de Chicago no pós-Mellon Collie: no mesmo ano, Billy Corgan divorciou-se da companheira de longa data, com quem tinha casado em 1994, e perdeu a mãe, Martha, para um cancro fulminante. "Num dia estava perfeitamente saudável, noutro dia estava morta", comentou Corgan na mesma entrevista. De forma algo paradoxal, a morte de Martha acabou por aproximar o músico da sua mãe. "Quando ela adoeceu, confiou em mim para tratar de tudo", contava Corgan à Mojo. "Eu passei a ser o pai e ela a filha. Essa é a verdadeira beleza da vida. Tudo se compõe". As declarações do pai dos Smashing Pumpkins fazem mais sentido à luz do sentimento de abandono que, segundo o próprio, sempre o perseguiu. Fruto de uma relação pouco sólida, Billy não foi uma criança desejada os pais consideraram dá-lo para adoção e, quando o filho tinha quatro anos, acabaram por divorciar-se. A infância acabou por ser passada com a mãe, até ao momento em que Martha foi internada numa casa de saúde mental, depois com os avós e mais tarde num trailer park com o pai, a madrasta, o irmão e um meio-irmão, que sofria de autismo. "Abandono e relações abusivas à boa maneira americana", resumiu em 1999. "Os teus pais biológicos vivem a 45 minutos de ti e quem te está a criar é a tua madrasta. Eu via a coisa como qualquer criança: os meus pais não me querem". A carência afetiva acabou por marcar a juventude e idade adulta de Billy Corgan, tornando-o incapaz, segundo o próprio, "de manter uma relação" e aumentando, também, a tendência para a prepotência e uma certa tirania dentro da banda que formou quando conheceu James Iha numa loja de discos e D'arcy num concerto. "Quando conheci o Billy fui a casa dele porque ele disse que andava à procura de alguém para escrever", recorda a baixista. "Mas disse-me logo: "Antes de escrevermos juntos tens de aprender estas canções". E passou-me uma cassete com 45 ou 50 canções. Dele! E a cada semana passava-me mais umas dez canções. Eu pensava: isto é uma loucura, mas ao mesmo tempo adorava a música". Stevie Wonder ao jantar Na adolescência, Billy Corgan destacou-se como atleta, no liceu, mas pouco a pouco acabou por empenhar-se mais na música. "O meu pai era um músico de rhythm and blues, por isso, à mesa do jantar, ouvíamos Al Green e Stevie Wonder", lembra o cantor e compositor. Mas outros sons se imiscuíram no coração deste fã de Jimi Hendrix, The Cure ou Bauhaus: "No sítio onde eu cresci não havia futuro nem passado, e aparece uma banda a cantar sobre ser-se paranoico. aquilo percebia eu!", contou ao Daily Telegraph, referindo-se à sua descoberta dos Black Sabbath. A mistura de hard rock (que em 2000, à revista Uncut, Corgan lamentava não ser um género musical mais conhecido na Europa), psicadelismo e dream pop foi tornando os Smashing Pumpkins um dos nomes maiores do rock dos anos 90: em 1991, Gish, o primeiro disco, ainda saiu por uma pequena editora, curiosamente no mesmo dia que Nevermind, dos Nirvana. Mas Siamese Dream, que lhe sucedeu dois anos depois, já foi editado pela major Virgin, o que contribuiu para catapultar a ansiedade de Corgan. "Nessa altura dávamo-nos muito mal uns com os outros", admite. "O baterista estava com problemas, não aparecia. Eu não conseguia que ninguém se concentrasse no disco. Então fiz o melhor que pude". O que Corgan fez foi gravar as partes de guitarra e baixo de Iha e D'Arcy, reforçando a sua fama de tirano e lançando dúvidas sobre a capacidade dos companheiros de banda. Três dias depois de terminada a digressão de ano e meio de Siamese Dream, Corgan começou a escrever aquele que foi o disco mais bem-sucedido dos Smashing Pumpkins e uma das obras rock mais marcantes dos anos 90. Álbum duplo, Mellon Collie... vendeu quatro milhões de cópias nos Estados Unidos, pariu seis singles omnipresentes e até nos vídeos a banda fez história, colando, por exemplo, o teledisco de "Tonight, Tonight" ao filme mudo de George Méliès, Voyage Dans La Lune. "Quis resumir tudo o que senti quando era jovem, mas que nunca conseguira articular bem. O disco sou eu a dizer adeus a mim mesmo pelo espelho retrovisor, fazendo lacinho à volta da minha juventude e guardando-a debaixo da cama". A hipersensibilidade de Corgan, secundada pelo contributo dos parceiros de banda, que desta feita tiveram mais peso na confeção do álbum, e do produtor Flood, escolhido em detrimento do habitual colaborador Butch Vig, será a pedra de toque de Mellon Collie..., uma obra megalómana e inescapável. "Um The Wall [dos Pink Floyd] para a Geração X", disse o próprio músico, à época, e o ponto alto da carreira dos Smashing Pumpkins enquanto os conhecemos na década em que lançaram a sua luz negra sobre o pop/ rock anglo-saxónico. Seguir-se-iam Adore ("um teste à minha integridade", define Corgan), marcado pelas agruras pós-Mellon Collie (entre as quais a morte de uma fã no mosh pit, num concerto em Dublin), a dupla Machina e Machina II e o fim, em 2000. Da segunda vida dos Pumpkins, com Jimmy Chamberlin de volta na banda, já constam dois álbuns: Zeitgeist, em 2007, e Oceania, em 2012. Mas é Mellon Collie, a casa de "Bullet With Butterfly Wings", "Zero" ou "1979", que agora regressa às lojas, numa reedição com quase 70 faixas extras que obrigaram Corgan a procurar material mal arquivado pela editora e a reouvir centenas de gravações. "Com esta reedição quis mostrar como é que os álbuns foram feitos e o que andava à volta deles, para que as pessoas possam apreender o sentido da cultura naquele período", disse ao Detroit News o homem em cujo discurso a palavra sonho ainda pesa muito. "Não me quero reunir com as pessoas que me deram cabo da cabeça, mataram o meu desejo de tocar e me processaram", argumentou, referindo-se a D'Arcy e Iha. "As pessoas esquecem-se do meu sonho, que é ser músico numa banda com pessoas que querem estar lá comigo. Não nos vamos esquecer dessa parte do sonho". Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2012